Crítica | A Maldição da Chorona segue fórmula pré-definida e assusta pouco

Por Felipe Demartini | 17 de Abril de 2019 às 09h11

O mundo do cinema está acostumado com universos. Com Shazam! recém-lançado e Vingadores: Ultimato prestes a chegar, franquias e marcas, mais do que nunca, dão o tom das bilheterias e são responsáveis por formar filas diante das salas. Ainda assim, é estranho notar que Invocação do Mal também é, para a Warner, seu próprio mundo.

A série de filmes que começou com um terror investigativo e baseado em personagens reais se expandiu para abordar diferentes elementos, lendas e personagens, mas jamais alterando a face do terror em si. A Maldição da Chorona, que estreia nesta semana nos cinemas brasileiros, segue essa mesma ideia e, igualzinho, também faz pouco para trazer frescor.

A fórmula é a palavra de ordem aqui e não seria nada exagerado falar que quem assistiu a um desses filmes modernos de horror já viu a todos. Os elementos são sempre parecidos e a construção da tensão, também. A tentativa da Warner, mais uma vez, é bombar nas bilheterias, e, levando em conta que todo o resto segue o mesmo caminho do passado, não existem motivos para pensar que os números também seguirão essa mesma coreografia.

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Horror entre paredes

Como é de costume no universo de Invocação do Mal, o terror da vez está enclausurado e é apresentado de maneira claustrofóbica. A Maldição da Chorona começa há centenas de anos, no México, mas logo nos leva para o seio de uma família tradicional americana, corriqueira em sua disfuncionalidade e daquelas que você já viu em diferentes filmes do tipo. A cena inicial, na casa, demonstra tudo isso de forma bem coreografada.

A Maldição da Chorona acaba caindo sobre a família de Anna (Linda Cardellini) de forma mostrada em tantos filmes antes deste (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Anna Tate-Garcia (Linda Cardellini) está no centro das pressões de ser uma viúva recente, mas conta com o apoio incondicional de seus filhos Samantha (Jaynee-Lynne Kinchen) e Chris (Roman Christou). A bagunça parece funcionar, de alguma maneira, e eles parecem felizes e estáveis, ao contrário do que a mãe vê em seu cotidiano como assistente social.

Sempre há algo de tenebroso em filmes de terror focados em crianças, não quando elas são a fonte do mal, mas sim o objetivo das forças malignas. Qualquer pai ou mãe, sentado na cadeira de cinema, pode sentir a dor e o desespero dos personagens na tela, enquanto filhos podem inverter os papéis e imaginar como eles se sentiriam naquela situação. É um sentimento intimista e próximo de qualquer um, que ajuda no envolvimento com um roteiro que nem sempre faz um bom trabalho.

A maldição da Chorona recai sobre a família de Anna devido a um ceticismo que não é nada claro no primeiro ato do roteiro e nem mesmo existiria em uma situação como a mostrada, quando ela tenta ajudar uma família já problemática. Ainda assim, esse elemento acaba servindo como peça fundamental em um momento mais adiante, quando apenas o sobrenatural é capaz de enfrentar o inimigo.

As motivações soam fora de lugar e se encaixam apenas depois, caso o espectador pense um pouco no caminhar das coisas. E, da mesma maneira, são jogadas fora rapidamente, em um ponto de tensão na trama que nem mesmo precisaria existir. O mesmo vale, também, para o que a Chorona é capaz de fazer — seus “poderes”, se é que podemos chamar assim, estão sempre à serviço do que o roteiro precisa em determinado momento.

Parte do folclore mexicano, A Maldição da Chorona acaba seguindo fórmula pasteurizada no cinema (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Refletir sobre A Maldição da Chorona, entretanto, é notar que o filme vai pouco além de uma combinação de cenas de terror e sustos repentinos, daqueles bem previsíveis e que cheiram à já citada fórmula da franquia Invocação do Mal. Todo o ato intermediário serve como uma colagem de situações para o combate final longo e relativamente interessante, mas também com os pés fincados na mesmice que toma conta do cinema de horror mainstream atual.

Existem momentos de respiro, como referências claras a outros clássicos do terror e, principalmente, a atuação das crianças. Os dois deixam de serem apenas vítimas de uma maldição para se tornarem agentes diretos no último ato do filme, seja em prol da solução ou como mais um elemento de terror. Tanto Samantha quanto Chris chamam a atenção por motivos diferentes e trazem certa diferenciação em relação a outras produções, principalmente nos momentos em que a Chorona tira Anna e o curandeiro Rafael (Raymond Cruz) da equação.

Ainda assim, entretanto, há pouco que represente uma fuga da curva ou um elemento efetivamente de dar medo aqui. Dá para citar, talvez, um fator imprevisível relacionado à própria Chorona (Marisol Ramirez), que às vezes surge com ferocidade e, em outras, aparece de forma sorrateira. O problema, entretanto, é que o espectador sempre sabe quando ela vai dar as caras, se surpreendendo, apenas, com sua maneira de agir. E olhe lá.

As crianças Samantha (Jaynee-Lynne Kinchen) e Chris (Roman Christou) são os poucos pontos que chamam a atenção em A Maldição da Chorona (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Mesmo a ideia de que o filme é baseado em elementos reais, assim como todos os outros da série Invocação do Mal, ajuda pouco no envolvimento geral. A maldição da Chorona existe de verdade e faz parte do folclore mexicano, mas sua reprodução nas telas dos cinemas não poderia ser mais neutra e pasteurizada.

Por outro lado, esse é o tipo de filme que funciona, como os números de bilheteria já citados fazem questão de mostrar. Pode assistir tranquilo, mesmo não tendo intimidade com a franquia como um todo, uma vez que suas conexões são poucas e periféricas, apenas um aceno a quem acompanhou os filmes anteriores.

Para a Warner e James Wan, que mais uma vez empresta seu nome para um filme da franquia que ajudou a iniciar, está valendo. Quem curte o estilo vai sair do cinema feliz, mas não deve se lembrar do longa daqui seis meses. Todo o restante do público, entretanto, deve se decepcionar.

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