Com programa de mobilidade, Nissan quer futuro com zero emissões

Por Felipe Demartini | 19 de Janeiro de 2020 às 18h00

Um dos slogans usados pela Nissan em sua iniciativa com veículos elétricos é também um repetido pelos executivos da marca quando falam sobre o assunto. A ideia de “inovação que empolga”, como aparece nos materiais de divulgação da marca, é a principal base da iniciativa Inteligent Mobility, que norteia os princípios do que a fabricante acredita ser o futuro da mobilidade, com novos padrões que já são uma realidade nas pistas de corrida e, em menos de dez anos, também uma constante nas ruas das grandes cidades do Brasil e do mundo.

O ideal é ambicioso. De acordo com a Nissan, o objetivo é unir inovação, tecnologia e performance para garantir um futuro com zero emissões de carbono e outros poluentes. O trabalho feito pela marca é coordenado e passa pela divulgação dos veículos eletrificados para o público em geral e, também, pela demonstração de performance pura e poder que uma categoria como a Fórmula E proporciona, pelas mãos de pilotos experientes, novatos promissores e circuitos desafiadores.

São diversos os pilares do Nissan Inteligent Mobility, iniciativa voltada para não apenas fomentar a utilização dos carros elétricos da marca e preservar o meio ambiente, mas também garantir sua integração ao cotidiano das pessoas. O primeiro, claro, é o desenvolvimento dos veículos em si, com o Leaf sendo o principal modelo atual. Na sequência, estão a participação na Fórmula E, como uma forma de demonstrar a performance desta tecnologia, e depois, a instalação de infraestrutura e o reaproveitamento de bateriais de forma a garantir uma continuidade sustentável.

O Chile, onde acontece a terceira etapa da competição, acaba servindo como a principal vitrine dessa empreitada para o restante da América Latina. Estamos falando de um país no qual a indústria automotiva não conta com a interferência do governo, como acontece no Brasil, o que levou a um mercado completamente fragmentado e aberto. São mais de 60 fabricantes presentes, sendo que cada uma das três maiores, grupo no qual a Nissan está localizada, não detém muito mais de 8% de market share cada.

“Quando você anda pelas ruas de Santiago, consegue ver carros elétricos em meio ao trânsito. O país é um exemplo importante do que queremos levar para o restante da América Latina”, explica Luis Alberto Pérez, diretor de marketing da Nissan para a região. E aproveitando a terceira etapa da Fórmula E, que aconteceu no último sábado (18) na capital chilena, a marca anunciou um investimento para criação de 1.500 pontos de recarga rápida, cobrindo o país com a infraestrutura necessária para o desenvolvimento da indústria.

O total se une a mais unidades, disponíveis nas concessionárias da Nissan, e também a iniciativas em andamento com fornecedoras de energia e universidades. A ideia, no final das contas, é garantir que o mercado se desenvolva e, também, sirva de protótipo para os vizinhos, incluindo o Brasil, onde os desafios são maiores e a regulação, também. A perspectiva para o nosso país é otimista, onde o principal carro da marca, o Leaf, já está disponível. Os brasileiros também estão no calendário dos oito novos veículos eletrificados que serão lançados pela montadora até 2023, incluindo um que será apresentado em novembro durante o Salão do Automóvel, em São Paulo (SP).

O que veio primeiro?

Nissan vê divulgação e infraestrutura como bases para desenvolvimento da eletrificação, com planos que envolvem milhares de estações de recarga e um milhão de carros vendidos (Imagem: Divulgação/Nissan)

Luis Felipe Clavel, gerente de desenvolvimento de negócios, compara o desenvolvimento da indústria de carros elétricos com o velho paradoxo do ovo e da galinha. Enquanto a marca trabalha no Chile para garantir que a infraestrutura necessária para o setor esteja pronta, o segundo mercado de veículos elétricos da América Latina, a Colômbia, mostra que o caminho inverso também é possível. Por lá, existem mais carros do que unidades públicas de carregamento e, para ele, essa pode acabar sendo a rota seguida também no Brasil.

“Incentivos do governo acabam facilitando a entrada nestes territórios”, explica, citando vantagens para os moradores de São Paulo, por exemplo, que contam com isenção de IPVA e estão fora do rodízio na capital caso adotem um carro elétrico. No país vizinho, os donos de automóveis desse tipo também podem trafegar em faixas exclusivas para ônibus, ganhando vantagem no trânsito. “Enquanto isso, trabalhamos em novas regras de distribuição de venda de energia para que exista infraestrutura fora de casa para o cliente”, completa.

Temos aqui, inclusive, é um ponto que a Nissan gosta de deixar claro, considerando que um dos principais empecilhos para o crescimento do mercado é, justamente, a falta de informação. As baterias dos carros elétricos podem durar por dias em um trânsito usual das cidades, com o próprio dono do carro fazendo o carregamento da bateria em casa, a partir de uma instalação dedicada. As unidades de carregamento públicas, que seriam o equivalente aos postos de gasolina para a tecnologia, somente são necessárias em viagens longas.

Incentivos governamentais também ajudam a aumentar o interesse das pessoas pelos carros elétricos (Imagem: Divulgação/Nissan)

Essa ideia levou a Nissan a outro dos pontos focais de sua atuação, que é incentivar os clientes a experimentarem os carros. Nas concessionárias, mesmo aqueles que vão buscar informações sobre veículos comuns são convidados a testar o Leaf, com a impressão, na maioria das vezes, sendo extremamente positiva. “O que mais ouvimos dos usuários é que, após adquirem o primeiro veículo eletrificado, não querem mais saber de motores de combustão”, completa Pérez. “É o que chamamos de ‘efeito uau’.”

