Como as escolas estão usando tecnologia para enfrentar o Coronavírus

Por Lucas Rocha | 17 de Março de 2020 às 21h45

Com diversos estados e cidades se preparando para antecipar as férias e fechar escolas, o Brasil entra na lista dos 100 países que incluíram seus sistemas de ensino nas políticas de isolamento social, uma medida importante para desacelerar a taxa de crescimento do coronavírus. No mundo inteiro, no último 17 de março, mais de 776 milhões de alunos já estavam sem acesso à sala de aula - isso representa mais de duas vezes a população inteira do Brasil.

Para minimizar o impacto dessas medidas, França e China, por exemplo, estão orientando alunos e professores a continuarem interagindo por meio de plataformas virtuais de ensino à distância. O Japão está indicando plataformas online de vídeos e exercícios para suas escolas e o Irã mudou totalmente a programação das televisões estatais para apresentarem aulas alinhados ao currículo em escala nacional. Na Itália, professores estão organizando grupos de Facebook e WhatsApp com seus alunos para continuarem em contato.

No Brasil, a cada minuto, são anunciadas páginas de plataformas educacionais com guias para professores e alunos se prepararem para esse momento. No meio de tanta informação, pode ser difícil saber por onde começar e o que realmente considerar. Além disso, sabemos que as consequências do fechamento das escolas vão muito além dos dias letivos e lições perdidas.

A escola, em seu papel social, também é responsável por cuidar das crianças enquanto os pais trabalham e, em muitos casos, a merenda é a principal refeição diária para crianças de classes sociais mais vulneráveis. Se impedidas de ir a escola sem nenhuma chance das famílias se planejarem, há grandes possibilidades de crianças terem que ficar com avós ou parentes mais velhos, que são justamente o grupo de maior risco em caso de infecção. São questões complexas e que dependem de políticas públicas para serem mitigadas.

No que tange ao ensino, no entanto, as escolas têm a tecnologia e a inovação a seu favor para enfrentar o Coronavírus. Por tudo que tenho visto até aqui, preparei uma sequência de três passos para auxiliar educadores nesse momento - ela está longe de ser perfeita, e obviamente não se equipara a uma experiência de sala de aula, mas pode ajudar gestores e professores a criarem seus próprios planos de contingência.

Passo 1 - Combine e teste um canal de comunicação entre escolas, alunos e famílias

Nesse momento é essencial manter a interação humana, não apenas para o conteúdo escolar, mas também para criar uma rede de apoio psicossocial. Criar grupos de WhatsApp ou Facebook pode ser uma solução simples e eficiente. Plataformas que permitem chamadas em vídeo, como o Hangouts do Google, podem ser usadas para diminuir o distanciamento desse tipo de comunicação.

Passo 2 - Escolha uma plataforma online para organizar lições e atividades

Educadores talvez queiram pensar em algumas atividades mais simples, que possam ser feitas à distância e no tempo de cada aluno. Para organizar essas atividades, manter registro de quem já as completou e quem ainda precisa de ajuda, será muito útil contar com algum tipo de ferramenta online de gestão da aprendizagem. O Google Classroom é uma opção bastante simples e gratuita, assim como Edmodo, ClassDojo e Moodle.

Passo 3 - Selecione conteúdos online alinhados com sua disciplina e ano escolar

São muitas as opções de conteúdos de qualidade online e gratuitos, para todas as disciplinas e idades. O YouTube Edu oferece uma curadoria de vídeos dos melhores canais de educação do Brasil. A Khan Academy é a maior plataforma educacional do mundo e já alinhou todo seu conteúdo ao currículo brasileiro, além disso, está disponibilizando um conjunto de orientações para professores e pais para auxiliar nessa crise do Coronavírus. Plataformas como Escola Digital e MEC RED são grandes repositórios de recursos educacionais digitais. Até mesmo o Telecurso está de volta, em sua versão online.

Ensinar totalmente à distância pode ser muito diferente e desafiador para a maioria dos educadores. É preciso considerar que provavelmente os alunos não estarão todos online ao mesmo tempo, terão dificuldades com o computador e a conexão à internet, poderão estar distraídos e é muito mais difícil saber quando estão com alguma dificuldade. Envolver a família será essencial, esse é um momento que exige a união de toda a sociedade.

É importante ponderar, contudo, que 2 em cada 3 residências no Brasil, segundo dados do CETIC.br, não possuem plano de internet suficiente para sustentar uma videoconferência. Se considerarmos o acesso pelo celular, a situação é um pouco melhor, com 7 em 10 pessoas com acesso ao 3G ou 4G.

O problema aqui é a franquia de dados, que uma vez consumida bloqueia o acesso à internet. As operadoras de telefonia móvel já encontraram uma solução para isso, uma vez que elas continuam oferecendo acesso ao Facebook e WhatsApp mesmo após a utilização dos dados. Uma solução viável seria, numa situação como essa, que elas também expandissem a política de zero-rating para aplicativos e sites educacionais. Caso contrário, mesmo com todo o esforço de nossos professores e escolas, muitos alunos continuarão sem acesso à educação.

Por fim, é preciso lembrar que essa é uma solução temporária, que logo iremos superar esse vírus e que talvez, apesar das cicatrizes que ele possa deixar em muitas famílias, ficaremos com o aprendizado de como integrar um pouco mais da tecnologia na prática pedagógica. Esses aprendizados poderão ser úteis não apenas em momentos de pandemias ou desastres naturais, mas também como estratégia para enriquecer a experiência de nossos alunos e professores na sala de aula.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.