No futuro, os carros saberão tudo sobre nós. E o que saberemos sobre eles?

Por Luciana Zaramela | 12 de Setembro de 2012 às 07h25

A velocidade com que a tecnologia avança é assustadora. Há 20 anos não tínhamos contato com telefonia móvel, a internet era coisa de centros de pesquisa avançados, ouvíamos músicas em LPs e íamos até a locadora para alugar uma fita cassete de um filme que demorava cerca de quatro anos para chegar até o Brasil. Hoje não. Passadas apenas duas décadas do fim da era dos LPs e K7s, nunca estivemos tão próximos da fronteira entre homens e máquinas.

No início de setembro, em Berlim, aconteceu a feira de eletrônicos IFA 2012, com centenas de novidades para o público amante da tecnologia. Entre computadores, smartphones e tablets, também estavam presentes os carros do futuro e seus gadgets especiais, com representantes da Ford, Inrix, Microsoft e TuneIn Radio. Sim, nós teremos automóveis cuja tecnologia surpreendente dispensará o "uso" de motorista. Carros relativamente autônomos, conectados o tempo todo com outros veículos. Estamos cada vez mais próximos de realizar uma ultrapassagem com estilo pela linha do tempo de Os Jetsons.

Em pouquíssimos anos, nossos carros estarão conectados uns aos outros e participando assiduamente da nuvem de dados na internet. Em prol da segurança no trânsito e da redução do número de acidentes, os automóveis inteligentes equipados com sensores, GPS e rede sem fio tomarão conta do trânsito.

Carros V2V  Ann Arbor

Frota de testes da NHTSA em Ann Arbor. Várias montadoras apostaram nos carros inteligentes: Mercedez-Benz, General Motors, Toyota, Honda, Ford, Nissan, Hyundai-Kia e Volkswagen (Foto: Susan Kushinskas / Divulgação)

Em um projeto realizado em Ann Arbor, no estado americano do Michigan, pela National Highway Traffic Safety Administrarion (NHTSA) e oito grandes montadoras de automóveis, cerca de 2800 carros, caminhões e ônibus urbanos foram equipados com um sistema de transmissão de dados, que informa seus tamanhos, velocidades e localizações à medida em que circulam pelas cidades ou estradas.

Carros V2V  Ann Arbor

Volkswagen GTI equipado com o sistema veículo-a-veículo (V2V) para o teste. Se a tecnologia funcionar, ganhará um hardware compacto nos próximos veículos (Foto: Susan Kuchinskas / Divulgação)

Os veículos, conectados por uma banda especial de rede sem fio (reservada apenas para comunicação veículo-a-veículo), saberão evitar acidentes como nenhum ser humano. Se um pedestre surgir no caminho, o carro inteligente evitará o atropelamento, intervindo no momento certo e alertando o motorista para que reaja de acordo com a situação e evite tragédias.

"Com a ajuda da tecnologia, será possível reduzir o número de acidentes em aproximadamente 70%", disse Pim van der Jagt em entrevista à PC World, na IFA 2012. E isso é apenas o começo, já que hoje em dia é possível encontrarmos carros equipados com computadores que controlam seus freios e aceleradores para evitar batidas, ou moderam a velocidade máxima nas ruas e estradas.

Cadillac Cue

Painel do Cadillac XTS CUE 2013 - o usuário poderá interagir com o carro por comandos de voz e smartphones. O carro suporta tecnologia GPS, mensagens de texto e possui todo um sistema integrado interno de navegação e áudio.

Ainda estamos um pouco longe de termos veículos completamente independentes, que guiam-se sozinhos para nos buscar no trabalho ou levar as crianças à escola. Mas, dentro em breve, teremos veículos capazes de manter a direção enquanto procuramos uma música no rádio ou acessamos o sistema operacional do carro, avisando-nos sobre qualquer perigo iminente nas pistas.

A tecnologia utilizada no teste de Ann Arbor localiza veículos e obstáculos em um raio de 300 metros, e não precisa de internet para funcionar. Felizmente, o sistema não coleta nenhum dado de registro do veículo ou do motorista, e informações sobre destino não são armazenadas. Ainda.

Voltemos à questão da privacidade: será mesmo que, no futuro, teremos carros inteligentes que nos levarão de um lugar a outro sem registrar nossos dados? É claro que não. No futuro, teremos carros personalizados; eles serão mais que um membro da família. Farão parte do nosso cotidiano, participarão de grandes momentos de nossas vidas, serão nossos companheiros. Em questão de poucos anos, basta que sentemos no banco do motorista para que o carro nos cumprimente, ajuste os retrovisores e a altura da direção, diga as condições climáticas, leia as notícias, coloque nosso disco favorito para tocar e pergunte aonde queremos ir. E por meio de um smartphone ou tablet (esses possivelmente serão liberados para uso no trânsito), os carros nos lembrarão de compromissos importantes, reuniões, locais mais visitados... para não dizer que lerão nossos e-mails e efetuarão chamadas para nossos amigos.

Vamos um pouco mais além: ao entrarmos em seu carro do futuro, não seremos apenas cumprimentados e informados sobre as últimas novidades do dia. Já estão em desenvolvimento sistemas para veículos que medem a pulsação cardíaca do motorista, para previnir que ele pegue no sono ou tenha um infarto do miocárdio enquanto dirige. Os veículos serão capazes de coletar nossos dados, sabendo quem somos, para onde vamos, o que fazemos. A questão é: onde ficarão armazenadas essas informações? Por quanto tempo? Quem cuidará dos bancos de dados?

Até o presente momento, as empresas têm planos. A Inrix ficaria reponsável pela coleta anônima dos dados. A filosofia da Microsoft e da Ford é manter as informações sob propriedade exclusiva do usuário. Nada exato foi comunicado ainda, e cabe a nós nos indagarmos a respeito do paradeiro e da manutenção de nossos dados. Tudo que fizermos será registrado? Todos os locais que visitarmos serão armazenados em servidores? A polícia terá acesso a esses dados? Até que ponto teremos sigilo? Quem será o provedor de nossos serviços?

Já vimos aqui no Canaltech que os provedores de internet registram tudo sobre nós. E com os carros, seria diferente?

Estamos preocupados com nossa segurança, mas não podemos deixar de lado a nossa privacidade, nosso direito de ir e vir. Em poucos anos, os carros e os robôs estarão fazendo tudo que os seres humanos fazem. Estarão pensando, trabalhando, indo e vindo por nós. E não saberemos até que ponto poderemos "confiar" nessas máquinas.

Afinal, estamos caminhando para uma situação em que computadores, carros e robôs terão um registro completo de nossos hábitos, de nossa rotina e até do que foge dela. Eles gravarão nossas vozes. Mensurarão nossos batimentos cardíacos. Reconhecerão nossas digitais. Saberão exatamente quem somos, de onde viemos, para onde vamos.

E nós? O que saberemos sobre eles?

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