Invadindo Marte: será que estamos contaminando o planeta com micro-organismos?

Por Douglas Galante | 14 de Agosto de 2012 às 11h23

Muitos de nós estávamos apreensivos na madrugada do dia 6 de agosto quando, após uma viagem de quase um ano, a mais cara e complexa sonda robótica terrestre pousava em Marte, usando uma estratégia nova e extremamente arriscada, planejada por quase uma década pela NASA. Felizmente, o touch-down foi perfeito e delicado, colocando na superfície daquele planeta o rover Curiosity, que é um verdadeiro laboratório sobre rodas, para estudar e tentar desvendar muitos mistérios que ainda existem sobre o planeta vermelho, inclusive sobre a possibilidade dele ter tido vida no passado (e aqui estamos falando de vida microbiana, não homenzinhos verdes).

Mas uma coisa que é pouco discutida é que o rover, além de carregar seus equipamentos científicos de última geração, carrega também organismos vivos terrestres! Sem muito pânico, não estamos mandando cães ou macacos para Marte, como já foi feito nos primeiros testes de voos espaciais, em órbita terrestre (a cadela soviética Laika ou os macacos americanos Able e Baker), mas sim de micro-organismos. Hoje sabemos que praticamente tudo em nosso planeta está repleto desses pequenos seres – bactérias, fungos, algas, vírus e muitos outros, e que eles são extremamente resistentes a viagens espaciais. Foram feitos testes de resistência com micro-organismos terrestres na Estação Espacial Internacional, onde eles foram deixados expostos ao vácuo, frio, calor e radiação da parte externa da estação por anos, e muitos sobreviveram. Testes em Terra, simulando condições ainda mais severas, mostraram que alguns micro-organismos seriam capazes de sair da Terra e chegar em Marte vivos, viajando de carona em uma nave espacial.

A possibilidade de micro-organismos no espaço não é nova. Nas antigas missões espaciais Apollo, nos anos 60 e 70, para a Lua, os astronautas tinham que passar por um período de isolamento após o voo, a quarentena (que durava 21 dias, e não quarenta). Com receio desses possíveis micro-organismos extraterrestres serem patogênicos, podendo, no retorno, infectar os astronautas e o resto do planeta, a tripulação era recolhida e isolada. Uma vez que nunca foi encontrado nenhum caso desse tipo, a quarentena foi descartada em 1991 como uma obrigatoriedade pela NASA. Atualmente os astronautas americanos passam por um período de isolamento após voos espaciais, mas para evitar infecções terrestres, uma vez que a falta de gravidade em órbita enfraquece o sistema imune humano e uma infecção que sararia naturalmente em condições normais poderia se tornar grave.

Atualmente, nossa maior preocupação é no sentido inverso: não queremos contaminar os outros planetas com bactérias terrestres. Para isso, existe um acordo internacional entre as nações que fazem exploração espacial, o chamado Protocolo de Proteção Planetária. Mas por que se preocupar com essa questão, afinal, isso não causaria nenhum problema para a vida na Terra? O problema aqui é científico: o rover em Marte está exatamente tentando encontrar sinais da presença de vida naquele planeta, esteja ela presente hoje ou que seja um indício de vida antiga, já extinta. Mas se a própria sonda carregar bactérias terrestres, como distinguir os micro-organismos terrestres dos marcianos? Se a vida em Marte for muito diferente da terrestre o problema pode ser simples de resolver, mas se for parecida, baseada em células, usando água como solvente, pode ser muito difícil separar o que realmente é um sinal de vida extraterrestre e o que é contaminação. Por isso a preocupação.

No entanto, mesmo com toda essa preocupação e após passar por um rigoroso processo de descontaminação antes de ser lançada, a Curiosity deve ainda carregar consigo uma tripulação de até 500 mil micro-organismos. Isso é pouco se comparado com o que achamos na Terra, cerca de um décimo do que é encontrado em uma colher de sopa de água do mar. Muitos desses morreram durante a longa viagem até Marte e outros tantos morrerão na superfície do planeta durante a missão, devido às temperaturas extremas, baixa pressão e alta radiação ultravioleta. Mas hoje sabemos que alguns micro-organismos, os extremófilos, são capazes de sobreviver a essas condições, e apenas podemos imaginar o que poderia acontecer caso alguns deles encontrassem as condições propícias para se reproduzirem, talvez no subsolo marciano, onde até hoje há água líquida. Os engenheiros da NASA tentam minimizar o risco de contaminar Marte, mas sabemos que sempre haverá uma chance pequena disso acontecer. E temos que lembrar que a primeira sonda terrestre, a nave soviética Mars 2, pousou no planeta em 1971, em uma época onde a proteção planetária não era uma grande preocupação e as sondas eram muito menos esterilizadas que atualmente. Ou seja, há décadas estamos enviando micro-organismos para Marte.

Atualmente sabemos que essa contaminação não é grande e deve ter ficado restrita às regiões onde as sondas pousaram, mas esse é um problema que teremos que considerar ao encontrar sinais de vida no planeta: será vida marciana mesmo ou apenas contaminação terrestre? E, pensando em grandes escalas de tempo, o que acontecerá com esses micro-organismos no futuro, quando o Sol se tornar uma gigante vermelha e a temperatura em Marte aumentar? Será que teremos novamente condições para a vida proliferar na superfície e nossas sondas servirão como pequenos oásis, de onde os micróbios terrestres irão proliferar e dominar todo o planeta? Será que estamos hoje disseminando a vida pelo Sistema Solar? Será que devemos fazer isso de propósito, distribuindo micro-organismos terrestres para outros lugares do Universo? Essas são questões éticas galácticas com as quais ainda não nos preocupamos, mas que devemos refletir, pois já estamos enviando nossos pequenos astronautas para outros mundos.

* Douglas Galante é pesquisador de Astrobiologia do Instituto de Astronomia da USP e colunista do Canaltech.

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