Como seria o mundo se o teletransporte existisse?

Por Igor Lopes | 11.07.2012 às 08:55 - atualizado em 11.07.2012 às 22:29

Em vários filmes de ficção científica, viajar no tempo e no espaço é moleza para alguns personagens. No entanto, em nosso dia a dia, o teletransporte ainda é algo longe de se tornar realidade.

Há anos, vários cientistas trabalham neste tipo de viagem - mas a grande maioria não foi bem sucedida. Algumas se mostravam muito lentas, outras alteravam a informação enviada e o resultado, do outro lado, não era exatamente aquele desejado. É como se fosse uma fotocópia reproduzida por várias vezes, onde a última versão se torna quase ilegível. Ou, se pegarmos como exemplo o mundo da ficção científica, seria como se Marty McFly chegasse ao passado sem a cabeça, algo assim.

Mas a ciência está evoluindo. Recentemente, no Japão, um grupo de cientistas conseguiu teletransportar informações sem que o conteúdo fosse alterado. Os pesquisadores realizaram um teletransporte quântico de dados complexos, mas será que um dia conseguiremos teletransportar a matéria? Em outras palavras: será que você poderá ir de sua casa ao trabalho sem precisar encarar o trânsito? Será que naquele dia frio, você poderá se teletransportar até a padaria para buscar um lanche? Visitar outros países, frequentar shows, viajar para a Lua em questão de segundos? Para "viajar" nessa ideia, batemos um papo com o físico Bruno Golfette.

É claro que tudo aqui não passa de uma brincadeira recheada de suposições, mas... quem não gostaria de contar com essa facilidade? =)

Canaltech: Teletransportar alguém de São Paulo para o Rio é mais fácil do que teletransportar alguém daqui pro Japão? A distância influencia no processo?

Bruno: O maior desafio do teletransporte seria a enorme tecnologia de construção e processamento de dados necessária para se ler a estrutura de um corpo e usá-la posteriormente para reconstruí-lo. Tecnologias de transmissão de dados teriam custo desprezível frente a complexidade desses processos, então provavelmente o custo seria o mesmo para se transportar algo por um metro ou mil quilometros. A diferença seria no tempo de transmissão.

Canaltech: Poderíamos nos teletransportar para outros planetas?

Bruno: O teletransporte exige que no ponto de chegada exista equipamento de recepção de dados e de reconstrução de nossos corpos, ou seja, só poderíamos nos teletransportar para locais em que já tivéssemos visitado e criado essas facilidades. Se no futuro conseguirmos dominar a ciẽncia e técnica necessárias para o teletransporte, apostaria que teríamos dominado também as viagens interplanetárias, então, sim, ao menos para os planetas e luas rochosos de nosso sistema solar.

Canaltech: Se eu desintegro átomos em um local e os reintegro em outro lugar com outras partículas, então a pessoa que vai sair do outro lado é uma outra pessoa?

Bruno: Essa é uma pergunta que já intrigou as melhores mentes da humanidade em diversas épocas, desde a antiguidade. (...) Em uma concepção moderna feita por Locke, imagine que sua meia favorita fure e você a remende com um pedaço de outro tecido. Quantos reparos podemos fazer até que sua meia favorita deixe de ser ela e passe a ser outra meia? Esse problema está no cerne de conceitos como alma, espírito, substância e até mesmo no milagre da transubstanciação dos cristãos católicos entre outras áreas fundamentais do pensamento, por isso uma resposta simples e universalmente aceita é impossível de ser formulada.

Pensando do ponto de vista da ciência, é possível dizer que uma pessoa, ou qualquer outro objeto, é uma organização específica de matéria, ou seja, é uma estrutura. A nossa composição em nível atômico não é importante, o tempo todo trocamos átomos com o ambiente sem que deixemos de ser nós mesmos, porém persiste uma organização que nos permite identidade. Se extrairmos a estrutura de uma pessoa e a reproduzirmos em um lugar distante com outros átomos, esse novo corpo será "a mesma pessoa"? Com toda certeza, no momento em que o corpo é construído a estrutura será idêntica ao corpo "original", porém, temos que considerar que somos objetos fluídos. Nossa história interfere diretamente em nossa estrutura, criando cicatrizes, formando memórias em nossos cérebros, nos fazendo interferir com o universo de diferentes formas, assim, mesmo que até o instante da reconstrução do corpo, a "cópia" e o "original" fossem idênticos, eles passam a divergir a partir desse ponto e se tornariam pessoas diferentes e independentes.

Isso cria um desafio ético interessante acerca de um possível teletransporte! Destruir o original e considerar que a cópia é uma continuação não seria um assassinato? E se a simples composição atômica não nos define como pessoas antes do teletransporte, eles poderiam nos definir depois? Se a estrutura é fluída no tempo, podemos garantir que de fato possuímos uma identidade e ela pode ser transportada?

Canaltech: No teletransporte, nossa matéria é transformada em dados - ou seja, em códigos binários compostos por 0s e 1s, certo? Então eu poderia carregar alguém dentro de um HD?

Bruno: Deixando de lado problemas de digitalização (transformação de informação em bits), como a estrutura é uma informação ela pode em tese ser armazenada em outros meios, porém ela só se manifesta como pessoa se estiver no ambiente correto, ou seja, se manifestar um corpo. Assim, um HD contendo a estrutura de uma pessoa não contém uma pessoa. Mesmo porque a informação armazenada em um HD se comporta de modo diferente da informação contida em um corpo. No HD ela é absolutamente estática, enquanto um corpo é dinâmico.

Canaltech: E se tudo vira dado, eu poderia clonar/copiar pessoas?

Bruno: Em tese, sim. A tecnologia para isso, contudo, está além de tudo que temos e que conhecemos.

Canaltech: O teletransporte mataria a pessoa, já que o equipamento retalha, desconstrói o ser? E como teletransportar a nossa alma (se vc acredita nisso)?

Bruno: E mais uma vez voltamos ao primeiro problema! O conceito de alma foi justamente criado como uma saída para ele. Considerando que nossos corpos se modificam com o tempo, assim como nossas mentes, o que garante que somos, durante toda nossa vida, nós mesmos? A alma e conceitos parecidos foi a resposta que muitos conseguiram. A alma seria algo independente do corpo, da mente que garantiria a nossa identidade. É interessante pensar se a alma poderia ser criada ou destruída e existem muitas respostas diferentes para essa questão.

Tudo que foi dito a respeito da tecnologia envolvida no teletransporte é pura especulação, então não é possível garantir a precisão das previsões que fiz, porém o problema filosófico sobre o que define a identidade de um objeto é atemporal e persistirá enquanto formos humanos. Hoje, isso é um exercício interessante, porém se tal tecnologia for de fato desenvolvida, esse problema milenar passará a ter repercussões éticas importantes.