Crítica | Estrada Sem Lei e o único mal irremediável

Por Sihan Felix | 19 de Abril de 2019 às 18h00
Netflix

Um clássico, uma minissérie para televisão, algumas outras obras pelo caminho e, entre essas, até mesmo uma intitulada Bonnie & Clyde vs. Dracula. Ainda assim, a visão dos criminosos que viajavam pelos Estados Unidos com sua gangue durante a Grande Depressão sempre foi a mais conhecida. Se, enquanto vivos, o casal tinha um grau de reconhecimento comparável ao das estrelas de Hollywood, parece irônico que, anos depois da emboscada que daria fim às aventuras, a dupla tenha realmente alcançado o estrelato... ainda mais quando do lançamento de Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (de Arthur Penn, 1967), que quebrou diversos tabus (especialmente de sexo e violência) e influenciou o cinema dos anos e décadas que viriam.

Cuidado! A partir daqui esta crítica pode conter spoilers!

Uma força etérea e a manutenção do desconhecido

Estrada Sem Lei simboliza o outro lado, a face de uma ordem que, à sua maneira, precisou burlar a lei. Assim, os policiais civis aposentados Frank Hamer (Kevin Costner) e Maney Gault (Woody Harrelson) são postos de volta à ativa pela governadora do Texas Ma Ferguson (Kathy Bates). Com a ideia de manter os Texas Rangers abolidos, Ferguson usa de espaços na legislação para o retorno de Hamer e Gault como patrulheiros, membros do serviço especial rodoviário.

Esse início é de uma habilidade narrativa fundamental para o desenrolar da história. Paralelamente, são mostrados crimes (sobretudo assassinatos) protagonizados por Bonnie (Emily Brobst) e Clyde (Edward Bossert) e a evolução criminosa dentro da burocracia política. Sendo assim, o filme demonstra que não se trata somente de uma oposição à visão heroica dos criminosos, mas de uma constatação da força quase etérea daqueles que eram perseguidos e jamais alcançados dentro da lei há tempos.

Acentuando esse caráter mágico – ou, sendo mais real, misterioso – de Bonnie e Clyde, o diretor John Lee Hancock (de Um Sonho Possível, 2009) opta por esconder seus rostos quase que durante todo filme. Esse caminho, muito utilizado no terror, para além de atiçar a curiosidade do espectador, insere neste o mesmo desconhecimento de Hamer e Gault. Ligando, dessa forma, os protagonistas ao público, Hancock assume, claro, o lado da sua história, mas jamais deixa de revelar a força antagônica.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Inclusive, ao mesmo tempo em que Hamer e Gault são tratados com profundo desgaste, construídos à base de um ritmo lento, as ações de Bonnie e Clyde surgem com uma beleza estética e com uma força praticamente opostas. Nesse sentido, a direção de fotografia de John Schwartzman (de O Espetacular Homem-Aranha, 2012) é imprescindível. É perceptível, por exemplo, que, logo após Hamer ser convidado para ir à caçada por Lee Simmons (John Carroll Lynch), Schwartzman utiliza um jogo de luz e sombra de muita engenhosidade na sequência: aparentemente, apenas o semáforo vermelho e os faróis do carro iluminam a cena; enquanto o semáforo pisca e as sombras surgem, são revelados detalhes da gangue (nunca os rostos dos líderes) dentro do carro. São planos detalhes que deixariam Hitchcock orgulhoso, principalmente pela manutenção do desconhecido.

O roteiro e a alma sombria

O roteiro de John Fusco (de O Reino Proibido, 2008) vai além do que seria correto para uma história baseada na realidade. A apresentação da dupla de Rangers é notadamente bem escrita por Fusco. Se Hamer é visto como um sujeito ranzinza, com a vida estável e tranquila – e seu casamento só reforça a estabilidade de sua vida –, Gault é o oposto: vulnerável, falido, quase indigente. Mesmo assim, a personagem de Harrelson é absolutamente humana e, por isso, a de personalidade mais complexa. Gault é aquele que, mesmo com fome, cede sua comida ao neto, reflete sobre a honra e enfrenta Hamer – por mais que se sinta inferior àquele que já salvara sua vida dando-lhe cobertura diversas vezes.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Fusco ainda se arrisca em alfinetar a sociedade contemporânea, inserindo falas que remetem às discussões sobre tradição versus vanguarda (durante toda a perseguição que se torna uma espécie de competição entre os velhos Rangers e os agentes federais), sobre o talento para ser jornalista e, de um jeito sensível, sobre a questão das vantagens de berço. “Ele não nasceu com a alma sombria, mas agora ele tem uma.”, diz o pai de Clyde (William Sadler) durante sua explanação sobre a vida do filho em conversa com Hamer.

E é incrível como o trabalho do roteirista não toma um partido nem mesmo nesse ponto, deixando a reflexão instaurada, mas sem solucioná-la. Isso se deve ao posicionamento de Hamer que, mesmo com sua visão ortodoxa e controladora sobre a vida – e por ter tido as regalias de ser o mais famoso dos Rangers –, consegue ter poder para que o seu magnetismo o preceda.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Claro que Kevin Costner (o eterno protagonista de O Guarda-Costas) dá vida a esse personagem como poucos atores de sua geração conseguiriam. Seu gestual, suas emoções veladas e seus olhares criam uma aura de respeito difícil de romper. Woody Harrelson (o Haymitch da quadrilogia Jogos Vorazes), por sua vez, consegue ir além do seu parceiro, aproveitando toda a humanidade escrita por Fusco para uma de suas melhores atuações dos últimos anos. O olho direito sempre avermelhado de Gault é construção de um ator que costuma se entregar aos seus papéis, além de dar luz à sua fragilidade. A visível fraqueza perante o amigo vai, pouco a pouco, dando lugar a uma força de dentro para fora que explode em carisma.

Manos arriba

A direção de Hancock, que une cada elemento competente com muita habilidade, ainda consegue espaço para utilizar a linguagem do cinema da forma mais poética. As escolhas de Hancock são vistosas, bonitas de se ver. Das chuvas que tomam conta da tela quando os personagens estão em seus conflitos mais íntimos – a governadora Ferguson em sua decisão de convidar um Texas Ranger para fazer o papel de sua polícia e uma discussão entre Hamer e Gault – à dita opção de ir até a cena derradeira sem expor os antagonistas.

Esta escolha, por sinal, é das mais intensas e vale outra explanação: Enquanto Bonnie surge somente em desfoques (em um espelho e prestes a assassinar um policial – na visão deste), o visual de Clyde é uma completa incógnita. O caminho proposto por Hancock é uma rima certeira com a situação dos Rangers, que, assim como o espectador, desconheciam inteiramente os rostos dos caçados – o que só eleva o perigo.

(Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

E quando, ao final, Hamer e Gault passam a conhecer a dupla criminosa, Hancock é positivamente nada econômico: o close – de uma nitidez jamais utilizada durante as mais de duas horas passadas – em seus rostos assustados pela emboscada desmitifica a mágica que havia no caminho da dupla. Seja o ilusionismo de uma perseguição na areia, seja o status de Robin Hood junto a boa parte do povo, nada mais pode esconder o que Bonnie e Clyde são. Ali, de frente para o fim iminente, acabam iguais aos Texas Rangers, aos agentes federais, à Ma Ferguson e a todos os vivos e já mortos (inclusive pela dupla): frágeis diante do único mal irremediável... a morte.

"Manos arriba."

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