Nave espacial cargueira da SpaceX decola em voo comercial para a estação

Por Redação | 09.10.2012 às 19:00

Uma nave espacial cargueira não tripulada foi carregada de peças de reposição, equipamentos científicos e suprimentos para a tripulação (incluindo guloseimas e sorvete) e entrou em órbita neste domingo (7), com destino à Estação Espacial Internacional, dando início a uma nova era de voos comerciais de reabastecimento, destinados a restaurar a cadeia de fornecimento dos Estados Unidos, que foi prejudicada pela aposentadoria do ônibus espacial. As informações são da CNET.

A cápsula Dragon e seu foguete Falcon 9, ambos construídos pela Space Exploration Technologies, decolou às 20:35 (21:35, horário de Brasília) no complexo de lançamento 40, na Estação das Forças Aéreas do Cabo Canaveral.

Fazendo seu primeiro voo sob um contrato com a NASA de US$ 1,6 bilhão (cerca de 3,25 bilhões de reais), o Falcon de 48 metros de altura foi lançado em uma trajetória nordeste, paralela à costa leste dos Estados Unidos, transformando o céu daquela noite em um verdadeiro espetáculo para os moradores e turistas da região.

A decolagem foi programada para coincidir com o momento em que a rotação da Terra direcionava ao plano de órbita da estação espacial, ou seja, o único caminho possível para que a nave conseguisse alcançar sua meta de 5 quilômetros por segundo.

Gerando mais de 388 Kg de empuxo, o Falcon 9 voou em velocidade supersônica por um minuto e 10 segundos após o seu lançamento, uma vez que seus nove motores Merlin de primeiro estágio o impulsionaram para fora da densa atmosfera terrestre.

Pouco mais de três minutos após a decolagem, o primeiro estágio da nave se desacoplou e caiu, e um único motor de segundo estágio continuou a gerar o impulso necessário de órbita. Imagens ao vivo mostraram o lançamento na televisão, graças às câmeras montadas na base do segundo estágio, que mostrou o mecanismo brilhando no céu, com uma combustão vermelho-cereja que rasgou a imensidão negra do espaço enquanto o foguete subia em direção à órbita.

O segundo estágio parecia funcionar normalmente e a cápsula Dragon foi liberada cerca de 10 minutos e 24 segundos após a decolagem. Momentos depois, as câmeras mostraram dois painéis solares da cápsula se desdobrando e travando posição.

Lançada em uma órbita elíptica com um ponto alto de 328 quilômetros e um ponto baixo de 202 quilômetros, a nave espacial realizará uma série de disparos complexos de foguetes de encontro, programados em computador, para chegar até a estação espacial no início desta quarta-feira (10).

Diferentemente de naves cargueiras russas, europeias e japonesas, que visitam a estação rotineiramente, a cápsula SpaceX Dragon foi desenvolvida para fazer viagens de ida e volta ao complexo laboratorial, oferecendo a possibilidade de trazer os principais componenets e amostras experimentais de volta para a Terra pela primeira vez, desde que o ônibus espacial parou de voar no ano passado.

"Ela não nos dará apenas uma cadeia de fornecimento consistente; mas o que é bastante crítico, principalmente para pesquisas biológicoas, é o conteúdo de retorno, capaz de trazer amostras congeladas de volta para a Terra", disse o gerente de programa da Estação Espacial Mike Suffredini. "Esta é realmente a chave daquilo que vai permitir à estação realizar as tarefas para as quais foi construída. E isso é crítico para o sucesso da estação", emendou.

Se tudo correr bem, o comandante da estação Sunita Williams e o astronauta japonês Akihiko Hoshide usarão o braço do robô do laboratório espacial para capturar a cápsula Dragon, por volta das 7:22 (8:22, horário de Brasília) desta quarta-feira, em uma manobra para atracação no porto espacial do módulo Harmony, que é voltado para a Terra.

Ao longo das próximas três semanas ou mais, a tripulação da estação irá descarregar meia tonelada de equipamentos e suprimentos, incluindo equipamentos experimentais, um freezer, peças de reposição, roupas e alimentos.

Como a cápsula estará descarregada, os astronautas planejam guardar quase uma tonelada de equipamentos que não serão mais necessários, componentes estragados e amostras experimentais que, até agora, não foram enviadas à Terra. E utilizando, novamente, o braço robótico, Williams e Hoshide planejam atracar a cápsula no dia 28 de outubro, para reenvio rumo ao Oceano Pacífico, ao largo da costa sul da Califórnia, onde as equipes de recuperação estarão a postos.

A nave espacial russa Soyus, que transporta pessoas para a estação, poderá carregar apenas alguns quilos de itens pequenos para enviá-los à Terra. Todos os outros veículos da estação (como naves suplementares russas e europeias e uma nave cargueira japonesa) se queimarão durante a reentrada na superfície.

"A SpaceX Dragon é realmente um veículo importante para nós, pois suporta o uso laboratorial de ISS, tanto para levar carga até a estação espacial, quanto para trazer amostras de volta para a Terra", disse Julie Robinson, cientista de programas da estação espacial, na sede da NASA.

