Rede desenvolve dispositivo open-source para medir qualidade da água na Amazônia

Por Rafael Romer | 11.06.2015 às 08:31
photo_camera Margi Moss/InfoAmazônia

Vigiar e proteger a floresta amazônica não é uma tarefa fácil: com cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados de extensão, o bioma exige um esforço constante e conjunto de governos, comunidades locais e entidades civis para garantir que o seu meio-ambiente seja preservado de ameaças como desmatamentos, queimadas, poluição e avanço da pecuária.

E a InfoAmazônia, uma organização brasileira dedicada à preservação da floresta, agora está utilizando a tecnologia como aliada nesta briga. Sustentada por uma série de organizações e jornalistas e fundada com o objetivo para agregar dados e notícias sobre a Amazônia, a organização está se dedicando desde o ano passado a criação de um dispositivo open-source que será utilizado para medição em tempo real da qualidade da água em diferentes regiões do oeste do Pará, onde a iniciativa será focada.

Apelidado de Mãe D'água, o aparelho foi desenvolvido pela Rede InfoAmazônia, uma parceria da InfoAmazônia com a empresa incubada na Universidade de São Paulo (USP) Dev Tecnologia e com o grupo norte-americano de ciência cidadã Public Lab. Utilizando sensores, o gadget é capaz de medir a acidez, oxidação, condutividade elétrica, temperatura e pressão da água, gerando dados que auxiliam a medir se o líquido é adequado para o consumo humano e se não há presença de contaminantes como esgoto, toxinas industriais ou metais pesados na água.

Uma vez instalados, os aparelhos enviarão informações de hora em hora através de SMS e da rede móvel 2G para o servidor do projeto. As informações serão verificadas e, em caso de mudanças, encaminhadas para análise laboratorial. Todos os dados também serão utilizados para a geração de conteúdo pela InfoAmazônia e estarão disponíveis publicamente no site da iniciativa. Além disso, os dispositivos distribuirão alertas para comunidades locais sobre variações na qualidade da água.

InfoAmazônia

Apelidado de Mãe D'água, aparelho foi desenvolvido para custar menos de R$ 1 mil e terá suas primeiras 20 unidades distribuídas a partir de outubro (foto: Miguel Peixe/InfoAmazônia)

"O que a gente está fazendo é apoiar a sociedade civil para levantar informações sobre a qualidade da água que eles estão consumindo para que possam adotar as medidas de controle e acionar o poder público", explica a assessora executivo do projeto, Gina Leite. De acordo com a participante, uma das caraterísticas principais das comunidades que serão atingidas pelo projeto é forma difusa com que recebem água, que geralmente não é encanada e pode variar de cisternas a caminhões-pipa. Isso aumenta consideravelmente as possibilidades de contaminação da água, o que deve ser mitigado pela instalação dos medidores nos locais.

No ano passado, a iniciativa foi umas das finalistas do Desafio de Impacto Social promovido pelo Google Brasil, o que permitiu ao grupo dar o pontapé inicial na produção dos equipamentos. As 20 primeiras Mãe D'águas serão instaladas a partir de outubro em comunidades urbanas de Santarém e Belterra, além da reserva extrativista de Tapajós-Arapiuns, da área de proteção ambiental de Alter do Chão e da Floresta Nacional de Tapajós.

Após a instalação, um parceiro local do projeto promoverá o treinamento de lideranças das comunidades, que ficarão responsáveis pela manutenção dos aparelhos. Nesta primeira fase, o projeto deverá beneficiar diretamente 2 mil pessoas.

Além de serem open-source, o que significa que qualquer um poderá desenhar modificações para os dispositivos, as Mães D'água também foram desenhadas para terem um custo total abaixo de R$ 1 mil, o que deverá facilitar a produção de novas unidades para aumentar a presença do projeto.

O próximo passo da inciativa é iniciar uma campanha de crowdfunding para a produção de mais unidades da Mãe D'água, que serão utilizadas para expandir a área de cobertura dos sensores de qualidade da água para regiões como o Amazonas. "A gente está em busca da sustentabilidade do projeto para ampliar a rede de pontos monitorados", afirmou Leite. "A gente tem interesse em fazer a produção em massa do dispositivo, mas isso ainda não está exequível hoje, precisamos buscar parceiros para isso. É um objetivo a médio prazo".