Por que as mulheres ainda são minoria na TI?

Por Redação | 08 de Março de 2015 às 00h05

Por Rafael Romer e Douglas Ciriaco

Desde já, vamos combinar: o Dia Internacional da Mulher não significa dar uma flor para sua mãe, namorada, amiga ou colega de trabalho, e deixar por isso mesmo. Ano após ano, a data representa a conscientização da necessidade de avanço na igualdade de gêneros e da luta contra o machismo que ainda permeia diversos setores da sociedade e mercado. A TI, é claro, não é exceção.

Hoje, a participação das mulheres no mercado de tecnologia da informação varia bastante conforme diferentes regiões do mundo, mas costuma ficar entre 10% e 30%. No Brasil, o dado oficial mais recente é do Censo de 2010, quando o IBGE apurou que 520 mil pessoas atuavam no setor de TI, sendo que as mulheres representavam um quarto do total.

Muitas vezes, a participação menor das mulheres no setor é atribuída simplesmente ao estereótipo de que a TI seria um setor no qual os homens se interessam mais, por isso seria natural que menos mulheres participassem desse universo. Mas a realidade não se resume a isso.

Quando a tecnologia da informação dava seus primeiros passos no século XX, os índices de participação feminina no setor eram superiores aos atuais. Com os anos, no entanto, esses números foram caindo conforme a competitividade do mercado foi se acirrando e pessoas passaram a associar a TI como uma área de isolamento - o que afastou algumas mulheres que preferiam atividades profissionais com mais contato social.

Essa queda na participação feminina foi o que motivou a engenheira de software e programadora Camila Achutti a criar um dos mais reconhecidos blogs brasileiros para promoção da participação de mulheres no setor de TI do país, o Mulheres Na Computação. Ao ver a foto da primeira turma de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), tirada em 1971, Camila conta que se surpreendeu com a quantidade de mulheres presentes ao compará-la com sua própria turma, de 2013 - na qual era a única mulher.

Ciência da Computação USP

A foto da primeira turma do Bacharelado em Ciência da Computação, da Universidade de São Paulo, de 1971 (foto: Reprodução)

"A participação já foi muito alta aqui no Brasil e a nível mundial porque a tecnologia estava muito ligada a processamento de dados, organização de arquivos, coisas que estavam ligadas a o que a mulher fazia, como ao secretariado, por exemplo. Hoje a gente vê uma porcentagem muito menor porque se criou um estereótipo na área", explica a desenvolvedora.

Segundo Camila, esse estereótipo de que TI seria uma área para homens acabou agravando o problema, criando um ambiente que logo começou a se tornar hostil para as mulheres. Através do Mulheres Na Computação, a blogueira conta já ter recebido diversos relatos de estudantes que falam sobre as experiências negativas, como assédio de professores ou até a inexistência de um banheiro feminino na faculdade. Segundo ela, hoje o índice de desistência entre garotas no primeiro ano de cursos de tecnologia chega a 79%.

“Em alguns casos, colegas homens me viam não como uma profissional como eles, mas como alguém a ser paquerada”, relata Leslie Quintanilla, coordenadora de infraestrutura de uma loja de artigos infantis. Ela conta que já se sentiu obrigada a mudar o modo de se vestir no trabalho para tentar evitar comentários de colegas.

Trabalhando no setor de internet desde 1999, Leslie conta que os problemas também se estendiam ao aspecto profissional, acrescentando que sentia muitas vezes que também sofria preconceito na hora de emitir opinião. “Se você tem uma posição mais incisiva, alguns colegas falam 'ah, ela tá de TPM'. Mas será que um homem já ouviu alguma reação assim?”, questiona.

Já Maria Regina Botter, que hoje atua como Country Manager da WebMotors, conta que também enfrentou a "desconfiança" em suas capacidades, mas afirma que sua adaptação para o mundo da tecnologia não foi tão espinhosa por conta da longa experiência que tinha dentro da empresa e também por ter atuado no setor financeiro da companhia, outra área ocupada majoritariamente por homens.

“A experiência ajudou para eu me familiarizar com o novo desafio [no ramo da tecnologia]”, conta a executiva. “Então, eu me focava nas minhas capacidades e não me importava muito com esses 'sinais'”, comenta Botter, fazendo referência ao preconceito que a mulher ainda encontra em setores como a economia e a tecnologia.

