O trabalho do futuro

Por Renato Mendes | 01 de Agosto de 2018 às 09h36

Você por acaso chegou naquele momento da conversa onde ideias mirabolantes sobre o futuro pipocam na mesa: Inteligência artificial, designer babies, genoma, Matrix e, finalmente, Black Mirror? Quase sempre deságua num futuro sombrio, recheado de guerras com máquinas e a miséria humana, certo?

Mas será que esse é o caso?  E se estivermos sendo guiados pelo medo do desconhecido, que geralmente toma conta quando entramos em contato com algo novo, ou em um processo de transição como esse? No nosso caso, estamos numa transição de eras, vivendo uma nova revolução que, para muitos, se compara à magnitude da revolução industrial.

No ótimo E se estivermos errados, Chuck Klosterman provoca uma dinâmica de pensamento simples, mas poderosa: e se tudo que acreditamos estar certo estiver errado? Mas errado no nível universal mesmo, tipo entendemos errado como a gravidade funciona? Afinal de contas, ficamos mais de um milênio acreditando que a Terra era o centro do universo. Foi essa provocação que me fez pensar de forma mais otimista, levando em consideração um fato simples, que se mantém durante eras, revoluções e evoluções: nossa capacidade de adaptação.

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Quando penso nesse futuro otimista, o que vejo é a libertação das nossas potencialidades que hoje estão presas em inúmeras rotinas manuais. Pensa comigo: digitar é arcaico. Rodar uma query é arcaico. Carregar pra cima e pra baixo um dispositivo que te conecta com o virtual e que necessariamente precisa andar com você, é arcaico. Em última análise, escrever código é arcaico. Harvey Lewis, diretor na Deloitte UK, tem uma frase que acho incrível sobre uma parte dessa revolução que estamos vivendo, quando fala sobre Internet das Coisas como catalisadora desse potencial humano: "When you realise that the IoT is about supporting human decision making, and is a measure of human behaviour, that's the 'Aha!' moment. IoT is really about human augmentation”.

Para quem viu Altered Carbon, na Netflix, a cena onde o Takeshi Kovacs conversa com Poe, a A.I do hotel, refinando uma busca por possíveis suspeitos é, para mim, o que temos de mais próximo de como essa relação vai acontecer. Se você que está lendo trabalha com produto, imagine que isso é a sua sessão diária com seu cientista de dados, minerando tabelas e mais tabelas a procura de um insight que se traduzirá numa melhoria de produto. Imagina o ganho disso!

Vejo um futuro onde essas tecnologias aumentam nossas capacidades mais importantes: explorar o novo, descobrir problemas e resolver eles. E aqui entra a nossa adaptação. Se você trabalha com algo “braçal”, que pode ser automatizado, se acostume com a ideia de que ele será automatizado. Mais cedo ou já já. O que precisamos é sair de uma lógica onde existe uma camada estratégica, uma tática e outra operacional, para uma relação mais simplificada, ágil e inteligente. Uma lógica onde o operacional e, inclusive parte do tático, estarão nas mãos das máquinas.

Isso muda a forma como pensamos praticamente tudo. Faz sentido educar nossos filhos como nós fomos educados e prepará-los para o ENEM e para uma profissão? Acredito muito num conceito mais amplo, onde temos que aprender a fazer com excelência cinco coisas que hoje não fazemos muito bem: interpretar, criticar, pesquisar, validar e expor. Se usássemos essa base para lidar com todas as fake news que recebemos, provavelmente não teríamos mais fake news. E isso não é ensinado nas escolas hoje, nem nas faculdades mais voltadas para o mercado, nem em cursos ou em grande parte das empresas.

Talvez nessa futurologia otimista, faculdades voltem a ser realmente acadêmicas e não mais celeiros de robôs humanos. Nossas capacidades aumentarão a gama de profissões que poderemos exercer. Seremos exploradores de problemas, criadores de soluções e arquitetos de processos. Essa camada de entrega estratégica poderá ser encaixada em diversas áreas, algo como os engenheiros de hoje em dia.

Como disse Will I Am no WEF, esse futuro pode ser bonito e aflorar o que há de melhor da nossa humanidade. Se alinharmos isso à busca incessante pela empatia, parte central na maioria das filosofias orientais, só vejo dar bom.

Isso já está acontecendo. A Accenture testou em 2017 um programa mundial de automação de postos de trabalho sem a necessidade de demissão e conseguiu automatizar nada mais nada menos que 18 mil postos sem demitir uma única pessoa. A AT&T, com seu programa de re-skilling pensando em preparar seus funcionários para essas profissões do futuro, também é um ótimo exemplo de que trabalhos não necessariamente serão roubados, mas sim adaptados.

Convido você a fazer esse exercício. Se esse futuro chegar, o que você seria se tudo no seu trabalho for automatizado? No seu cotidiano, quantas vezes você pratica interpretar, criticar, pesquisar, validar e expor? Você encontra problemas ou soluciona problemas? Ou os dois?

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