"Ela tem uma grande capacidade de retorno, e essencialmente substitui a capacidade que perdemos quando o ônibus espacial foi aposentado - agora podemos trazer para a Terra uma ampla variedade de amostras biológicas e físicas, além de equipamentos de pesquisa que precisam ser reformados e reenviados para a estação".

Scott Smith, nutricionista do Centro Espacial Johnson, em Houston, estará aguardando ansiosamente as amostras de urina da tripulação para colocar em curso uma investigação médica sobre como o corpo se adapta à microgravidade.

"Nós ainda não trouxemos nenhuma amostra desde que o ônibus espacial foi lançado", disse Smith aos repórteres neste Sábado. "Quando a NASA soube que o ônibus espacial iria se aposentar, nós realmente enviamos congeladores extras para a estação espacial, para guardar estas amostras e para que a tripulação continuasse a coletá-las em órbita, sabendo que as traríamos de volta assim que fosse possível".

"Neste ponto, a grande novidade para a SpaceX é que este é o primeiro veículo de retorno enviado para trazer estes tipos de amostras. Obviamente, poderíamos trazer a tripulação de volta na Soyuz, mas a capacidade de carga desta nave é extremamente limitada. Portanto, este é nosso primeiro conjunto de amostras que voltará à Terra".

Ao antecipar a aposentadoria do ônibus espacial, a NASA anunciou um novo programa, o COTS (Serviços de Transportes Comerciais Orbitais), em 2006, quando falou sobre o desenvolvimento de uma nova nave cargueira não-tripulada, que seria adquirida pelo coverno em uma base comercial. A NASA acabou sendo premiada com dois grandes contratos.

A Orbital Sciences de MacLean, Virgínia, possui um contrato no valor de US$ 1,9 bilhão (cerca de R$ 3,86 bilhões) para oito voos de carga até a estação. Outros 288 milhões de dólares (cerca de R$ 585 milhões) foram orçados para desenvolver e realizar no mínimo um voo de teste. Uma missão inicial de demonstração é aguardada para o início de 2013.

A SpaceX, abreviação de Space Exploration Technologies, assinou um contrato de US$ 1,6 bilhões com a NASA (aproximadamente 3,25 bilhões de reais) para fornecer 12 voos de carga até a estação, contratados para entregar mais de 20 Kg de equipamentos e suprimentos à tripulação. A empresa havia planejado três voos teste, sob um contrato separado, no valor de US$ 396 milhões (cerca de R$ 805 milhões).

Após o sucesso inicial em dezembro de 2010, a NASA permitiu à SpaceX combinar os objetivos do segundo e do terceiro voo de teste em uma só missão, que foi realizada em maio deste ano. Isso abriu o caminho para a primeira missão operacional de cargas de reabastecimento, a CRS-1, sob o contrato de US$ 1,6 bilhão.

"Somos obrigados a assinar este contrato para levar 20 toneladas até a Estação Espacial", disse a presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell. "Ao que parece, ao longo dos 12 voos, poderemos levar e trazer certca de 60 toneladas". Mesmo se houver falha, ela acredita que não haverá chances de fracasso relacionado às metas da empresa.

A cápsula Dragon possui 4,4 metros de altura e 3,5 de largura, com seção de tronco que se estende por mais 2,80 metros até o escudo de calor, que abriga dois painéis solares e um compartimento de carga não pressurizada. A sonda pode transportar até 3,3 Kg de carga dividida entre as seções pressurizada e não pressurizada.

Sob um contrato de 440 milhões de dólares (cerca de 894,5 milhões de reais) com a NASA, os engenheiros da SpaceX estão trabalhando em atualizações para converter a cápsula Dragon em uma nave espacial tripulada, que pode transportar equipes da Terra para a estação e vice-versa. Os gerentes da SpaceX acreditam que estarão prontos para os testes tripulados em 2015. Duas outras empresas, a Boeing e a Sierra Nevada, estão desenvolvendo suas próprias espaçonaves sob contratos semelhantes.

Para a missão CRS-1, a cápsula Dragon já está carregada com 400 Kg de materiais, suprimentos e equipamentos, incluindo:

  • 118 Kg de alimentos, roupas e kits de comida com baixos níveis de sódio para a tripulação;
  • 176 Kg de material científico, incluindo um freezer Glacier de baixa temperatura para guardar amostras, equipamento de instalação para combustão, um bioprocessador comercial genérico, cabos para o Espectrometro Magnético Alpha e equipamentos de pesquisa para as agências espaciais japonesa e europeia;
  • 102 Kg de hardware para a estação espacial, como componentes do sistema de saúde da tripulação, peças para o sistema de suporte à sobrevivência, filtros e componentes elétricos;
  • 3Kg de equipamentos para computador.

Para seu retorno à Terra, a nave Dragon carregará 759 Kg de amostras e equipamentos, incluindo:

  • 74 Kg de suprimentos da tripulação;
  • 235 Kg de peças veiculares;
  • 44 Kg de equipamentos de computador, cargas russas e equipamentos de caminhada espacial;
  • 393 Kg de equipamentos científicos e amostras experimentais, incluindo 400 amostras de urina da tripulação;

Animado com os resultados, o nutricionista Scott Smith diz: "isso pode ser apenas urina para vocês, mas é ouro para nós. Há muita descoberta científica por vir com essas amostras".

Mais um grande passo para a humanidade.