Mars One: projeto que levará humanos a Marte dá indícios de que pode fracassar

Por Redação | 19.08.2015 às 10:15

Explorar outros planetas sempre foi uma das maiores ambições da humanidade. E, aos poucos, estamos trilhando esse caminho graças às descobertas de sondas enviadas aos vizinhos da Terra. Marte é a principal rota de empresas como a agência espacial norte-americana (NASA) e a Mars One, uma entidade holandesa que planeja construir a primeira colônia de seres humanos no planeta vermelho.

A questão é que não é nada fácil chegar e se manter em um mundo completamente diferente do nosso - quem dirá sair de lá, uma vez que a própria Mars One, que está testando candidatos há pelo menos três anos, afirma que esta é uma viagem sem volta. Os que forem mandados para Marte nunca mais poderão retornar à Terra. É um plano perigoso, mas ao mesmo tempo desafiador: abandonar toda a sua vida por aqui para explorar outro planeta.

Claro que, por conta dessa visão, a Mars One sempre foi duramente criticada. Como uma companhia, até então desconhecida e sem os recursos financeiros e tecnológicos necessários, poderia levar as pessoas para um local onde nenhum homem jamais esteve (fisicamente)? Os debates são muitos e um deles aconteceu na noite da última quinta-feira (17) durante a convenção anual Mars Society, que contou com a presença de estudiosos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e do CEO da Mars One, Bas Lansdorp.

Alguns sites internacionais repercutiram os principais pontos discutidos na conferência, que teve duração de duas horas. Todos eles chegaram a mesma conclusão: ainda não temos recursos suficientes para garantir a sobrevivência da vida humana em Marte. E o maior problema é que a Mars One, mesmo com a melhor das intenções, não quer admitir isso.

Sydney Do e Andrew Owens, dois doutorandos do MIT, exibiram uma análise detalhando a viabilidade das tecnologias disponíveis hoje para manter os seres humanos no planeta vermelho. De acordo com eles, chegará o ponto em que os astronautas da Mars One que forem enviados a Marte ficarão sem condições de se manterem vivos por lá. "Eles morrerão de fome, suas casas vão pegar fogo e ficarão sem peças de reposição", afirmaram.

A análise de Do e Owens, divulgada anteriormente no ano passado durante o 65º Congresso Internacional de Astronáutica, em Toronto, no Canadá, mostrou ainda o que seria preciso para garantir a vida dos humanos da Mars One em Marte.

Astronautas

Basicamente, são duas tecnologias principais, já levando em consideração que teríamos naves e combustível suficientes para chegar até o corpo celeste. A primeira é um suporte interno dentro das colônias que recicla o ar, a água e os nutrientes, garantindo que gases como CO2 e oxigênio permaneçam em equilíbrio. A segunda é o que os engenheiros chamam de utilização de recursos in-situ, que consiste em usar os recursos encontrados ou fabricados em outros astros. No caso de Marte, vamos precisar extrair água do solo para beber e nitrogênio e oxigênio do ar para construir uma atmosfera habitável.

Estes são os pontos principais defendidos pelos estudantes do MIT, que não acreditam que a Mars One conseguirá realizá-los. Para eles, além dos custos financeiros e operacionais com centenas de equipamentos, é extremamente difícil manter uma colônia espacial por tempo indeterminado.

Na opinião de Bas Lansdorp, toda essa tecnologia descrita pelos alunos do instituto já existe. O executivo compara a proposta da Mars One com os sistemas embarcados na Estação Espacial Internacional (ISS) - o que não está totalmente errado, uma vez que os mecanismos na estação já se mostraram eficientes para garantir a vida dos astronautas mesmo em um ambiente de microgravidade.

A questão é que sistemas como os da ISS são reparados e quase sempre substituídos com muita frequência. "Uma das coisas que aprendemos com a Estação Espacial Internacional é que esses equipamentos precisam de reparo. Os reabastecimentos variam de cerca de três em três meses. E quando algo dá errado, você volta para casa (a Terra)", explicou Owens.

Resumindo a ideia da Mars One: a primeira fase está programada para 2018, quando será feita uma missão exploratória em Marte. Em 2020 começa a segunda fase, quando um veículo espacial não-tripulado será enviado ao planeta para estudar suas condições, o ambiente e outros elementos do local, como a composição do solo, clima, presença de água, entre outras coisas. Dois anos depois, serão enviados robôs com diversos equipamentos para garantir a sobrevivência dos colonizadores e só quando tudo estiver pronto é que os primeiros humanos serão enviados ao planeta, viagem esta agendada para o ano de 2024.

Os astronautas chegariam em Marte apenas em 2027, data que antes estava prevista para 2025. A partir daí, sempre a cada dois anos, uma nova equipe de duas pessoas seria mandada para o nosso vizinho. Estas, por sua vez, levariam consigo os recursos para reabastecer a si mesmas e a colônia já presente no planeta. O terceiro grupo levaria uma nova leva de reabastecimento para si próprio e os outros quatro humanos, e assim por diante.

No entanto, Owens afirmou que não é possível produzir tantas peças e recursos de reposição para um grupo de pessoas que só aumentaria a cada 26 meses. "Precisaríamos do equivalente a cerca de três foguetes da SpaceX para os dois tripulantes, e ainda assim isso só iria garantir a sobrevivência de um deles. Os custos de reabastecimento de viagens a Marte cresceriam de forma insustentável ao longo do tempo", disse.

O custo total de operação para tocar o projeto da Mars One está avaliado entre US$ 4 e US$ 6 bilhões, mas a organização arrecadou até agora apenas US$ 700 mil. Para efeito de comparação, as missões Apollo, que duraram entre 1961 e 1969, até o homem chegar à Lua, custaram US$ 102 bilhões. Segundo Lansdorp, esses valores vêm principalmente de investidores e entusiastas, e até há um tempo havia a ideia de transformar a viagem a Marte num reality show - que, no final das contas, acabou sendo deixada para lá.

Jornalistas que estiveram na conferência do MIT disseram que o CEO da Mars One insistiu que, por se tratar de um projeto extremamente caro, é necessário que as empresas ajudem no investimento desses bilhões de dólares.

Mesmo assim, os estudantes do MIT destacaram que o dinheiro não é o único problema. "Defendo minha posição de que devemos obter toda a tecnologia necessária antes de irmos para Marte. Outra opção é um teste em menor escala, como ir para a órbita em torno do planeta e voltar. Para abordarmos questões de inviabilidade, temos de discutir as dimensões de custo, cronograma e escopo", disse Do.

Em março deste ano, Joseph Roche, Ph.D em física e astrofísica e professor da Trinity College's School of Education de Dublin, na Irlanda, foi um dos selecionados pela Mars One. Contudo, ele alega que o projeto todo não passa de uma farsa e que a empresa está quebrada financeiramente. Na época, Roche alegou que, além de não exigir testes técnicos e de resistência dos candidatos, a companhia ainda pede que os voluntários façam doações para tocar o andamento do projeto.

Apesar de ter uma ideia nobre, a Mars One dá indícios de uma organização desestruturada e fora de controle, que está tentando colocar a carroça na frente dos bois, como destaca Maddie Stone, repórter do Gizmodo. Explorar outros planetas garante a sobrevida dos seres humanos fora da Terra, mas é preciso avaliar os riscos e necessidades antes de colocar tudo a perder.

Fontes: The Verge, Gizmodo, Spectrum