Como as lojas brasileiras conseguiram transformar a Black Friday em Black Fraude

Por Redação | 27.11.2015 às 13:27 - atualizado em 27.11.2015 às 14:07
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Embora todo mundo esteja empolgado com a Black Friday, a verdade é que estamos falando de uma data que nós importamos dos Estados Unidos quase que no impulso e ainda não sabemos muito bem como lidar com ela. De um lado, os consumidores sonham com preços tão reduzidos quanto os que ocorrem por lá, e, do outro, as lojas que querem se aproveitar desse entusiasmo para vender mais, mas sem mexer tanto assim nos valores. É o bom e velho jeitinho brasileiro de sempre.

Não é à toa que o bordão "tudo pela metade do dobro" virou o maior resumo desse embate e a data passou a ser apelidada de "Black Fraude" por aqui. É claro que não podemos generalizar e dizer que está tudo ruim, até porque o cenário geral está bem mais positivo do que nos anos anteriores, mas ainda é bem comum você encontrar algumas ciladas disfarçadas de oferta. Nem tudo com etiqueta de "50%" é desconto e nem toda Black Friday é vantagem.

Por isso, enquanto está todo mundo procurando os melhores preços para comprar, nós fomos no sentido inverso em busca das priores promoções. Com a ajuda da extensão Baixou Agora, que traz um histórico dos preços de cada item ao longo dos últimos dias, encontramos algumas armadilhas que mostram que as lojas ainda insistem nesse comportamento nocivo, mesmo quando o consumidor já está mais do que preparado para identificar esses truques.

O falso desconto de Metal Gear Solid

Quem entrou nas Casas Bahia foi recepcionado com uma oferta do jogo Metal Gear Solid Legacy Collection. Em um país em que todo mundo está mais do que acostumado a ver qualquer game chegar às lojas por mais de R$ 200, encontrar a coletânea com sete títulos de uma das maiores e mais elogiadas franquias do mercado por R$ 39 é um achado e tanto, ainda mais se o preço original dele fosse R$ 100.

Black Fraude

Só que o pacote da Konami já deixou a casa das centenas de reais há muito tempo. Na verdade, os jogadores já encontraram esse mesmo produto variando entre R$ 40 e R$ 60 dependendo da loja escolhida. Tanto que o próprio Baixou Agora mostra que essa flutuação sempre esteve dentro dessa faixa e só subiu para R$ 100 ainda nesta sexta-feira (27). Então, para simular o desconto, o jogo caiu para R$ 39 e ganhou o selo Black Friday para enganar o pessoal.

O Xperia Z3 mais caro do que fora da promoção

O Ponto Frio foi uma das primeiras empresas a abraçar o espírito da internet, trazendo um perfil engraçadinho no Twitter e se comunicando de maneira mais livre com seus consumidores. No entanto, velhas práticas nunca mudam e a empresa também tentou aplicar o velho golpe do produto da Black Friday estar mais caro do que em dias normais.

Black Fraude

O Sony Xperia Z3 Compact está sendo vendido nesta sexta-feira por R$ 1.699, mas ele poderia ter sido adquirido por R$ 1.249 poucas semanas antes da data. Assim, quem estava esperando a data dos prometidos descontos para trocar de celular, certamente deve ter espumado de ódio ao ver o Pinguim tentando bancar o espertinho.

A mesma gambiarra no Submarino

E, pelo visto, o smartphone da Sony parece ter sido o escolhido para passar a perna no consumidor. Além do Ponto Frio, o Submarino também usou o aparelho para brincar com os preços e criar um falso desconto. Desta vez, o preço final está realmente mais barato, mas não antes ter variado mais do que a cotação do dólar.

Black Fraude

Repare na imagem do Baixou Agora para perceber a montanha-russa que a loja fez com os valores em pouco mais de um mês. O preço médio do smartphone sempre esteve em torno dos R$ 1.299, mas ele recebia constantes aumentos, chegando a picos de R$ 2.199. Esse valor, inclusive, era o que estava aparecendo um dia antes da Black Friday, Assim, quem estava pesquisando para a sexta-feira, deve ter se animado ao vê-lo por R$ 1.069.

