Seis mudanças que acontecem no corpo humano após meses no espaço

Por Caio Carvalho | 04.03.2016 às 08:45
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Depois de ficarem quase um ano na Estação Espacial Internacional (ISS), os astronautas Scott Kelly e Mikhail Kornienko retornaram à Terra na madrugada da quarta-feira (2). Um outro astronauta, Sergei Volkov, também voltou ao nosso planeta após passar mais de cinco meses a bordo do complexo espacial.

Os três pousaram com segurança e, apesar de estarem repousando na maior parte do tempo, agora irão ajudar a NASA a entender como ficar tanto tempo no espaço pode afetar o corpo humano. O objetivo é nobre: por meio desses estudos, a agência quer saber como os astronautas da futura missão a Marte terão de conviver com os efeitos fisiológicos e bioquímicos causados pela superexposição ao espaço, numa viagem que deve começar até 2030 e durar cerca de 30 meses.

Kelly, por exemplo, enquanto esteve na ISS, enviou seu sangue e sua urina para os cientistas da NASA. Agora que está de volta à Terra, os pesquisadores continuarão a estudar seu corpo para identificar possíveis mudanças físicas e psicológicas, além de comparar seu organismo ao de Mark Kelly, seu irmão gêmeo e astronauta aposentado da agência espacial.

Passar grandes períodos no espaço pode ser uma experiência única, mas ao mesmo tempo perigosa e que em nada lembra a maioria das histórias vistas nos filmes de ficção científica. De acordo com especialistas da agência espacial norte-americana, o corpo humano pode mudar drasticamente após um ano no espaço - como é o caso de Scott Kelly. E olha que estamos falando da ISS, que orbita ao redor da Terra, e não de Marte, onde os níveis de radiação são muito maiores. Por isso, veja abaixo algumas das principais transformações que o nosso corpo enfrenta ao ficar meses no espaço.

1. Redução da densidade muscular e óssea

Por vivemos na superfície da Terra, a gravidade constantemente puxa nossos corpos para baixo, nos mantendo firmes no chão. Coisas simples, como ficar em pé ou simplesmente levantar da cama, acontecem porque nossos músculos se contraem de forma contínua, e nossos corpos se adaptaram a essas condições.

Só que no espaço a coisa é diferente: como a gravidade inexiste, os astronautas acabam perdendo uma grande quantidade de densidade muscular e óssea. No caso dos músculos, eles começam a "sumir" porque não são usados e absorvem o tecido que sobra. Durante as primeiras semanas na ISS, muitos astronautas reportam que a cabeça e principalmente o rosto ficam mais inchados porque os fluidos do corpo humano se espalham de forma igual no espaço.

O mesmo acontece com os ossos, que perdem sua densidade mineral em até 12% - por mês, essa densidade pode se reduzir entre 1% e 2%.

Reduções mais significativas são vistas em astronautas da ISS que passam pelo menos seis meses no espaço. Para diminuir esses efeitos, eles precisam fazer até duas horas e meia de exercícios todos os dias em esteiras e outras máquinas criadas especialmente para locais sem gravidade. E mesmo assim os astronautas não estão livres de contrair problemas de saúde, que são tratados em um rigoroso programa de reabilitação quando retornam à Terra.

2. Algumas polegadas a mais

Outro efeito provocado pela falta de gravidade é um aumento pouco significativo na coluna dos astronautas. Como a gravidade não está puxando nosso corpo para baixo, a espinha estica e a pessoa fica algumas polegadas mais alta no espaço durante missões mais duradouras. Inclusive, os trajes pressurizados da tripulação já são confeccionados em um tamanho maior devido a essa transformação.

A NASA identificou esse fenômeno há mais de 20 anos, quando seis astronautas mostraram um crescimento de 3% em suas espinhas em comparação com sua altura original. Isso acontece devido a um aumento de fluidos nos discos espinhais. Esses fluídos fazem com que as espinhas retornem à curvatura normal assim que os astronautas pousam na Terra e, consequentemente, comecem a sentir as ações da gravidade.

Novamente, esse crescimento na espinha se dá por causa da baixa densidade de minerais (incluindo cálcio) nos ossos. Como os ossos de astronautas não são forçados dessa forma no espaço, a densidade mineral é reduzida. Essa perda de densidade faz com que os ossos dessas pessoas fiquem quebradiços, similares aos de alguém com osteoporose. Os astronautas voltam aos seus tamanhos normais após 10 dias de adaptação ao planeta, mas pesquisadores estimam que só 50% da perda de densidade seja recuperada após 9 meses de volta à Terra.

