A história como algo que pode derrubar as limitações de nossa perspectiva

Por Sihan Felix | 10 de Maio de 2018 às 08h59
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Em Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano (2004), Martin Scorsese faz um relato pessoal que diz muito sobre o conceito de cinefilia:

"Lembro-me com toda a clareza –  estávamos em 1946 e eu tinha quatro anos de idade – de quando minha mãe me levou para ver Duelo do Sol, de King Vidor. Eu era fanático por faroestes. [...] Desde os créditos de abertura fiquei hipnotizado. As explosões de cores delirantemente vibrantes, os tiros, a intensidade selvagem da música, o sol escaldante, a sexualidade evidente. Um filme defeituoso, talvez. Ainda assim, a qualidade alucinatória das imagens nunca perdeu sua força sobre mim ao longo dos anos"

(Imagem: Miramax)

Além desse relato acerca do efeito arrebatador que o cinema em si teve na sua infância, Scorsese conta ainda sobre seu primeiro contato com os estudos sobre cinema: um único livro (A Pictorial History of the Movies) que consumiu sua imaginação e até mesmo seus sonhos, tamanha era sua empolgação e admiração pela sétima arte.

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À época um pequeno Scorsese, o aclamado diretor parece não ter perdido aquele sentimento primordial da sua infância, pelo contrário, cultivou tanto a cinefilia quanto os estudos em cinema e não é absurdo afirmar que ele é um dos poucos profissionais – de qualquer área artística – que não se limita quando chega a um auge: filho dos turbulentos anos iniciais da década de 1940, esse cineasta jamais cansou de aprender. Se ainda não tinha discernimento para vivenciar a Segunda Guerra Mundial, participou do coro de artistas que criticaram a Guerra do Vietnã (1955-1975), produzindo, em 1967, o brilhante curta-metragem The Big Shave, filme que revela seu país em ruínas num processo hanseniano e que, como indica Vincent LoBrutto em Martin Scorsese: A Biography, apesar das inúmeras interpretações que o curta ganhou, Scorsese declarou publicamente tratar-se de uma metáfora da guerra

Inquieto, Scorsese nunca se apegou às suas obras que, com mais frequência, circundam as listas de maiores da história: Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros. Pode-se dizer que Scorsese mantém-se mais atual que qualquer outro cineasta da sua geração, mas isso não se deve ao conhecimento técnico, algo que não é, de fato, exclusividade sua. O senhor das grossas sobrancelhas tem um conhecimento histórico exuberante. Sua febre por conhecimento o faz ter uma das maiores coleções particulares de rolos originais de filmes do planeta, além de o comprometer na localização e na restauração de obras do quase esquecido cinema das primeiras décadas do século passado, de modo que não foi gratuita a escolha do British Film Institute que, em 1994, convidou Scorsese para fazer um documentário sobre filmes americanos em comemoração ao centenário do cinema, resultando no já citado Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano (2004). É aí, no conhecimento profundo da história do cinema, que reside a ininterrupta atualização scorsesiana.

É aí, também, que parte das gerações mais atuais se perde: na ânsia de construir algo novo, esquece que para fazer algo mais do que relevante é preciso mais do que o conhecimento técnico e mais do que o provável dom inspirador. O conhecimento histórico e o consequente respeito à história da arte que se manipula é tão imprescindível quanto urgente. Com o modernismo, mais especificamente com o lema “Make it New”, de Ezra Pound, grande parte da comunidade artística renega o que já foi feito para posar de inovadora. A arte, por si só, é reflexo do meio no qual é produzida. Quando se abdica de um passado para a construção de um futuro utopicamente saudável, esquece-se que só há o porvir porque foi possível passar por tempos idos, difíceis, sofridos, mas idos. E é a consciência das marcas, as cicatrizes de nossa sociedade, que constrói, de fato, um caminho mais lúcido e expressivo. Segundo essa perspectiva maquiavélica, um posicionamento como o de Peter Greenaway soa praticamente ininteligível:

"Tivemos 112 anos de textos ilustrados. Em um momento pessimista, eu diria que nenhum de nós jamais viu um filme, apenas vimos textos ilustrados. Quer seu nome seja Spielberg, Scorsese, Almodóvar ou Godard, todo e qualquer filme que você tenha visto começa com a noção da palavra, não da imagem. Para mim, educado como um pintor, é muito decepcionante. Gostaria de ser otimista e poder dizer que [...] nós apenas assistimos a um prólogo, nunca vimos cinema de verdade. [...] A busca por um cinema autônomo falhou"

A dita ânsia é recheada de boas intenções, partindo de artistas ou empresas que buscam o politicamente correto por caminhos que distorcem fatos, difundindo obras que criam um passado que nunca existiu. Um claro e recente exemplo de trabalho bem-intencionado, mas que peca pelo desserviço à história, é aparente no live action A Bela e a Fera (2017), da Disney: a inserção de figurantes negros em feliz convivência com brancos numa comunidade francesa do século XVIII não só é uma distorção que menospreza toda uma luta contra o preconceito racial, é um fato que, arbitrariamente, macula a animação de 1991. Se, por um lado, o desenvolvimento de algumas arestas aclarou alguns pontos ocultos, por outro a má compreensão da história, seja social ou do próprio cinema, sugere quão contraditória foi a promoção em cima da animação.