Sim, ainda estamos falando de um desconto, mas não do mesmo que o Submarino tenta nos fazer acreditar. Enquanto a empresa tenta nos dizer que estamos diante de uma oferta de mais de 50%, a verdade é se trata de apenas 17%. Melhor do que nada, é claro.

O sobe-e-desce de TVs no Extra

Assim como o Submarino, o Extra também trouxe desconto em alguns de seus produtos, mas não sem antes encarecê-los para fazer com que a oferta parecesse imperdível. Uma Smart TV 3D LED de 40 polegadas da Samsung passou o mês de novembro inteiro custando R$ 1.699 — considerado o valor médio para esse tipo de produto. No entanto, uma semana antes da Black Friday, a loja decidiu que era hora de deixar a televisão um pouco mais cara.

Black Fraude

Assim, desde o último dia 16, o mesmo produto passou a custar R$ 2.799, ou seja, 64% mais caro. Então, foi apenas esperar chegar a sexta-feira negra para cortar a etiqueta para R$ 1.499. Mais uma vez, barato, mas bem longe do quanto é prometido.

A pedaleira da inflação da Americanas

Muitos guitarristas de plantão quiseram aproveitar a Black Friday para conseguir alguns produtos com descontos para tornar tudo mais acessível. Como os equipamentos são sempre muito caros, qualquer corte no preço é uma conquista e tanto. O que eles não esperavam, contudo, é que a Americanas fosse inflacionar alguns desses itens de maneira absurda apenas para criar uma falsa oferta.

Black Fraude

Nesta sexta-feira, a Pedaleira Line 6 está disponível por R$ 3.259. Segundo a loja, o preço original é de R$ 7.499 e o desconto de 56% seria o sonho de todo músico que quer adquirir um acessório novo para seus instrumentos. O único problema é que esse valor não só é um desconto forjado, como ele também já chegou a custar muito mais de R$ 7,5 mil.

Segundo o Baixou Agora, a Line 6 sempre esteve à venda custando algo próximo de 3,3 mil. Exceto no último dia 17 de outubro, quando ela passou a ser vendida por R$ 32.990. Pouco tempo depois, a pedaleira voltou ao seu preço de sempre e assim permaneceu até a Black Friday.

Outros golpes

Esses são apenas alguns exemplos rápidos de como as lojas se aproveitam do entusiasmo do consumidor com a Black Friday para forjar ofertas, mas estão longe de serem os únícos. Na verdade, basta uma rápida olhada nas redes sociais para se deparar com várias reclamações e denúncias de clientes insatisfeitos. Para quem gosta de passar raiva, a hashtag #BlackFraude é um prato cheio.

Uma das técnicas mais comuns relatadas por esses usuários e que não conseguimos reproduzir em nossos testes foi o truque do frete. Em alguns casos, as lojas ofereciam um desconto enorme, mas compensavam esse valor no frete. Pessoas que estavam acostumadas a pagar entre R$ 10 e R$ 20 para receber o pacote em casa se viram surpreendidas com o valor indo para mais de R$ 100.

Assim, antes de se empolgar com qualquer promoção ou data festiva, o ideal é sempre pesquisar. Sites como o Zoom e a extensão Baixou Agora do Chrome já servem como um ótimo parâmetro para que você descubra se aquele produto está mesmo com um preço reduzido ou se é apenas mais alguém querendo lhe passar a perna.

Outra alternativa é o Black Fraude, serviço online que lista os preços mínimo, médio e máximo de determinado item ao longo dos últimos 15 dias. Assim, você tem uma ferramenta a mais para se livrar de ciladas. Além disso, a página conta ainda com um formulário para denúncias caso você encontre algo irregular.

O tempo do consumidor ingênuo já passou faz tempo e já estamos mais do que aptos a nos proteger desses golpes.