3. Má fluidez do sangue

Além dos músculos e ossos, o sangue também é afetado pela falta de gravidade no espaço. Como o coração não precisa trabalhar tanto para bombear o sangue para o cérebro e outras partes do corpo, o organismo dos astronautas se adapta a essa rotina e reduz naturalmente o volume de sangue no corpo. Mesmo com os exercícios nas esteiras especiais, as pernas são as que mais sentem essa diferença, uma vez que os braços são usados com mais frequência em tarefas na ISS.

O problema mesmo acontece na volta à Terra quando o sangue corre normalmente mais uma vez, pois a gravidade "puxa" de forma brusca o sangue dos astronautas para baixo, o que faz com que o cérebro receba pouco sangue rico em oxigênio. Isso pode levar os humanos a experimentarem alguns efeitos colaterais, como tontura e desmaios.

4. Piora na visão

Ficar muito tempo no espaço também pode comprometer nossa visão devido a mudanças na pressurização espacial. Os efeitos mais comuns se assemelham aos sintomas de pessoas com hipertensão intracraniana idiopática, uma condição em que a pressão do sangue e de outros fluidos é anormalmente elevada no cérebro. No espaço, essas mudanças podem estar relacionadas com o fato de os astronautas viverem em queda livre - de novo, por causa da falta de gravidade.

Para identificar possíveis anomalias, todos os tripulantes da ISS fazem exames constantes nos olhos. Um dos equipamentos utilizados é o tonômetro, que permite saber se a pressão nos olhos está de acordo com a normalidade. Os astronautas também fazem ultrassons nos olhos para ver o estado do nervo óptico.

5. Insônia

Basicamente, a gravidade é a grande "vilã" de muitas dificuldades enfrentadas por astronautas que passam muito tempo em órbita. E a falta de sono é uma delas: a maioria dos tripulantes reclama que consegue dormir no máximo seis horas por dia, quando o recomendado são oito horas diárias. Na ISS, os astronautas precisam fixar seus sacos de dormir a uma parede ou teto e, apesar de seus corpos relaxarem muito mais facilmente do que na Terra, eles precisam dormir numa cabine especialmente construída para ter uma boa noite de sono.

6. Mais chances de desenvolver câncer

Devido a exposição excessiva à radiação, qualquer pessoa pode contrair câncer mais facilmente. Só que essa probabilidade é ainda maior para os astronautas porque eles não são protegidos pelo campo magnético da Terra. Um câncer pode "nascer" quando os genes alterados permitem que células e seus descendentes se multipliquem livremente. Assim, se a radiação destrói o DNA, os reparos podem ser mal feitos e o câncer pode existir.

O risco é pior para Scott Kelly e os outros tripulantes da ISS, uma vez que eles são diariamente expostos a um tipo diferente de radiação. Segundo a NASA, os raios cósmicos do espaço profundo são compostos de partículas mais pesadas do que os nossos corpos estão acostumados. Esses raios também são capazes de quebrar cadeias de DNA, aumentando as chances de se contrair a doença.

Rumo a Marte

Como você viu, não será uma tarefa nada fácil levar seres humanos ao planeta vermelho, pois, além dessas consequências em ficar meses exposto ao espaço, ainda são necessários diversos testes para conseguir trazer os astronautas de volta à Terra - pelo menos de acordo com o objetivo da agência espacial norte-americana.

Em outubro do ano passado, a NASA divulgou um relatório com detalhes do projeto que planeja levar os primeiros humanos a Marte. A ideia é dividida em três partes: realizar experimentos a partir da Estação Espacial Internacional (algo que já está acontecendo); analisar o volume de espaço em torno da Lua para testar e desenvolver capacidades de vida e trabalho longe da Terra; e utilizar todo o conhecimento adquirido nas duas primeiras fases para poder pousar na superfície marciana.

Em agosto do mesmo ano, a agência também iniciou uma bateria de testes que colocou seis pessoas dentro de uma instalação que simula uma colônia em Marte. São três homens e três mulheres de diferentes profissões que, por um ano, viverão isolados do resto do mundo perto de um vulcão inativo no Havaí. Esta é a experiência de isolamento mais longa já feita pela agência para simular como os humanos sobreviveriam em Marte.

Com informações da EXAME, Galileu, Superinteressante