(Imagem: Disney/Buena Vista)

Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano demonstra o quanto a arte, especificamente a em questão, pode não somente funcionar como entretenimento, mas influenciar o conhecimento de mundo. Mostra-se que, para isso, é necessário um comprometimento maior do que o habitual. Que se faça cinema de entretenimento, mas que esse entretenimento seja repleto de conhecimento. Um cinema que esquece o seu próprio passado e, pior, desconhece o passado de seu público, está fadado ao impertencimento do tempo. E uma obra que, em seu conteúdo, não pertence a tempo algum se transforma, inevitavelmente, em poeira da memória. Nos anais da existência, ela deixa de fazer parte da maturação de qualquer saber artístico para ser, fatalmente, um produto que salienta a incapacidade da curiosidade de uma sociedade. Assim, perde a chance de segurar nas mãos do seu público e o encorajar no interesse quanto à própria arte que ele (o público) presencia. Assistir a um filme, no caso, torna-se um fim descartável.

Scorsese é, nesse molde, um cineasta que constrói sua carreira sem jamais esquecer onde está pisando. Ele faz o cinema evoluir consciente do que sua arte foi, é e pode ser. As referências que ele utiliza, além de demonstrar o seu conhecimento histórico, revela-o, sempre, como um dos maiores conhecedores da linguagem cinematográfica, o que o faz ser certeiro nas causas pretendidas. O fantástico plano final de Os Bons Companheiros (1990), por exemplo, é uma referência direta a O Grande Roubo do Trem, filme de 1903 dirigido por Edwin S. Porter.

Entre tantas referências e homenagens que permeiam a obra do diretor nova-iorquino de raízes italianas, uma recente é absolutamente fascinante: sabedor de que o filme A Chegada de um Trem à Estação, dos irmãos Lumière, causou um verdadeiro reboliço em 1896, com as pessoas imaginando que o trem sairia da tela – atropelando quem ali estivesse – Scorsese utilizou-se dessa mesma síntese na construção de uma das cenas do seu A Invenção de Hugo Cabret (2011). Com o apoio da tecnologia 3D, o efeito conseguido foi similar ao de mais de um século atrás. Isso, ainda, contando um pedacinho da vida de outro dos precursores do cinema, Georges Méliès. Aliando toda a sua competência técnica ao seu conhecimento histórico e à sua inquietude, Scorsese realizou aquele que, possivelmente, é o filme com o melhor emprego das três dimensões até então. Organicamente, ele faz o cinema seguir em frente.

Enquanto Scorsese permanece humilde e um assumido aprendiz eterno, vê-se uma orgulhosa autoconfiança tomar conta do que há. A existência por si só, sem qualquer base prévia, desafia qualquer lógica progressiva. A necessidade de dizer-se capaz, mesmo que não seja de verdade, ameaça uma arte centenária (e não somente esta). E a vergonha de assumir a necessidade de aprender é construída por uma mídia tão vazia quanto cruel. Se não há conteúdo, mas há audiência, nada mais importa. O circo está aberto e nem pão é necessário mais. Do entretenimento à arte e da arte ao entretenimento. O prazer rápido, a satisfação instantânea, parece eliminar anos de conquistas dentro e fora de qualquer arte. Nossa sociedade renuncia o futuro involuntariamente, pois, como dito, a arte é reflexo do meio no qual é produzida. E se a arte teima em estacionar, aceitando somente a nossa ingressão ao mundo regido pela tecnologia, não haverá futuro artístico; será, somente, uma transposição de era, a aceitação de um permanente presente hi-tech.

Infelizmente, uma arte tão jovem como o cinema já há muito vem sido corrompida por essas questões, que foram amplamente debatidas por filósofos e teóricos do cinema, dentre eles, Theodor Adorno e Max Horkheimer. No famoso ensaio da década de 1940, A Indústria Cultural: o Esclarecimento como Mistificação das Massas, os autores falam especificamente do cinema:

"Atualmente, a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural não precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos. Os próprios produtos – e entre eles em primeiro lugar o mais característico, o filme sonoro – paralisam essas capacidades em virtude de sua própria constituição objetiva. São feitos de tal forma que sua apreensão adequada exige, é verdade, presteza, dom de observação, conhecimentos específicos, mas também de tal sorte que proíbem a atividade intelectual do espectador, se ele não quiser perder os fatos que desfilam velozmente diante de seus olhos"

Ainda que não seja o único expoente, Scorsese é um bom exemplo de um cinema que não se deixa levar por esse fatalismo frankfurtiano, pois ao mesmo tempo consegue ser entretenimento e uma obra profundamente artística. Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano suscita essas e tantas outras discussões sobre a arte, o artista, o cinema, a nossa sociedade, quem somos, para onde vamos que, na verdade, revela-se uma ode à história do cinema e, dentro do seu contexto, à história do público, de parte da humanidade (por mais que se atenha aos filmes dirigidos por americanos ou por cineastas emigrados).

Ao contar sobre sua fascinação por Duelo ao Sol (1946), um filme talvez defeituoso segundo o próprio Scorsese, o cineasta dá pistas do que é ser um verdadeiro cinéfilo: diante de um filme, devemos dar espaço para que ele (o filme) atinja sua potência como um todo, ainda que dentro das limitações da nossa perspectiva.

"O cinema não apresenta um mundo que tocaria a outros transformar. Ele junta do seu jeito o mutismo dos fatos e o encadeamento das ações, a razão do visível e sua simples identidade consigo mesmo. [...] Todos os desvios do cinema podem ser resumidos no movimento pelo qual o filme, que acaba de encenar a grande luta pela liberdade, nos fala, em sua última panorâmica: 'Eis os limites do que eu posso. O resto é com vocês'"

O resto é com a gente.

*Texto extraído do trabalho de conclusão de pós-graduação em cinema Espelho de um Lago Mítico – para resgatar o cinema de um limbo de existência ilusória, de Sihan Felix

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