Nova arma genética pode erradicar a malária na África

Por Redação | 15 de Abril de 2016 às 07h00

A malária é atualmente um dos problemas mais graves enfrentados na África, onde há mais de meio milhão de vítimas por ano, sobretudo em territórios tropicais. A despeito de projeções de bilhões de dólares – a serem investidos em redes de contenção, medicamentos e inseticidas -, especialistas veem na falta de infraestrutura e nos status sociais e políticos os principais impedimentos para a erradicação da doença. Mas há pelo menos uma arma adicional apontada pela ciência contra o Anopheles gambiae.

Um projeto atualmente desenvolvido pela Gates Foundation em parceria com o Imperial College London prevê a erradicação da malária no continente africano por meio da extinção do Anopheles. Utilizando os chamados genes controladores, os pesquisadores do intitulado Target Malaria desenvolvem um processo de esterilização em massa das fêmeas do mosquito. O resultado poderia condenar à extinção a espécie em apenas 11 gerações, ou aproximadamente de um ano.

Isso ocorre porque os referidos genes – produzidos artificialmente em laboratório – são capazes de garantir a própria replicação em 99% dos organismos gerados por uma matriz, em vez dos usuais 50%. Com semelhante DNA, os vetores liberados na natureza produziriam fêmeas estéreis em taxas desproporcionalmente altas. Em teoria, semelhante arma acabaria por varrer o mosquito do continente até 2029, segundo projeções da própria Gates Foundation.

Impossível para a política, possível para a biologia

Mas assim como a malária, há algo igualmente endêmico nas regiões mais afetadas pela doença. “A malária é um problema associado à pobreza, ou à instabilidade e à ausência de vontade política”, disse a criadora do inseto geneticamente alterado, Andrea Crisanti, conforme veiculado pelo site TechnologyReview. “Nós estamos pedindo que o gene controlador faça o que nós não conseguimos fazer política e economicamente.”

mosquito malaria

A própria Gates Foundation, responsável por injeções polpudas no continente africano, acredita atualmente na inviabilidade de se extinguir a malária na África por quaisquer outros meios que não os genéticos. “Não há como andar por lá coberto por um mosquiteiro todo o tempo”, disse Fil Randazzo ao referido site. “Isso não vai eliminar a malária.” Para ele, a vantagem do gene controlador é sua capacidade efetiva “sem a necessidade de uma mudança no comportamento humano”.

Prejuízos para o ecossistema

Embora a arma genética da Gates Foundation mostre inegável potencial na erradicação da malária, não faltam alertas quanto à imprevisibilidade dos efeitos de se liberar na natureza os mosquitos com DNA alterado. Conforme lembrou o referido site, sempre há o risco de desencadear uma “epidemia genética” – bastando, para isso, que o gene sintético consiga afetar também outras espécies de mosquitos.

Isso se torna ainda mais evidente quando se considera que, de 3,5 mil espécies de mosquitos, cerca de 30 são capazes de transmitir a malária, embora apenas três sejam responsáveis pelo quadro emergencial do continente africano.

mosquito malaria

Por fim, do ponto de vista ético, há ainda quem questione a legitimidade de um ato que poderia alterar ecossistemas em todo o globo – enquanto o FBI busca descobrir se semelhante técnica poderia ser utilizada para, digamos, projetar uma praga, como uma espécie bastante insidiosa de arma biológica.

Uma arma contra a dengue?

Contudo, seria impossível negar os benefícios extensíveis dos genes controladores. Conforme lembra o TechnologyReview, abordagem semelhante poderia servir também para varrer o Aedes Aegypti das Américas – eliminando também os vírus causadores da Febre Zika, da chikungunya e da dengue.

aedes aegypti

Indo além, a mesma técnica poderia ainda servir para controles de pragas diversas e até mesmo para salvar espécies. Conforme apontou o TR, o gene controlador poderia igualmente salvar aves no Havaí da malária aviária quanto extirpar os assaltos devastadores de sapos que sazonalmente tomam a Austrália. Seja qual for o caso, entretanto, os riscos de se extinguir sistematicamente uma espécie ainda parecem bastante difíceis de prever.

Fonte: TechnologyReview

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