Estudo mostra que trauma do Holocausto tem reflexos no DNA das novas gerações

Por Redação | 01.09.2015 às 12:13

Embora a ideia de Assassin's Creed de que as memórias de nossos antepassados estão presentes em nosso código genético pareça bem absurda, novas pesquisas mostram que o que é apresentado no game pode ter algum tipo de fundamento científico. Descobertas recentes mostram que as experiências de vida de uma pessoa podem ter reflexos nas gerações seguintes de maneira bem mais impactante do que se imaginava.

O maior exemplo disso, como apontado por uma equipe de pesquisadores do hospital Monte Sinai, em Nova York, é que o trauma vivido por sobreviventes do Holocausto, na Segunda Guerra Mundial, pode ter sido passado para os genes de seus filhos. Segundo o que foi constatado, essa nova geração apresentou um aumento considerável de problemas relacionados ao estresse, principalmente se comparados a outros judeus descendentes de quem não esteve dentro dos campos de concentração durante a década de 1940.

De acordo com Rachel Yehuda, responsável pela pesquisa, foram realizados estudos genéticos em 32 homens e mulheres de origem judia que foram capturados, torturados ou mesmo que tiveram de se esconder dos nazistas na Europa durante a guerra. Em seguida, eles realizaram os mesmos procedimentos em seus filhos e compararam com os dados obtidos de outras famílias que escaparam ilesas daquele horror.

Holocausto

O resultado mostrou exatamente essa predisposição que a geração posterior à Segunda Guerra Mundial tinha para o estresse e para os problemas derivados dele. Conforme explica Yehuda, essa é uma questão inteiramente genética que só pode ser atribuída à exposição que seus pais tiveram ao Holocausto.

A pesquisadora afirma ainda que a descoberta é um exemplo claro de como esses traumas estão diretamente ligados ao DNA e que podem, inclusive, ser herdados pelas próximas gerações. Segundo ela, isso reforça a existência das chamadas heranças epigenéticas, ou seja, efeitos causados em diferentes gerações a partir de influências ambientais diversas.

E, de acordo com essa teoria, não apenas traumas como o Holocausto seriam transmitidos pelos nossos genes, mas também eventos menores, incluindo vícios como o fumo, o próprio estresse e até mesmo uma dieta.

É claro que essa ideia está bem longe de ser um consenso dentro da comunidade científica, sendo um ponto de vista bem controverso diante daquilo que se acredita ao longo do século. Como você bem deve se lembrar das suas aulas de biologia, os estudos evolutivos afirmam que apenas o conteúdo biológico é repassado entre gerações a partir de nossos genes e que as demais características emocionais e psicológicas se desenvolvem ao longo da vida e nada têm a ver com o seu DNA.

DNA

Por outro lado, pesquisadores como Rachel Yehuda não acreditam inteiramente nesse ponto de vista, principalmente se levarmos em consideração que o nosso próprio DNA está em constante mutação a partir de fatores externos — ainda que de maneira quase invisível e pouco significativa. E o que a descoberta recente revela é que entre esses gatilhos que vão afetar nossos genes estão as experiências individuais.

Ela explica que esses eventos podem ter alterado o gene que regula os hormônios que controlam a ansiedade e amenizam o estresse. Assim, um trauma poderia fazer com que esse controle fosse prejudicado a nível genético e esse problema passaria a ser replicado para as próximas gerações.

Essa teoria é reforçada principalmente após Yehuda e sua equipe terem encontrado essas marcas epigenéticas em pais e filhos relacionados ao Holocausto e por isso não ter sido identificado nas demais famílias. Assim, a partir desses resultados, eles passam a trabalhar com a possibilidade de que traumas podem, sim, deixar marcas em nosso DNA e também em futuras gerações.

A cientistas publicou um artigo detalhando a descoberta e afirma que essa é a primeira demonstração de efeitos intergeracionais, relembrando ainda o quanto isso ajuda a fortalecer a tese de que essas pequenas mudanças em nosso DNA ocorridas antes da concepção podem ser passadas adiante. No entanto, ainda não está claro como isso funciona exatamente, uma vez que a informação genética contida no esperma e nos óvulos supostamente não seria afetado pelo ambiente e que essas alterações deveriam sumir logo após o processo de fertilização.

Essas dúvidas devem ser esclarecidas no futuro à medida que a pesquisa for se aprofundando. Ainda assim, segundo Yehuda, essa é uma oportunidade de aprendermos mais sobre nossas capacidades de se adaptar a um ambiente e como isso afeta nossos filhos.

E o estudo feito com esses sobreviventes não foi o único a apontar algo nesse sentido. Além dele, outros pesquisadores acompanharam meninas que nasceram de mulheres holandesas que sofreram com a escassez de alimentos durante o fim da Segunda Guerra Mundial e constataram que elas tinham uma chance bem maior de desenvolver esquizofrenia ao longo da vida.

Há ainda outros resultados não relacionados à guerra para reforçar a ideia de que não se trata apenas de uma coincidência ou reflexo do conflito. Cientistas britânicos relatam que os filhos de homens que começam a fumar antes da puberdade são geralmente mais gordos do que os de não fumantes.

Via: The Guardian