Carros autônomos são apenas o começo. Veja como será a revolução da mobilidade

Por Colaborador externo | 24.01.2017 às 17:18
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Por Nir Erez

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Se mobilidade urbana não apareceu na sua lista, você não está sozinho. Poucas pessoas se preocupam com a locomoção em áreas metropolitanas – até que elas fiquem presas no trânsito ou o trem que elas estão esperando atrase mais uma vez. Felizmente, uma nova safra de empresas de tecnologia está aqui para resolver esse problema.

Desde a Revolução Industrial, a maneira como nós nos movimentamos pelas áreas metropolitanas tem moldado a nossa própria qualidade de vida, pois determina onde nós escolhemos trabalhar e morar. Além de ter se tornado mais apertada e desgastante, a vivência da mobilidade urbana mudou pouco no último século. Mas uma revolução irá acontecer nos próximos 20 anos. As ineficiências dos congestionamentos, poluição e estacionamentos serão superadas por empresas de inovação tecnológica, como Google, Tesla, Uber e Moovit, minha empresa. Essas empresas e outras estão revolucionando a mobilidade urbana de maneiras que eram inimagináveis até alguns anos atrás.

Para entender como esta revolução está acontecendo, é mais fácil pensar em mobilidade urbana como um conjunto de camadas tecnológicas sobrepostas, sendo que a mudança está acontecendo no topo, mas ainda chegou muito pouco nos níveis mais baixos.

Na base está a camada da infraestrutura física – as ruas, pontes, estações de trem, metrôs, pontos de ônibus e estacionamentos e garagens das áreas metropolitanas. Nas cidades mais antigas, a camada da infraestrutura não muda há décadas. Compare os mapas das ruas de Londres em 1911 ou do metrô de Nova Iorque em 1948 com os mapas atuais e você verá que as diferenças são poucas.

A segunda camada é a das regras – itinerários dos ônibus, limites de velocidade, licenças, permissões e preços. Essa camada também tem se mantido estática. Cartas de motorista, permissões para desfiles e limites de velocidade são basicamente os mesmos de 50 anos atrás.

A camada acima é a dos veículos nos quais as pessoas se locomovem – principalmente carros, mas também trens, ônibus, metrôs, motocicletas e bicicletas. Apesar de diversas melhorias incrementais, esses veículos são fundamentalmente os mesmos desde a sua introdução. Os automóveis originais eram chamados de carruagens sem cavalos. Hoje em dia, suas potências ainda são medidas em cavalos.

No topo desse conjunto de camadas de mobilidade está a interface do usuário – como as pessoas consomem a mobilidade. É aí que a revolução começou. Nos últimos cinco anos centenas de milhões de pessoas têm utilizado aplicativos de carona em seus smartphones, planejado rotas cotidianas com GPS e colaborado com dados mais precisos para a comunidade via crowdsourcing. As mudanças que ocorrem nessa camada em breve se espalharão pelas outras camadas e trarão vantagens de verdade tanto para as comunidades quanto para os consumidores.

A camada física irá se adaptar lentamente. No fim, as mudanças irão incluir vias expressas e cruzamentos sem paradas, permitir e acomodar novos formatos de veículo e motivar interfaces práticas entre modos de transporte particular e transporte público.

A camada das regras irá fazer uma transição do estático para o dinâmico. Os dias de estudar apostilas nas autoescolas para a formação de condutores ou ficar lendo publicações governamentais para entender as novas regras do trânsito ficarão no passado. Ao invés disso haverá um sistema operacional (SO) que irá conectar todos os veículos, passageiros e a infraestrutura. Esse SO irá englobar direitos de acesso, mudança de direção de vias, gerenciamento de cruzamentos, preços, pagamentos, estacionamento e as interfaces entre modos de transporte. Isso irá determinar quais veículos podem se movimentar para quais espaços em qual velocidade e por qual preço, quem tem a preferência nos cruzamentos, quem pode pegar ou deixar um passageiro exatamente no local certo. O preço das estradas e os veículos serão organizados para priorizar alta densidade e menor emissão de poluentes em horários determinados. Inconveniências que nós aceitamos atualmente como gastos de trânsito ou rodízio de carros vão ser consideradas ultrapassadas quando programas mais inteligentes e eficientes surgirem.

Na camada dos veículos, os carros se tornarão conectados, elétricos, não precisarão de um motorista e finalmente poderão ter novos formatos. Parte desse trabalho já está sendo bastante disseminado por empresas como Google, Tesla, Uber e outras que testam novas tecnologias todos os dias. Andando pelo centro de São Francisco ou dirigindo pelo Vale do Silício é provável encontrar um carro autônomo com sua estrutura rotativa no teto navegando pela pista ao seu lado. Quando a revolução desse aspecto da mobilidade urbana estiver completamente implementada, as pessoas irão considerar mobilidade um serviço invés de um trajeto em um carro particular, táxi ou transporte público.

Essas mudanças tectônicas nas camadas da mobilidade urbana serão possíveis com o apoio do Big Data. Da mesma maneira que hoje em dia uma criança de 10 anos com um smartphone tem mais informação que líderes mundiais tinham uma década atrás, cidades e municípios irão ter acesso a dados em quantidades nunca antes imaginadas. Atualmente os municípios continuam conduzindo pesquisas de mobilidade caras e sem frequência no formato clássico para entender o que está acontecendo nas suas cidades. É uma questão de tempo até que elas sejam substituídas por sistemas baseados em sensores e smartphones para conseguir dados muito mais precisos e em tempo real. Essa informação irá levar a uma mudança completa em todos os aspectos do planejamento e gerenciamento da mobilidade urbana.

O Moovit já é um player importante na área de dados de mobilidade, com mais de 50 milhões de usuários ao redor do mundo que usam o nosso aplicativo gratuito e geram bilhões de dados pontuais a cada semana. Nós combinamos esses dados com contribuições de mais de 150.000 “Mooviters” (editores locais), que voluntariamente mapeiam suas cidades ao inserir as coordenadas de latitude e longitude de cada parada no trânsito enquanto fornecem atualizações em tempo real de ruas fechadas, greves e outras questões relacionadas ao sistema de trânsito. Isso é uma fonte riquíssima de dados de mobilidade urbana, que no final irá servir de base para a próxima geração da mobilidade como um serviço.

A coleta, mensuração e análise de dados por meio do Big Data auxiliarão os órgãos municipais ao redor do mundo de um jeito que eles nunca puderam imaginar, nem mesmo cinco anos atrás. É um trem que se move rápido e que você não quer perder.

*Nir Erez é CEO da Moovit