Após explosão, governo russo cancela evacuação e diz que “acidentes acontecem”

Por Felipe Demartini | 14 de Agosto de 2019 às 15h34

Quase uma semana depois da explosão de um foguete nuclear russo em uma base militar em Arkhangelsk, no norte da Rússia, as informações dadas pelo governo continuam escassas e desencontradas. Agora, ao falar sobre o assunto, um porta-voz do Kremlin disse apenas que acidentes como este “acontecem” e que o país está bem à frente dos outros no desenvolvimento de armas.

No mesmo pronunciamento, Dmitry Peskov confirmou que a explosão aconteceu durante testes militares, mas negou que material nuclear estivesse envolvido. O comunicado foi feito na terça-feira (13), mesmo dia em que a Rosgidromet, o serviço federal de monitoramento ambiental russo, revelou que os níveis de radiação em Severodvinsk, a cidade mais próxima do local do acidente, aumentou mais de 16 vezes nos últimos dias.

Os esforços de atendimento à população também são discordantes. Ao mesmo tempo em que uma base militar em Nyonosksa, também nas proximidades de Arkhangelsk, começa a ser evacuada temporariamente, o governo suspendeu uma recomendação semelhante que havia sido dada aos moradores de uma vila próxima.

Originalmente, os habitantes foram informados que deveriam deixar o local até esta quarta-feira (14) devido à realização de testes militares na mesma base onde aconteceu o acidente. Nesta semana, entretanto, o governo russo informou que os experimentos não mais aconteceriam. Seria, para especialistas, uma forma de conter o pânico entre a população, com relatos de russos das proximidades de Arkhangelsk e Severodvinsk começando a estocar iodo e praticando a automedicação como uma forma de tentar combater possíveis efeitos do vazamento radioativo.

Por enquanto, o número oficial de mortos em decorrência da explosão que aconteceu na última quinta-feira (8) é de 10 pessoas, sendo cinco cientistas nucleares. Destes, dois ainda estão desaparecidos e as autoridades acreditam que seus corpos tenham sido lançados no Mar Branco com a força da detonação. A Rosatom, agência nuclear russa, informou que as buscas por eles já foram interrompidas, pois não existe mais chance de encontra-los com vida.

A imprensa internacional, ainda, levanta questionamentos quanto ao fato de os corpos estarem contaminados com radiação, algo que pode acabar levando o material a outras regiões banhadas pelo Mar Branco. Novamente, o governo russo não falou sobre o assunto, limitando-se apenas a revelar os sobrenomes dos dois desaparecidos: Lipshev e Yanovsky. Além da dezena de mortos, outras 15 pessoas ficaram feridas e todos receberam altas doses de radiação durante o incidente, tendo sido movidos a Moscou para tratamento.

O caso, principalmente pela proximidade temporal, lembra o de Chernobyl, retratado de forma dramática na recente série da HBO, que trouxe o incidente de volta ao imaginário popular. Um dos principais aspectos da trama é, justamente, a manipulação de informação e os jogos políticos que tentavam, ao mesmo tempo, ocultar as notícias reais sobre o acidente e manter uma imagem de soberania da então União Soviética em plena Guerra Fria. Não estamos mais nesse período, mas a estratégia parece permanecer a mesma.

Tanto que, na mesma medida em que cancela evacuações e minimiza os efeitos do acidente sobre a população, o Kremlin não poupa palavras para falar sobre a segurança e inovação da indústria militar russa. Até mesmo tweets publicados pelo presidente americano Donald Trump foram respondidos com provocações, afirmando que não há nada de impressionante no desenvolvimento nuclear americano e que os russos estão bem mais avançados.

Sobre os relatos conflitantes de atendimento à população e o pânico gerado pelas notícias, Peskov disse apenas que tudo o que é possível está sendo feito para garantir a segurança das pessoas. Enquanto isso, a informação do governo municipal de Severodvinsk é que tudo está calmo e, por lá, a vida continua.

Fonte: CNN, Express, Agência Brasil

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