Crítica | O Chamado do Mal ou um dente podre

Por Sihan Felix | 10 de Dezembro de 2018 às 11h09
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O cinema de gênero vem, felizmente, reconstruindo sua importância. Muito por conta de filmes que unem o sucesso nas bilheterias com as avaliações positivas da crítica especializada. Alguns, como Corra!, já alçam voos mais performáticos, alcançando premiações populares como o Oscar. É um movimento interessante, que vem rendendo frutos com força suficiente para influenciar e guiar o caminho de novos trabalhos. Invocação do Mal (2013), Corrente do Mal (2014), A Bruxa (2015), Um Lugar Silencioso (2018), Hereditário (2018)... a lista continua aumentando. Não que algum desses seja unânime, mas são marcos de uma investida crescente do cinema americano (ou não) no terror; filmes capazes de quebrar preconceitos e conquistar novos fãs para a categoria.

Os razoáveis primeiros momentos

O Chamado do Mal, porém, entra nessa lista pela porta dos fundos. Mas essa não é uma porta que pode levar aos mesmos cômodos. É uma porta para o esquecimento, que se abre somente para engolir e guardar para sempre qualquer produção altamente problemática.

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Uma crítica, ainda assim, deve evitar o exagero para qualquer lado. O problema é que, de vez em quando, surge algo que rompe essa barreira e a noção do que é um filme se perde, confundindo qualquer profissional. Como comentar sobre o básico se nem mesmo o básico existe? Como separar um péssimo filme de um que ainda precisa comer muito feijão com arroz para ganhar corpo e chegar, de fato, a ser... péssimo?

(Imagem: Imagem Filmes)

E O Chamado do Mal começa bem! Os 30 segundos iniciais são bonitos (como a maioria das tomadas feitas por um drone sobrevoando algo). Do alto e lentamente, a imagem vai se aproximando de uma casa em meio a árvores, à natureza. Aquilo vai causando uma sensação de importância que cresce junto à música genérica de Jeff Cardoni. Quando corta para que os personagens sejam apresentados, há um sentimento de urgência sedimentado por esses primeiros momentos que é bem razoável. Pronto: o clima está construído. De uma forma boba, mas construído e bem engolível. Tudo pronto para o desenrolar de um terror minimamente aceitável.

E tudo desmorona

E, de repente, parece que um raio destruidor de inícios atingiu a tudo e a todos. Surge um protagonista com o carisma de um pastel mofado, desfila um sujeito sem camisa que lembra o Jacob de Taylor Lautner da saga Crepúsculo e passa-se a conhecer uma história que poderia ter sido tirada de um folhetim religioso sensacionalista.

E foi quase isso.

(Imagem: Imagem Filmes)

Livremente inspirado na história escrita por uma freira na década de 1950, que conta sobre a experiência de ser assombrada por um feto abortado, O Chamado do Mal reúne praticamente todos os clichês de filmes de terror em meio a escolhas absurdas baseadas em “não sei o que fazer, então vou dar um susto aleatório” ou “vou inserir um elemento sem sentido algum só para criar mistério”.

Dessa dupla de escolhas, surgem bizarrices que fazem rir e, ao mesmo tempo, constrangem, além de situações completamente toscas. Destaques especiais para o bebê esotérico que, ao ser encarado pela pobre Lisa Pierce (Bojana Novakovic), assume as feições malignas de um dos Feisty Pets e emite o som de um gato chateado; e à personagem Becky (irmã de Lisa, interpretada por Melissa Bolona), que entra e sai da história sem compromisso algum com o que quer que seja.

Feisty Pets (Imagem: DTC)

Fica aberto o motivo de ela (Becky) ter dado uma enigmática caixa (de Pandora) à Lisa, o que ela tem a ver com a possessão do demônio que consome úteros, que danado ela tem a acrescentar à história a não ser a habilidade de ser um pombo-correio de Satanás... é um mistério tão tosco que faria mais sentido se, do nada, a tela congelasse, surgisse He-Man e fizesse um alerta sobre as drogas: “Sempre que aceitarem algo de qualquer pessoa, exceto seus pais ou médico, vocês estarão correndo um grande perigo.”

A questão nem é a de que um filme precisa ser “cabeção”. Muito menos a de que fazer sentido é sempre necessário. Se a proposta é ser nonsense, que assim seja. Se o público-alvo é aquele que busca somente entretenimento, passatempo ou algo do tipo, tudo bem. Se não for uma tentativa de enfiar bobagens sem sentido somente para criar dúvidas no espectador e desviar a atenção de todas as fragilidades (palavra bondosa aqui) da obra ou a construção de uma coisa sem forma, dando a impressão de desprezo para com o público de terror, o filme é válido.

Não é o caso de O Chamado do Mal.

É caso de extração

Ainda assim, os 30 segundos iniciais que, além do tema da história, criam um clima à la O Bebê de Rosemary (de Roman Polanski, 1968) e as teorias arremessadas de qualquer jeito que parecem ter sido retiradas de Os Outros (de Alejandro Amenábar, 2001), têm o seu valor. O negócio é que esse valor é tão irrisório que, ao colocar frente a frente ao bom terror que tem sido produzido, ele (o valor) torna-se negativo. O Chamado do Mal fica em dívida com o cinema. Fica devendo àqueles que gastaram com ingresso; fica devendo tempo e paciência ao seu público. Ele (o filme) ainda pode tentar pagar com alguns cochilos. Para quem dorme pouco ou tem insônia pode até ser uma vantagem. Mas nada que compense.

De resto, não é difícil para quem assistiu The Room (de Tommy Wiseau, 2003) – o maior clássico dos filmes ruins – lembrar-se de Johnny (interpretado pelo próprio Wiseau) assistindo à atuação de Josh Stewart (o Adam) aqui em O Chamado do Mal. As expressões faciais, a gesticulação e a impostação vocal (auxiliada pelo roteiro broxante – adjetivo mais do que válido na comparação com The Room) parecem inspiradas abertamente naquele personagem de 2003. Sem contar o nome do seu par romântico (Lisa).

No final das contas, Malicious (no original) é dos mesmos produtores de Corra! assim como um dente podre pode pertencer a uma boca cheia de dentes saudáveis. É triste, dessa maneira, que um filme com o orçamento estimado em US$ 3,5 milhões (um a menos que o dito Corra!) não consiga se salvar nem mesmo se for obturado.

(Imagem: Imagem Filmes)

É caso de extração.

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