Vestibular ainda é necessário para ingressar no ensino superior?

Por Lucas Gomes Silveira | 18 de Agosto de 2020 às 10h00
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No Brasil, o vestibular é, de longe, a principal forma de ingresso no ensino superior (temos também outras formas, como o Enem e a segunda graduação). Ano após ano, diversos estudantes que estão terminando o ensino médio ou que já são formados, sonham conquistar o diploma de graduação e, para isso, realizam provas extensas, que, muitas vezes, duram mais de um dia. 

O vestibular serve como a porta de entrada para a realização de um sonho, o de um futuro melhor. Afinal, as melhores vagas de emprego são destinadas para quem tem um diploma da graduação. No Brasil, segundo dados do Caged, pessoas contratadas em 2019 com diploma de ensino superior receberam um salário 131% maior do que as que não tinham o diploma. 

Por isso, os processos seletivos sempre foram muito concorridos seguindo uma lógica de muitos candidatos para poucas vagas disponíveis. Entretanto, nos últimos anos, essa situação tem mudado.

As vagas aumentaram e as faculdades passaram a disputar os estudantes, e não ao contrário, como era antes. Depois de tanto tempo trabalhando com o mercado de educação, me faço uma pergunta: ainda é necessário termos o vestibular? Isso que discutiremos ao longo deste artigo. 

Como surgiu o vestibular?

O vestibular existe no Brasil há mais de um século. Na verdade, exames para ingresso nas universidades existiam desde antes disso (na Escola de Cirurgia da Bahia, Faculdade de Direito de São Paulo e de Olinda), mas foi apenas em 1911 que tudo foi deixado de forma oficial (e, em 1915, foi usada a palavra vestibular para designar o exame).

As provas continham questões de Língua Portuguesa, Língua Estrangeira e Ciências (com conhecimentos de Matemática, Física e Química). Nesse momento, era cobrado tanto o conteúdo aprendido no ensino médio quanto uma parte específica do curso em questão. 

Outro grande momento da história dos vestibulares foi em 1961, com a Lei de Diretrizes e Bases, que determinava que todos os cursos de grau médio poderiam servir de entrada para o ensino superior. Nesse período, também foram criados exames integrados, que valiam para mais de uma universidade. 

Em 1970, foi instaurado que apenas o conteúdo do ensino médio poderia ser cobrado pelos processos vestibulares. Nesse período, era comum ver diversos estádios de futebol lotados para a realização das provas, devido a alta demanda de candidatos e a pouca quantidade de vagas disponíveis. 

Isso acabou causando um grande problema, já que o critério utilizado para realizar a aprovação dos candidatos nos cursos de ensino superior era o de nota mínima. Acima dela, todos estavam aprovados. Ou seja, tinham um número de pessoas que passavam pelo exame maior do que os cursos poderiam suportar. Assim, os vestibulares passaram a ter duas características que acompanham até hoje:

  • Qualificatório: a prova serve para atestar que o candidato tem os conhecimento prévios mínimos para realizar o curso de ensino superior;
  • Classificatório: devido ao número reduzido de vagas no ensino superior, o exame tem a função de classificar os candidatos de acordo com o desempenho. Os melhores colocados, as conquistam;

O baixo número de vagas que continuou até a década de 1990, se reflete até hoje, já que de acordo com dados levantados pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 21% dos brasileiros entre 25 e 34 anos possui ensino superior concluído. É a média mais baixa entre os países analisados na América Latina: Argentina (40%), Chile (34%), Colômbia (29%) e Costa Rica (28%). A média entre os países pertencentes à OCDE é de 44%. 

Dessa maneira, o ensino superior foi (e ainda é, em muitos casos), muito restritivo para a maioria dos brasileiros. Entretanto, aconteceu um fenômeno recente com a explosão de número de cursos que acabou alterando um pouco esse processo.

Cresce o número de cursos de ensino superior no Brasil

O primeiro boom de crescimento foi em 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Ela abriu a possibilidade para grupos privados atuarem na educação superior, ocasionando uma alta nos cursos. 

Nos últimos 10 anos, vimos uma segunda onda de crescimento. Em 2009, por exemplo, segundo dados do Censo da Educação Superior, realizado anualmente pelo MEC, na modalidade presencial, tínhamos 28.117 cursos. Em 2018, data do último Censo da Educação Superior, esse número chegou 35.076, com maior crescimento na rede privada. 

