O Brasil está preparado para lidar com a crescente frota de carros elétricos?

Por Andressa Neves | 27.04.2016 às 07:55 - atualizado em 27.04.2016 às 09:37

A preocupação com o aquecimento global e a necessidade de desenvolver tecnologias sustentáveis está presente entre as principais montadoras de carros do mundo. Algumas delas vêm trabalhando para diminuir o impacto ambiental dos veículos há anos, e a solução por meio dos carros elétricos têm ganhado destaque mundial com o aumento da oferta de modelos e com o crescimento de montadoras especializadas nesse tipo de veículo.

Os carros elétricos contribuem diretamente para a preservação do meio ambiente por não emitirem gases como o CO2, um dos principais responsáveis pelo aquecimento global. Além das vantagens relacionadas à sustentabilidade, os elétricos apresentam diversos benefícios aos usuários, como economia com combustível, manutenção e alguns incentivos governamentais que visam a popularização dos veículos. Mas será que o Brasil está preparado para lidar com o aumento da frota de carros elétricos como outros países?

Carro elétrico

De acordo com o Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), o número de carros elétricos no país dobrou entre 2013 e 2015, quando alcançou a marca de 4,7 mil unidades, mas as expectativas são de que esse número cresça rapidamente, principalmente por conta da redução de impostos anunciada pelo governo. Para se ter dimensão do que vem por aí, a previsão da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), que visa promover a utilização de veículos elétricos no Brasil, é que o setor atinja ao menos entre 30 e 40 mil unidades nas ruas até 2020.

É claro que o número ainda é pequeno, principalmente quando comparado com outros países, como a China, que tem como objetivo o número 5 milhões de veículos elétricos rodando até 2020, mas a tendência de crescimento no Brasil mostra que alguns investimentos em infraestrutura são urgentemente necessários.

Principais desafios

Segundo a ABVE, com quem o Canaltech conversou, a maior dificuldade para que os carros elétricos se popularizem no país é a falta de estrutura para recargas. Apesar da existência de carregadores residenciais, são necessárias as instalações de recarga nas ruas. Até o ano passado eram apenas 50 postos de recarga em todo o país. Há um projeto da CPFL para a criação de mais cem, mas ainda assim o número é bastante inferior quando se leva como referência a demanda prevista. A expectativa é de que até 2017 a rede de postos para recarga seja de pelo menos 153 unidades no Brasil.

Levando em consideração o tamanho do território nacional, mesmo com o crescimento previsto, o número ainda é ínfimo, principalmente porque é incapaz de atender motoristas que desejem fazer viagens mais longas. Para se ter dimensão, a autonomia com um veículo carregado varia entre 150 e 350 km. Caso o condutor queira dirigir até um destino mais longínquo, a viagem fica prejudicada pela falta de postos de recarga.

Eletroposto

Outra questão importante para que os carros se popularizem é o seu valor de venda, bem mais alto que o de carros movidos a combustível. Por exemplo, a última novidade no setor de elétricos, o Model 3 da Tesla, nos Estados Unidos custa US$ 35 mil, cerca de R$ 126 mil reais.

Incentivos governamentais

Visando a popularização e a economia sustentável, já se pode observar alguns estímulos aos carros elétricos no país. Sobre o assunto, a associação informou que "em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad sancionou o projeto de lei que incentiva o uso de veículos movidos à energia elétrica, híbridos e a hidrogênio na capital paulista, isentando-os do rodízio municipal e da parcela municipal do IPVA".

Outros incentivos têm vindo do governo federal, mas existe necessidade urgente de atualização da redução de impostos de importação, já que os veículos leves ainda vêm do mercado estrangeiro.

"É urgente a atualização do imposto de importação, já que, atualmente, a importação dos híbridos sem 'Plug In' tem alíquota de Imposto de importação reduzida, porém os elétricos e híbridos plug in, mais modernos e sustentáveis, ainda não. Precisamos atualizar essa política", informou a ABVE.

Veículos autônomos

Uma tecnologia que tem estado associada à fabricação de veículos elétricos, como o último lançamento da Tesla, é a função de piloto automático, que proporciona aos usuários o conforto de não precisar guiar o veículo. Essa é uma questão importante ao se levar em conta o uso no Brasil, afinal nossas ruas e estradas estão preparadas para essa função?

Segundo pesquisa divulgada pela Confederação Nacional de Transportes no final do ano passado, "57,3% das principais rodovias do país têm alguma deficiência, sendo que 22,4% das vias foram avaliadas como ruins ou péssimas". Isso significa que, obviamente, os carros autônomos não funcionarão adequadamente no país.

Piloto automático Tesla

Para um desempenho adequado, os automóveis que dirigem sozinhos possuem diversos sensores, que são responsáveis por traçar as trajetórias e evitar acidentes. Dessa forma, o sistema do Model 3 precisa localizar as faixas das ruas e estradas, muitas vezes deterioradas e outras tantas inexistentes. Quando as faixas não estão corretamente visíveis, o veículo pode apresentar problemas, falhando a sua função autônoma.

O que esperar para o futuro

Enquanto no Brasil questões básicas de infraestrutura precisam ser analisadas, as grandes montadoras estão trabalhando a todo o vapor no desenvolvimento de novas tecnologias. Companhias como Google e Apple se preparam para ingressar no mercado, enquanto grandes marcas consolidadas no setor já anunciam novos modelos, como por exemplo a Audi, que pretende fabricar seu primeiro SUV totalmente elétrico em 2018; e a Toyota, que tem como meta não fabricar mais carros movidos apenas por gasolina até 2050.

Mesmo diante de todos os objetivos das montadoras e das tendências mundiais, o Brasil parece ainda engatinhar no setor. De acordo com Flávia Consoni, que realiza pesquisas na Unicamp, “é preciso cautela ao falar do país, pois há décadas sua política é voltada ao etanol. O veículo elétrico seria uma alternativa. Não temos tecnologia para ser comercializada e temos empecilhos a superar".

Com informações de ABVE, Unicamp, Exame, Uol