O mesmo também vale para os híbridos, como aponta o vice-presidente de vendas e marketing para a América Latina da Nissan, Ricardo Flammini, que os compara a “dirigir uma pluma”. Para ele, os motores que misturam eletrificação e combustão são a tecnologia de transição ideal para inteirar as pessoas sobre as vantagens da eletrificação. Mas ele deixa algo claro: “carros elétricos são o futuro e, em alguns anos, ninguém mais vai perder tempo no posto de gasolina.”

Flammini, faz uma comparação ainda mais ambiciosa sobre o segmento, o comparando com o das televisões de tela plana ou smartphones de ponta. “Há alguns anos, essas eram tecnologias caríssimas e pouco acessíveis. Hoje, não mais, e o mesmo vai acontecer com a eletrificação”, afirma, apostando na popularização na medida em que incentivos governamentais e infraestrutura começam a dar as caras por aí. A expectativa da Nissan é de vender um milhão de carros elétricos até o final de 2023.

Ricardo Flammini, da Nissan, cita veículos elétricos e autônomos como o futuro para uma indústria automobilística mais limpa (Imagem: Felipe Demartini)

Essa noção também passa, logicamente, pela participação na Fórmula E. Se nas ruas das cidades o foco está em infraestrutura e autonomia, nas pistas, a ideia é demonstrar a performance pura. É por isso que, desde a temporada do ano passado, a fabricante japonesa atende, nos circuitos, pelo nome de Nissan e.dams e tem o veterano Sébastien Buemi, que inclusive já foi campeão da categoria, como um de seus pilotos, ao lado de Oliver Rowland, que vem demonstrando resultados promissores na competição.

A alta performance dos carros e a rivalidade das corridas, sempre em circuitos estreitos e com diferentes regras que permitem até mesmo a participação dos fãs, dando um a carga extra de energia aos veículos por meio de votações nas redes sociais, ajudam e muito na divulgação dos carros elétricos para a população. Afinal de contas, nada melhor para demonstrar performance do que colocar um veículo do tipo na mão de um veterano como Felipe Massa, por exemplo, para que ele o dirija a quase 300 quilômetros por hora.

Isso valeria, inclusive, para o Brasil, que há anos flerta com a ideia de contar com uma etapa da competição. “[Nosso país] ainda é muito mal informado sobre os avanços da tecnologia elétrica e os benefícios para a vida das pessoas e o meio-ambiente”, afirma o piloto brasileiro Lucas Di Grassi, que corre pela equipe Audi ABT Schaeffler e esteve envolvido, inclusive, em iniciativas para trazer a etapa ao nosso país.

Como os executivos da Nissan, ele também aponta para o exemplo do Chile. Segundo ele, o desenvolvimento econômico do país nas últimas décadas também fez com que se abrissem as portas para tecnologias inovadoras e disruptivas, como é o caso da eletrificação. “Os governantes [do Brasil] têm uma ideia antiquada sobre o assunto, mas uma competição como a da Fórmula E, com certeza, ajudaria a mudar as coisas.”

Depois das ruas

Preservar a natureza, como se sabe, é o grande objetivo da transição dos carros tradicionais para os elétricos. E isso também passa pelo que acontece depois das ruas, após os cerca de oito anos garantidos pelas fabricantes para autonomia total. É aqui que entram iniciativas de reciclagem e reaproveitamento, que dão uma segunda vida a células que, apesar de não apresentarem mais o desempenho esperado para um carro elétrico, são mais do que adequadas para outras utilizações.

A principal delas, aponta Flammini, é a utilização em postes de iluminação pública. Baterias usadas do Nissan Leaf são aplicadas em estruturas desse tipo, que têm três dias de autonomia e contam com placas de energia solar para recarregamento. A ideia, criada em parceria com as universidades, está sendo aplicada, também, como forma de estudar o uso constante das células por um período mais longo. Alguns destes postes sustentáveis estão, inclusive, no Brasil, instalados em Florianópolis (SC) em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina.

O objetivo final é que a iniciativa siga também o caminho inverso, com as já citadas bases de carregamento rápido de carros elétricos usando também esse tipo de energia renovável. Afinal de contas, de nada adianta ter uma tecnologia desse tipo se ela for abastecida por geradores a diesel ou outros métodos não renováveis. “A captação solar é uma tecnologia brilhante e, com toda certeza, será grande aliada da eletrificação na busca pela preservação do meio-ambiente”, afirma Flammini, não escondendo sua empolgação.

Outro objetivo ainda mais ambicioso permeia o futuro distante da iniciativa Nissan Inteligent Mobility. Enquanto trabalha para acabar com as emissões de poluentes, a montadora desenha um outro norte: além de zero emissões, também quer zerar os acidentes. "Tornar as ruas totalmente seguras é nosso grande foco, algo que somente será possível com o desenvolvimento da direção autônoma", diz Clavel, explicando que toda a pesquisa de carros que se dirigem sozinhos da empresa é feita exclusivamente com modelos elétricos. "Nosso ideal final só é possível com a união destas duas tecnologias", completa.

O repórter viajou para o Chile a convite da Nissan.

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