Entretanto, não foram os cursos presenciais que impulsionaram esse crescimento, e sim a modalidade EaD. Em 2009, eram apenas 849. Em 2018, esse número chegou 3.180. E ainda existe um potencializador. Ao contrário da modalidade presencial, o ensino a distância comporta muito mais estudantes por turma, muitas vezes passando das centenas de alunos. 

Tudo isso ocorreu graças ao Decreto 9057, de 2017, que flexibilizou o fluxo de aprovação dos cursos superiores na modalidade EaD, desburocratizando todo o processo, diminuindo o tempo de abertura de um polo e aumentando o número de oportunidades para eles. Antes, a demora era de 2 anos e agora passou a ser 6 meses, em média. Além disso, instituições de ensino podem passar a oferecer apenas na modalidade a distância. 

A oferta de vagas acaba superando a procura pelos cursos

O decreto e a explosão na oferta de cursos de ensino superior EaD trouxe um crescimento no acesso de estudantes no ensino superior, fazendo com que sobrassem vagas em muitos cursos. 

Por exemplo, ao analisar o EaD, de acordo com dados do Censo da Educação Superior, apurados pelo Quero Bolsa, a concorrência é de 0,56 candidatos para cada vaga. Ou seja, temos quase 2 vagas para cada um que tenta entrar em um curso. Analisando os cursos presenciais, esse número sobe para 3,09. 

Se a gente olha para todos os cursos (presenciais e a distância) na rede privada, a concorrência é de 1 candidato por vaga. Na rede pública, esse número sobe para quase 10 por vaga. 

Falando sobre curso a curso, entre os com pelo menos 500 vagas oferecidas no ano de 2018, em universidades privadas, 70% tinham concorrência de menos 1 candidato por vaga. Assim, em quase três quartos de todas as possibilidades oferecidas não existe nenhuma concorrência para entrar no curso.

Esses são os cursos mais procurados e a concorrência na rede pública e privada:

Relação candidato vaga dos cursos mais procurados na rede privada e pública
Curso Privada Pública
Administração 1,44 12,58
Direito 3,06 19,85
Pedagogia 1,09 7,10
Enfermagem 2,45 22,82
Contabilidade 0,92 10,17
Psicologia 3,00 25,59
Medicina 13,06 67,17
Fisioterapia 1,69 23,69
Educação Física 1,23 12,94
Gestão de Pessoas 0,95 4,44
Engenharia Civil 1,08 24,84
Nutrição 1,62 23,00
Sistemas de Informação 0,77 8,04
Educação Física (Formação de Professores) 1,08 12,94
Serviço Social 0,80 14,98
Logística 0,67 4,89
Biomedicina 1,60 25,13
Arquitetura e Urbanismo 1,71 18,11
Engenharia de Produção 0,70 4,70
Farmácia 1,38 15,47

Trazendo outro dado para a discussão, a ociosidade nas universidades vem aumentando ano após ano. Segundo o estudo Vagas não preenchidas nas faculdades no Brasil, elaborado pelo Quero Bolsa, essa taxa era de 40,7%, em 2014, e chegou a 55,7%, em 2018.

Mas temos um cenário claro: diversos cursos com alta concorrência na rede pública, alguns cursos com alta concorrência na rede privada (como Medicina) e muitos cursos com baixa concorrência no Brasil. Então, para esse último caso, qual a necessidade de realização do vestibular?

Precisamos repensar o modelo de ingresso no ensino superior

Como falei acima, o vestibular tem duas funções claras: classificatório e qualificatório. Em um cenário que sobram vagas e temos mais de uma cadeira disponível por candidato, essa estrutura classificatória deixa de fazer sentido. A prova não precisa definir a colocação de cada candidato, pois todos terão a oportunidade de preencher uma vaga.

Quanto a questão qualificatória, o próprio diploma de ensino médio é uma comprovação de que o estudante está apto a conseguir ingressar o ensino superior. Se não considerarmos o diploma de ensino médio como algo válido, um vestibular, feito de maneira digital, trazendo menor custos ao vestibulando e a instituição de ensino, pode ser uma solução para validar que o estudante tem os conhecimentos necessários para conseguir realizar o curso, podendo ser realizada em todos os momentos do ano. 

Fonte: Planalto, Quero Bolsa

*Artigo produzido por colunista com exclusividade ao Canaltech. O texto pode conter opiniões e análises que não necessariamente refletem a visão do Canaltech sobre o assunto.

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