Cientistas anunciam a produção de genomas humanos sintéticos

Por Redação | 03 de Junho de 2016 às 20h12

Em um encontro a portas fechadas realizado recentemente na Escola de Medicina de Harvard, 150 cientistas definiram planos para a síntese de genomas humanos em laboratório. Basicamente, trata-se de escrever um novo código de DNA para a vida humana desde as suas bases, conforme finalmente mostrou um artigo emergido por 25 membros do grupo por meio do periódico especializado Science.

Intitulado Human Genome Project-write (Projeto Genoma Humano-escrita), a ambiciosa proposta poderia ser a chave para entender um sem número de doenças humanas, além de derrubar drasticamente os custos do sequenciamento genético. Mas há um porém: ainda sem qualquer consulta ao público ou à comunidade científica de forma geral, o projeto é hoje alvo de críticas calcadas sobretudo nos aspectos éticos.

O herdeiro do Projeto Genoma Humano

Em 2004, o chamado Projeto Genoma Humano concluía o intento de mapear todo o código genético humano. Não obstante, conforme apontou o site Science Alert, a intenção daquele primeiro esforço colaborativo jamais foi a de simplesmente ler os genes humanos, mas sim de utilizar as bases firmadas ali para, em algum momento, alcançar a capacidade de realmente escrever os genes humanos.

Não obstante, os pesquisadores que assinam o texto na Science garantem que a intenção imediata é a de apenas reduzir os custos de testes relacionados à engenharia genética – embora já seja possível sequenciar um genoma humano por até menos de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 3,5 mil).

projeto genoma humano

Embora o projeto ainda não tenha emitido nenhuma nota à imprensa, o texto abaixo foi obtido de um rascunho pelo Washington Post:

“A meta do Projeto Genoma Humano-escrita [Human Genome Project-write] é reduzir os custos para engendrar e testar grandes sequências genéticas, incluindo o genoma humano, em linhas de células, em mais de 1 mil vezes durante os próximos dez anos, desenvolvendo novas tecnologias e padrões éticos para a engenharia em escala de genoma, assim como aplicações medicas transformativas.”

Para tanto, os pesquisadores querem levantar US$ 100 milhões de fundos privados e públicos ao longo da próxima década – contando ainda com a colaboração de diversos grupos internacionais.

De uma bactéria a um ser humano

É bem verdade que algo semelhante à proposta do Projeto Genoma Humano-escrita já foi realizado anteriormente. Entretanto, conforme apontou o referido site, o mapeamento em questão tomou o genoma de uma bactéria – de maneira que a proposta atual deve ser algumas tantas vezes mais complexa.

celula sintetica

Conforme colocou a escritora Bec Crew em entrevista ao site, trata-se de “descobrir quais químicos são necessários para criar 3 bilhões de bases de DNA que são encontradas dentro dos 23 pares de cromossomos localizados em cada núcleo celular dentro do nosso corpo”. Restaria ainda descobrir onde alocar esses químicos, colocando-os na ordem certa, a fim de garantir que a célula sintética permaneceria viva.

Bebês geneticamente engendrados?

O conhecimento resultante da habilidade de reescrever o genoma humano com certeza legaria avanços médicos de grande relevância, fornecendo dados preciosos sobre a biologia e, por extensão, sobre como muitas doenças são formadas. Não obstante – e é aí que se encontram as principais preocupações no momento –, tal recurso também representaria um primeiro passo para o desenvolvimento de bebês engendrados geneticamente.

Basicamente, as pesquisas do Projeto Genoma Humano-escrita poderiam embasar o desenvolvimento in vitro de seres humanos resistentes a doenças, ou com força física e/ou inteligência excepcionalmente desenvolvidas – mesmo que a coisa, a princípio, não seja tão direta quanto escrever um código de computador.

gattaca

Embate ético

É verdade que os cientistas garantem que qualquer criação ficará limitada às suas placas de Petri, notando que não há qualquer intenção de manter vivas as linhas de células humanas resultantes da síntese. Não obstante, não falta quem aponte na reticência do grupo certo descompromisso com questões éticas, sobretudo no que diz respeito a submeter proposta tão controversa à apreciação pública.

Segundo a equipe, entretanto, isso já está na agenda. “[Nós] vamos promover discussões públicas sobre o HGP-write”, consta no material publicado na Science. “Desenvolver essas conversações antes da implementação do projeto deve guiar as capacidades emergentes em ciência e contribuir para tomadas de decisão societárias.”

É verdade que, até o momento, nenhuma pauta dessas conversações foi levantada pelos pesquisadores – sobretudo no que se refere ao viés ético que será tomado para dar continuidade, algo em que as pesquisas focadas em células-tronco tem batido de frente desde sempre.

“Antes de lançar um projeto dessa magnitude, questões precisam ser respondidas”, disse o bioengenheiro Drew Endy, em texto ao MIT Technology Review. “Os autores falharam em postar essas questões essenciais”, continua ele. “De fato, em sua proposta, eles falharam em postar quaisquer questionamentos.”

projeto genoma humano

Vantagens além da imaginação

A despeito de toda a controvérsia, não se pode negar que, assim como o Projeto Genoma Humano original, a continuidade proposta pela equipe de Harvard pode levar o conhecimento humano e as abordagens médicas/genéticas a limites talvez nem sequer sonhados hoje. Dessa forma, cai-se novamente na mesma questão dos “ovos” necessários à “gemada”.

“Essa é uma meta tão ousada quanto à do projeto original do genoma humano, e os autores desse artigo da Science sabem que esse novo intento deve gerar controvérsia similar à que o HGP original teve que lidar”, disse o biólogo especialista em sínteses John Ward, em entrevista ao periódico Genetic Expert News Service.

Ele continua: “Mas hoje é bem aceito que o HGP original ampliou possibilidades e mesmo realidades para novos tratamentos médicos destinados a doenças genéticas e ao câncer, e nós vamos colher os benefícios disso durante as próximas décadas”. Em uma era caracteristicamente deslumbrada – e por vezes assustada – com os avanços científicos, é de se esperar que os novos avanços venham em passos largos, mas cuidadosos.

Fonte: Science, The Washington Post, Genetic Expert News Service.

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