Astronomia forense: um caminho para explicar mistérios históricos e arte

Por Redação | 17.05.2016 às 12:02

O ramo de "astronomia forense" vem crescendo e desvendando alguns mistérios, como fenômenos naturais registrados pela arte e até mesmo o naufrágio do Titanic. Na última semana, cientistas da Universidade do Texas/Arlington divulgaram uma pesquisa que utilizou softwares de planetários para recriar o céu da Grécia Antiga a fim de descobrir quando um dos poemas mais famosos de Safo foi escrito.

O poema da Meia-Noite de Safo, poetisa que chegou a ser conhecida como a "décima musa de Platão" no século VII a.C., faz referência ao aglomerado de estrelas Plêiades, que fica proeminente no inverno do hemisfério norte e foi citado em diversas obras da Antiguidade, além de ter sido amplamente utilizado na navegação. A recente pesquisa, publicada na revista Journal of Astronomical History and Heritage, apontou que Plêiades se pôs no horizonte, como sugere o poema, à meia-noite no dia 25 de janeiro de 570 a.C.

“Esse é um exemplo de como a comunidade científica pode contribuir para produzir conhecimento a partir de textos antigos”, diz Manfred Cuntz, autor do artigo. “Já existiam estimativas sobre esse texto, mas nós conseguimos confirmar cientificamente a estação correspondente à descrição do poema no ano de 570 a.C.”, complementa.

Os cientistas de Arlington estão seguindo os passos de Donald Olson, conhecido como “astrônomo forense” na Universidade do Estado de Texas e que há mais de 20 anos vem utilizando a astronomia para confirmar fatos registrados nas artes e levantando hipóteses científicas a respeito deles.

"Astronomia forense" da arte

Grito

"O Grito" de Munch

O famoso quadro "O Grito", de Edvard Munch, foi um dos objetos de estudo de Olson. Em 1995, o astrônomo concluiu um estudo que apontou que a tela foi inspirada pelo céu que ficou vermelho de fato em 1893 como resultado da erupção do Monte Krakatoa, que expeliu gases na atmosfera, afetando a vista do pôr do sol.

Em seu estudo, Olson se viu intrigado após se deparar com um artigo que descrevia um fenômeno como um "lento e majestoso movimento de corpos com uma notável e perfeita formação", ilustrado na pintura de Gustav Hahn de 1913. Até então, acreditava-se que não havia precedentes para uma procissão de meteoros como aquela.

Meteoro

"O Meteoro de 1860" de Frederic Church

No entanto, ao conduzir uma pesquisa, o astrônomo descobriu que, em 20 de julho de 1860, havia acontecido uma procissão de meteoros semelhante àquela que inspirou o poeta Walt Whitman a escrever o poema "Ano de Meteoros", além do artista plástico Frederic Church, que pintou a tela "O Meteoro de 1860".

Astronomia e história

Além do campo da arte, alguns estudos de Olson trazem luz a eventos históricos. Uma passagem de destaque é o esclarecimento do ponto de desembarque de Julio César na Bretanha em agosto de 55 a.C. Segundo relatos históricos, Julio César teria sido impedido de desembarcar em Dover por uma tropa local, fazendo com que ele navegasse por sete milhas em uma forte corrente rumo a uma praia próxima, sem mencionar se a direção era norte ou sul. Ao viajar para a Inglaterra, em agosto de 2007, Olson pôde estudar condições praticamente exatas às de 55 a.C., incluindo a lua cheia que afetaria as marés, e confirmou que a "forte corrente" entre os dias 26 e 27 fluem para o sul e entre os dias 22 e 23 seguem rumo ao norte, onde fica a região de Deal, confirmada como o local de desembarque pela descrição geográfica. A descoberta apaziguou uma antiga discussão entre cientistas e historiadores.

É também pela lua que Olson desenvolveu uma hipótese inédita para o naufrágio do Titanic. É aceito que foram vários os fatores responsáveis pelo acidente - velocidade total da máquina sob as ordens do capitão, que queria chegar um dia antes e mostrar todo o potencial do transatlântico, a negligência em relação aos alertas de icebergs, entre outras -, mas o estudioso defende que a lua pode ter tido uma grande parcela de responsabilidade no maior número de icebergs naquela região no período.

Em 4 de janeiro de 1912, houve um alinhamento incomum entre o Sol e a Lua, causando marés muito elevadas. Mais especificamente, a Lua chegou ao seu ponto mais próximo da Terra em 1400 anos e o efeito disso foi potencializado porque a Terra havia chegado no seu ponto mais próximo do Sol no dia anterior. Normalmente, icebergs tão grandes não estariam na região do acidente por causa da profundidade das águas, no entanto, a maré, bem acima do normal, causada pelo efeito dos astros fez com que os icebergs de desprendessem e se deslocassem mais rapidamente.

O astrofísico Donald Olson começou sua carreira se especializando na teoria da relatividade, simulação de buracos negros por computador e a distribuição de galáxias. No entanto, foi durante um jantar, em 1989, com sua esposa e professora de literatura, que sua paixão por mistérios históricos começou. Na ocasião, a mulher despretensiosamente disse que estava em dúvida quanto a uma passagem de um livro. Desde então, Olsen vem nos mostrando que, para encontrar algumas respostas, basta olhar para cima.

Com informações de Gizmodo, Scientific American. Live Science, BBC e Discovery.