Cientistas criam mapa de 'laços sociais' a partir de comunicações globais

Por Redação | 20 de Fevereiro de 2014 às 09h35

Uma equipe de cientistas sociais e de informação resolveu revisitar e validar as previsões do cientista político Samuel P. Huntington, que há 20 anos propôs o que ficou conhecido como teoria do "choque de civilizações" – em que as identidades culturais e religiosas dos povos serão, ao contrário das ideologias, a principal fonte de conflitos no mundo pós-Guerra Fria. A previsão foi formulada por volta de 1993 e ganhou uma reformulação do próprio autor em 1996.

Os pesquisadores do Laboratório de Dinâmicas Sociais da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, usaram dados de tráfego de internautas de 90 países, utilizando interações do Twitter e registros de informações de geolocalização do Yahoo! (sem ter acesso ao conteúdo dos e-mails), para criar o que eles chamaram de "uma das redes globais mais completas de laços sociais oriundos dos fluxos de comunicação interpessoal pela Internet".

Os dados de e-mails anônimos, de acordo com reportagem do Phys.org, foram coletados pelos pesquisadores Ingmar Weber e Yelena Nejova enquanto trabalhavam na Yahoo! Inc, em 2012. Os tuítes foram coletados de posts públicos de centenas de milhares de usuários em todo o mundo. Os pesquisadores usaram a densidade do tráfego das mensagens para medir a “densidade dos laços sociais” entre os usuários de diferentes países.

Assim, eles foram capazes de diferenciar as "falhas da civilização" da era digital (a teoria de Huntington foi formulada em um cenário pré-Internet), utilizando o número de troca de e-mails e de mensagens no Twitter entre indivíduos anônimos em cada país. A pesquisa, que foi chamada de "A Rede das Civilizações na Teia Global de Comunicação Interpessoal", foi apresentada pelo diretor do Laboratório de Dinâmicas Sociais de Cornell, Michael Macy, nesta semana na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência.

Samuel P. Huntington

A pesquisa criou um diagrama com os usuários dos 90 países, classificando-os de acordo com a proposta de Huntington de dividir as civilizações em oito grupos: sínica ou chinesa, nipônica ou japonesa, hindu, bolonia, islâmica (muçulmana ou árabe), latino-americana, ortodoxa e subsaariana. Os pesquisadores constataram que o esquema "revela provas visualmente impressionante que laços sociais on-line são muito mais fortes do que dentro das civilizações".

Embora Samuel P. Huntington questionasse a possibilidade de haver uma "civilização universal", Michael Macy observa que "O choque de civilizações" foi escrito "antes de nossa espécie gravitar à web sem fronteiras do mundo cibernético, onde os cidadãos desafiam regularmente os esforços paroquiais dos Estados-nação". No entanto, ele reconhece que o mapa não mostrou qualquer evidência de que a teoria de Huntington seja inválida mesmo no momento atual.

"Encontramos pouca evidência de que a comunicação on-line seja capaz de abrir caminhos para evitar as falhas da civilização", diz, em referência ao postulado principal do autor, que questionava a posição de alguns teóricos da época. Eles afirmavam que os direitos humanos, a democracia liberal (que ganhou força com o colapso do bloco soviético) e a economia capitalista seriam, por si só, as únicas alternativas ideológicas com o fim da Guerra Fria.

"Minha hipótese é que a fonte fundamental de conflitos neste mundo novo não será principalmente ideológica ou econômica. As grandes divisões entre a humanidade e a fonte dominante de conflitos será cultural. Os Estados-nações continuarão a ser os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos da política global ocorrerão entre países e grupos de diferentes civilizações. O choque de civilizações dominará a política global. As falhas geológicas entre civilizações serão as frentes de combate do futuro", afirmou Huntington no artigo de 1993.

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