Pela primeira vez na história, metade dos astronautas da NASA é feminina

Por Patrícia Gnipper | 19.01.2016 às 08:35 - atualizado em 19.01.2016 às 18:49

Desde sua fundação em 1958, essa é a primeira vez que mulheres representam 50% da equipe de astronautas da agência espacial dos Estados Unidos. Anne McClain, Christina Hammock Koch, Nicole Aunapu Mann e Jessica Meir têm idades entre 36 e 38 anos e poderão fazer parte da missão que levará o ser humano à Marte em 2030. Até os dias de hoje, cerca de 350 astronautas já estiveram no espaço, porém o número de mulheres que faz parte desse grupo não chega nem a um terço do total.

A viagem para o planeta vermelho será de 56 milhões de quilômetros a partir da Terra, trajeto que durará pelo menos nove meses, e é preciso que os astronautas realizem uma série de treinos em Terra para que consigam se adaptar às condições do espaço. A equipe também realizará viagens mais curtas para asteroides localizados próximos ao nosso planeta com a finalidade de treinamento para a jornada. “Não é como a Lua, uma viagem de três dias. Quando você for para Marte, vai mesmo. Não tem como abortar”, explica o diretor de exploração de sistemas avançados da NASA, Jason Crusan.

astronautas NASA

As astronautas Anne McClain, Christina Hammock Koch, Nicole Aunapu Mann e Jessica Meir (Reprodução: Bjorn Iooss)

Seleção criteriosa

As astronautas da nova turma foram selecionadas entre seis mil candidatos e passaram os dois últimos anos treinando suas habilidades de voo em jatos supersônicos, além de participarem de exercícios de voo em alta velocidade e mergulho em grandes profundidades. Durante o processo de seleção, elas foram aprovadas em rigorosos testes médicos e psicológicos - os mesmos aplicados aos candidatos masculinos - provando que mulheres têm as mesmas capacidades que homens também no que diz respeito à exploração espacial.

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Anne McClain experimentando um protótipo do futuro traje espacial da NASA (Reprodução: Bjorn Iooss)

Em Marte, assim que pousar na superfície do planeta, a equipe enfrentará gigantescas tempestades de poeira, temperaturas absurdamente negativas e uma atmosfera repleta de radiação, mas estará protegida em seus trajes espaciais que ainda estão em fase de desenvolvimento pela NASA. Ainda assim, qualquer problema que acontecer em território marciano deverá ser administrado rapidamente, já que o contato com a Terra levará cerca de dez minutos para acontecer.

E mesmo assim…

Mesmo com tanta qualificação comprovada, comentários machistas e sexistas pipocaram rapidamente após a NASA ter publicado em sua conta do Twitter o link para a matéria especial da revista Glamour com as astronautas. E aqui no Brasil não foi diferente.

“Piadas” a respeito da tensão pré-menstrual das astronautas parecem ser as favoritas dessas pessoas nos campos de comentários das matérias e também nas redes sociais dos sites e revistas que replicaram a notícia. Parece que é mais importante pensar em como será administrar os sintomas da TPM no espaço do que enaltecer a importância da equiparação entre gêneros na ciência. Chacotas sobre afazeres domésticos também surgiram aos montes, mostrando que o estigma da mulher não servir para atividades que vão além das tarefas do lar permanece forte na nossa sociedade, mesmo que em tom de brincadeira.

Comentários machistas não pararam na matéria da equipe de astronautas mulheres da NASA (os comentários são da matéria da Revista Galileu que postamos mais cedo: glo.bo/1n3NS1c)

Mas para mulheres que já provaram do que são capazes para a principal agência espacial do planeta, esse tipo de coisa deve parecer uma bobeira se comparada com os desafios que elas enfrentarão durante a missão de 2030, se selecionadas. A saudade dos maridos e filhos será um ponto fraco, já que quem viajar para Marte ficará fora da Terra por pelo menos três anos. Enquanto Christina Hammock Koch pedirá para que a família envie cartões escritos à mão para que ela os vá abrindo periodicamente durante a missão, Jessica Meir acredita que a música possa ser terapêutica para driblar os momentos em que se sentir solitária longe da família. “Precisarei de música, dos Red Hot Chilli Peppers. E tentarei acessar o The New York Times”, contou a astronauta.

Um feito histórico

Mesmo se somente astronautas homens forem selecionados para compor a equipe que explorará o planeta vermelho pela primeira vez na história da humanidade, essas quatro mulheres já fazem parte da história da ciência. Considerando que a presença feminina é de menos de 25% nas áreas das científicas e tecnológicas em geral, o fato de uma classe de astronautas da NASA ser composta 50% por mulheres já é, por si só, um feito histórico.

A mesma NASA que arruinou o sonho de Kelly (cujo sobrenome não foi revelado) que, em 1962, tentou se inscrever para a seleção de novos astronautas, mas tudo o que recebeu foi uma carta dizendo que, apesar de louvável, seu pedido para participar do processo seletivo não seria levado adiante já que a agência não tinha “nenhum programa no que diz respeito a mulheres astronautas e nenhum plano para fazer isso”. Mais de cinco décadas depois, agora é a vez delas.

carta NASA

(Reprodução: Divulgação)

Fonte: Glamour