Série Astronautas parte 3: como funciona a roupa espacial?

Por Bruna Rasmussen | 17 de Julho de 2013 às 06h10

Se você decidisse sair para um passeio espacial vestindo apenas jeans e uma camiseta, é praticamente certo que você ficaria inconsciente em menos de 15 segundos devido à falta de oxigênio, seu sangue e os fluidos do seu corpo começariam a ferver, pois não há pressão atmosférica, e você poderia ser atingido por pequenas partículas de poeira estelar ou lixo espacial, que se movem em alta velocidade – um fim nada divertido!

Sendo assim, é melhor deixar essa roupa para um passeio no shopping ou no parque. Mas e no espaço, como funciona uma roupa de astronauta? O que ela precisa ter para oferecer todo o conforto e a segurança que estes profissionais precisam lá em cima?

EMU, a famosa roupa de astronauta

A clássica roupa de astronauta recebe o nome de EMU (Unidade Móvel Extraveicular, em tradução livre) e é usada quando é preciso sair da nave ou da Estação Espacial a fim de explorar uma superfície ou realizar consertos externos em sondas espaciais ou na própria nave.

Mais do que uma simples roupa, a EMU é responsável por criar uma atmosfera pressurizada adequada, como uma espécie de balão, além de garantir oxigênio e ser capaz de expelir o gás carbônico advindo da respiração. O traje precisa ainda oferecer uma temperatura confortável ao corpo humano – no espaço, a temperatura pode variar de 120 ºC a -100 ºC – e proteger o astronauta dos altos níveis de radiação do ambiente espacial.

roupa astronauta

Entrar em uma roupa de astronauta, que pesa cerca de 120 kg na Terra e que custa mais de US$ 12 milhões para ser construída, é uma tarefa pra lá de complexa. É preciso seguir nada menos que 25 passos – e você não gostaria de se esquecer de nenhum deles, acredite!

Dentro da EMU, a pressão fica em torno de 0,29 atm, um terço da pressão atmosférica terrestre, e o astronauta precisa respirar oxigênio 100%, diferente da combinação de 78% nitrogênio, 21% oxigênio e 1% de outros gases, como é por aqui na Terra. Com isso, é necessário passar por um momento de "pré-respiração" antes de sair da nave ou da Estação Espacial para entrar na EMU. Apesar do traje buscar garantir um ambiente tecnicamente adequado para o organismo humano, as mudanças em comparação com a atmosfera terrestre são grandes e a adaptação nem sempre é fácil.

Entenda as principais partes em que é dividida a EMU:

MAG (Veste de Absorção Máxima)

Um astronauta pode ficar até sete horas flutuando pelo espaço para realizar sua missão. Nesse tempo, todas as necessidades fisiológicas são feitas na própria EMU. A MAG, portanto, consiste em uma super fralda responsável pela coleta de urina e fezes.

IDB (Fonte de água)

Da mesma forma que o astronauta pode urinar durante o passeio, ele provavelmente ficará com sede. Para isso, existe na mochila de apoio um reservatório com cerca de 2 litros de água que podem ser consumidos por meio de um pequeno canudo que fica por dentro do capacete, ao lado da boca do astronauta.

LCVG (Veste de Ventilação e Resfriamento Líquido)

Para manter o astronauta em uma temperatura agradável, a EMU precisa se virar para aquecê-lo ou resfriá-lo. Para isso, a roupa conta com uma camada chamada de LCVG, ou Veste de Ventilação e Resfriamento Líquido, que nada mais é do que uma espécie de ceroulas com tubos de líquido, conectados à mochila por meio do chamado cordão umbilical, que ficam responsáveis por manter o corpo a uma temperatura agradável.

HUT (Parte superior)

A HUT é a parte de cima da veste de astronauta, que traz todas as estruturas dos braços, o capacete e a mochila de apoio.

LTA (Parte inferior)

Como uma só peça, a parte inferior da roupa de astronauta inclui as calças, a proteção de joelho e as botas.

EVA (Acessório de visão extraveicular)

Durante missões, os astronautas geralmente levam consigo o EVA, um acessório para uso externo que traz consigo um refletor especial para proteger a visão contra o sol, lâmpadas e uma câmera.

SCU (Cordão umbilical)

Assim como a função do cordão umbilical em relação ao feto, o SCU é fundamental para o astronauta em missão. Afinal, é a partir dele que é passada a energia, os tubos de resfriamento, o oxigênio e a água. Os fios são ligados à mochila de apoio, que fica nas costas do astronauta.

Comunicação

A EMU dispõe de todo o sistema de comunicação via rádio necessário para que o astronauta se comunique com a nave ou com a Estação Espacial. No capacete, um headset e um microfone estão sempre conectados.

Veste pressurizada

Quando as viagens espaciais começaram, os astronautas costumavam utilizar uma veste pressurizada durante os lançamentos com o objetivo de proteger a tripulação em caso de despressurização da cabine. Com o passar do tempo e com uma maior frequência de lançamentos bem sucedidos, essa veste foi deixada de lado.

Astronauta

Contudo, após o desastre do ônibus espacial Challenger, em 1986, as normas mudaram. Agora, a NASA exige que toda a tripulação utilize uma veste especial, que mantém a pressão adequada e é equipada com acessórios de comunicação e proteção, durante os lançamentos.

De roupa nova

O último modelo de EMU foi desenvolvido ainda na década de 90 e já está bastante ultrapassado. Cientistas da NASA estão desenvolvendo um novo modelo de roupa de astronauta capaz de oferecer mais conforto e proteção em viagens espaciais. Um protótipo chamado de Z-1 já está sendo testado em ambientes de vácuo e sua segunda versão deve ficar pronta para 2015.

Astronauta veste Z-1

A principal novidade da veste é a facilidade de usá-la. Em vez dos 25 complexos passos para entar na EMU atual, a Z-1 pode ser vestida por inteira e de uma só vez. Além disso, a veste promete mais flexibilidade nos movimentos e conforto para o astronauta.

Leia também: Série Astronautas parte 1 - como é a vida no espaço?

Leia também: Série Astronautas parte 2 - quais os impactos da microgravidade no corpo humano?

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