Crítica | Creed II mostra que as maiores batalhas não acontecem no ringue

Por Felipe Demartini | 22 de Janeiro de 2019 às 10h04

As luzes se acendem, a música estoura, a torcida vibra e cada lutador carrega nos punhos e nos movimentos a responsabilidade de mudar, ali, no ringue, sua própria história. Entretanto, o combate entre boxeadores, que descem do palco sangrando, machucados e, principalmente, diferentes, não é a principal batalha. Todo mundo está lutando seu próprio conflito e, muitas vezes, somos o adversário de nós mesmos.

Essa é uma das constatações possíveis após a sessão de Creed II, que estreia nesta quinta-feira (24) nos cinemas brasileiros. O longa que continua a história de Adonis Creed e, ao mesmo tempo, marca o recomeço para a franquia Rocky tem o boxe como centro, é verdade, mas ele nem de longe é um filme apenas sobre o esporte. As lutas definidoras do enredo e também do destino dos dois personagens centrais da trama soam mais como um apogeu de seus conflitos do que como uma batalha em si.

É nesse sentido que o diretor Steven Caple Jr. (The Land, Class) e seus roteiristas, um time que inclui também o próprio Sylvester Stallone, que retorna ao papel de Rocky Balboa, modificam um pouco a forma que conhecemos desde os primórdios da série. Todo mundo sabe como filmes esportivos funcionam, como o atleta principal começa no topo, fica perdido e, no final das contas, acaba saindo vitorioso em um jogo que soa impossível. Não que esse clichê de décadas de cinema não esteja aqui, mas temos uma máquina funcionando de maneira diferente.

Enquanto até mesmo o primeiro Creed replica a fórmula dos originais, sua sequência transforma o teor das lutas. Mas há algo aqui que soa diferente em relação ao que é tradicional em filmes de ação: o background dado à família de Drago transforma pai e filho em mais do que inimigos e oponentes a serem surrados. Eles possuem background e, muitas vezes, o espectador pode até se ver dividido em relação a eles.

O contexto político do combate entre Creed e Drago pode não existir mais, pelo menos não com tanta força como em Rocky IV, de 1985. Mas isso não significa que o confronto entre os dois filhos não esteja carregado de contexto, emoção e, principalmente, uma violência extrema que fere mais fundo do que qualquer punho enluvado.

Viktor Drago (Florian Munteanu) e Adonis Creed (Michael B. Jordan) são forças opostas, mas também mais parecidos do que se imagina (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Adonis Creed (Michael B. Jordan) ganha o título mundial dos pesos pesados e pede a namorada, Bianca (Tessa Thompson), em casamento. Ao mesmo tempo, Viktor Drago (Florian Munteanu) amarga em um subemprego enquanto começa a crescer no circuito violento das lutas no Leste Europeu, sendo treinado por seu pai, Ivan Drago (Dolph Lundgren). O antigo astro da União Soviética perdeu absolutamente tudo por causa de sua derrota 30 anos antes e, mais do que saber quem foi o culpado por isso, exerce pressão por enxergar em seu filho o caminho para retornar à antiga glória.

Há muito em jogo para todos os envolvidos e tal contraste é mostrado em Creed II de maneira explícita, quase óbvia, mas serve a seu propósito. Há muito mais em jogo aqui do que o combate de uma nova geração dos ringues. E, aos poucos, o longa vai desenhando conflitos pessoais de seus outros personagens, como o próprio Rocky (Sylvester Stallone), Bianca e até a mãe de Adonis, Mary Anne (Phylicia Rashad).

Para manter o tema da aparição do velho boxeador, que é retratado nos novos filmes como um sábio e, neste, tem praticamente todo o seu texto composto por frases de efeito, “cada um sabe das batalhas que vence dentro de si”. Sendo assim, um dos maiores pontos de Creed II é, ao contrário de Rocky IV, não conseguirmos odiar os Dragos. Por mais que eles sejam claramente os antagonistas, com direito a alguns atos questionáveis, não dá para falar deles exatamente como os vilões.

Em Creed II, os verdadeiros combates acontecem fora dos ringues e após o soar do gongo (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Creed II continua falando muito sobre superação, assim como todos os anteriores, mas não transmite essa ideia da mesma maneira. É claro, é sempre incrível ver os heróis vencendo, a música épica subindo, os temas musicais clássicos que são pincelados o tempo todo e, principalmente, o encerramento de uma história com vitória.

São camadas que terão maior ou menor aderência de acordo com quem está sentado na cadeira do cinema, o que faz com que Creed II seja daqueles filmes que têm apelo diferente, mas igualmente satisfatório, para diferentes abordagens. Quem procura um bom filme de boxe, verá grandes lutas e as boas e velhas montagens de treinamento; quem quer ver a continuidade da história dos personagens, terá um prato cheio; assim como quem procura um longa com frases de efeito, daqueles que faz sair motivado e energizado do cinema.

Creed II é um ótimo filme sobre boxe, mas também sobre personagens, motivação e superação (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Mas Creed II é, de verdade, um filme sobre seus personagens. As lutas decisivas são momentos altos da película, mas muitas vezes acabam representando menos por si mesmas, e mais pelo efeito daquilo que acontece no ringue sobre a vida de cada um dos envolvidos. É uma grande sequência, que cresce em relação ao original e amplia não só seus temas, mas também o de toda a franquia da qual faz parte.

Entre as cordas, Rocky, Adonis, Ivan e Viktor estão confortáveis, possuem suas técnicas e sabem o que fazer, estando protegidos por juízes e regras. Fora delas, entretanto, o bicho pega e, no mundo real, quando as luzes se apagam e as transmissões de televisão terminam, muitas porradas podem acabar doendo mais do que qualquer cruzado de direita bem dado.

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