Experiência brasileira com Cidades Inteligentes é discutida na Campus Party

Por Rafael Romer | 30 de Janeiro de 2013 às 12h19

Tema de discussão em uma mesa homônima nesta terça-feira durante a Campus Party, as cidades inteligentes já são uma realidade no Brasil e podem se expandir mais rapidamente a partir de 2014. São chamadas de cidades inteligentes os locais que integram novas tecnologias no dia-a-dia de seus cidadãos, gerando novos serviços, novos negócios e reduções de custos em sua manutenção. Laboratório da nova realidade desde 2011, através de uma parceria entre a Agência Nacional de Energia Elétrica e a Ampla, o município de Búzios, no Rio de Janeiro, passa por uma atualização de sua rede elétrica e de outros serviços, como uso de carros elétricos e painéis solares para geração de energia, para servir como modelo de uma cidade inteligente brasileira.

Escolhida por sua baixa população, de pouco mais de 25 mil habitantes, a cidade continuará sendo palco de mudanças até 2014, quando o projeto chegará ao seu fim com a chegada da chamada rede inteligente de energia elétrica para 10 mil pessoas na região, como explicou Orestes Castañeda, um dos engenheiros responsáveis pela experiência na cidade.

Também conhecida como smartgrid, a rede inteligente de energia elétrica é considerada um dos principais pilares para a construção de cidades inteligentes no país, e está cada vez mais próxima da realidade. “O smartgrid nada mais é do que uma junção das infra-estruturas de energia e comunicação, para você transmitir informação e energia nas duas vias”, explica Luciano Alakija, responsável pelas chamadas soluções machine to machine (M2M) da Telefônica.

No ano passado, foi regulamentado pelo governo federal o uso dos chamados medidores inteligentes de energia elétrica, que devem começar a desembarcar nas residências de consumidores a partir de fevereiro e março de 2014. A partir de então, consumidores que desejarem obter o medidor poderão pedir gratuitamente para a concessionária de energia, que deverá fornecê-lo. Com o medidor, o consumidor poderá usar a chamada tarifa variável ao longo do dia, que reduzirá o preço da energia elétrica em horários de menor demanda.

O sistema é a base do smartgrid e permitirá transformar a grade elétrica brasileira em uma rede descentralizada, na qual residências poderão se tornar pólos geradores de energia, que poderão colocar energia elétrica dentro da rede através de placas solares ou microgeração eólica, por exemplo. Com a descentralização, o custo e consumo médio de energia em uma cidade inteligente deve cair progressivamente e, por tabela, ser mais sustentável.

O sistema traz ainda mais uma vantagem tributária para o governo brasileiro, reduzindo a perda anual de quase US$ 4 bilhões (cerca de R$ 7,9 bilhões) com as chamadas perdas não-técnicas de energia – o vulgo roubo ou “gato”.

O sistema deve, entretanto, demandar um investimento pesado por parte de empresas privadas do setor antes de se tornar realidade no país inteiro “Hoje, as empresas de energia estão muito pressionadas, tiveram recentemente uma redução de tarifas, ou seja, das receitas. Acredito que é um desafio para elas, por outro lado, é também uma oportunidade, porque a partir do desafio, você procura idéias inovadoras” afirmou Luciano. Segundo ele, para o ideal avançar, entretanto, é preciso que a população também se engaje e comece a tomar atitudes inteligentes em suas cidades, pelas quais passam a sustentabilidade e o consumo consciente de recursos. Para completar as esferas de influência, Luciano destaca a importância do poder público na evolução das cidades. “Eles criam as condições regulatórias. E o governo está atuando nessa linha, o Brasil está evoluindo em termos de regulação".

Já para Fábio Gandour, cientista-chefe da IBM-Brasil, a cidade inteligente também passa por uma dimensão filosófica. “Um conceito é valido se seu extremo oposto também é válido”, disse. Para Gandour, não existem coisas como um “carro burro” ou uma “cadeira burra”, apenas “seres humanos burros” que não mudaram a forma como veem suas cidades. Apesar disso, o cientista também coloca uma dimensão tecnológica na sua fórmula, apontando para a possibilidade de termos tanto cidades melhores quanto mais conectadas. “[A cidade] tem que ter objetos que reagem corretamente e mais rápido que os seres humanos. Precisamos de sensores atuantes, sensores de temperatura, de pressão, de imagem, de som e de movimento”, disse.

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