Promovendo diversidade e inovação

Apesar dos problemas que ainda enfrentam diariamente no setor, mais e mais profissionais do ramo têm falado abertamente nos últimos anos contra estas situações, o que tem promovido maior conscientização entre as próprias mulheres e também levado mais empresas e governos a promoverem iniciativas de combate ao machismo e redução da desigualdade de gênero no setor.

Nesta última sexta-feira (5), por exemplo, o parlamento alemão aprovou uma lei que obriga grandes empresas a manterem um mínimo de 30% de mulheres em seus conselhos administrativos a partir de 2016. De maneira semelhante, algumas empresas têm tomado atitudes nessa direção. Recentemente, o CEO da Salesforce, Marc Benioff, anunciou que a empresa tem a meta de incluir ao menos 30% de mulheres nas reuniões de cúpula da companhia.

Mesmo ainda sendo uma porcentagem baixa - apenas 18%, de acordo com um levantamento do projeto No Ceilings -, a presença das mulheres em cargos de liderança em empresas globais também colabora com esse avanço, e grandes líderes já são reconhecidas em áreas como a da tecnologia, como as atuais CEOs da IBM, Ginni Rometty, e da Yahoo, Marissa Mayer. Por aqui, uma pesquisa revelada no final do ano passado pelo Sebrae mostrou que 52% dos novos empreendedores brasileiros, com menos de três anos e meio de atividade, são mulheres.

Para Achutti, o primeiro passo é "escancarar" esse problema para que o mercado continue a mudar. "A primeira coisa é escancarar isso, não deixar passar qualquer piada", opina. "Eu acho que tudo passa por uma mudança de pensamento, de mindset, e em um primeiro momento isso é escancarar e reconhecer quais são as fraquezas".

Na avaliação da blogueira, também é importante que empresas passem a implementar iniciativas que aumentem a segurança das mulheres no ambiente corporativo, como estruturas que permitam às funcionárias denunciar assédios moral e físico sem terem medo de serem prejudicadas profissionalmente. É importante ainda a construção de um ambiente em que essas profissionais não se sintam sozinhas na hora de enfrentar esses desafios, o que favorece que mais mulheres se sintam confortáveis e mais motivadas nesse mercado.

“Nós, mulheres, precisamos nos sentir apoiadas porque não somos diferentes dos homens, nosso intelecto não é menor”, comenta Leslie Quintanilla. “E quando você cria regras para tornar algo mais justo, está trabalhando para as próximas gerações, que não vão se lembrar de que aquilo já foi regra um dia e vão acreditar que sempre foi assim”.

A necessidade de criar um ambiente que atraia mais mulheres também é essencial para o avanço das próprias empresas, na avaliação das profissionais do setor. Em uma indústria na qual inovação é a palavra de ordem, a maior diversidade que a presença de mais mulheres no ramo cria também passa a ser uma razão para empresas incluírem um equilibrio maior nos seus quadros.

"Eu acredito muito na combinação dos potenciais, é evidente que existem algumas diferenças de perfil no comportamento masculino e feminino e eu acredito que essas questões se complementam", avalia a Gerente de Estrutura de Soluções de TI da Maganize Luiza, Talita Paschoini, que apesar de liderar atualmente uma equipe formada apenas por homens, acredita que a promoção de projetos com diferentes áreas e equipes da empresa geram resultados mais positivos. "As mulheres são bastante abertas à transformação, até por terem um histórico de transformação em seus papéis profissionais".

A maior diversidade também é essencial para que a indústria possa atender melhor as consumidoras, com produtos e serviços que só poderiam ser pensados por mulheres e para mulheres. "Como é que você vai atender as mulheres do mundo com produtos de tecnologia se você não tem mulheres fazendo e ajudando nesses processos?", questiona Camila.

Com todos os avanços, as expectativas são otimistas. Para a blogueira, já passou o momento que as pessoas duvidavam que mulheres realmente enfrentavam esses desafios no cotidiano da TI e o momento agora é de tomar atitudes e promover as mudanças que faltam, adicionando que não vai esperar sentada pela mudanças "naturais" que já estão ocorrendo. "Eu não vou mais perder tempo discutindo se isso rola mesmo", afirma. "Rola, a gente já decidiu que rola. Agora vamos começar a trabalhar nisso?", conclui.

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