Campus Party 2015: 'Sempre me achei um anormal', diz ator do Mundo de Beakman

Por Caio Carvalho | 05.02.2015 às 20:46 - atualizado em 06.02.2015 às 15:29
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"Vocês estão prontos para festejar?". Foi assim que começou a palestra de Paul Zaloom, o Beakman do seriado infantil dos anos 1990 "O Mundo de Beakman", durante sua passagem pela Campus Party Brasil 2015 nesta quinta-feira (5). Em uma espécie de releitura de seu antigo programa, o ator usou da animação e bom humor para explicar a centenas de campuseiros alguns processos científicos que, embora pareçam complicados, ficam bem simples de entender com as maluquices do personagem.

Lembrando uma edição de seu programa e com a ajuda de alguns voluntários da plateia, Zaloom – ou melhor, o próprio Beakman, vestido de jaleco verde e tudo –, fez um quiz com perguntas de "verdadeiro ou falso" para desafiar os usuários, que também foram caracterizados com perucas que lembram o estilo anormal do cientista. Brincalhão com o público, ele fez piada até com a crise hídrica enfrentada pelos moradores de São Paulo. "Aqui tem um pouco de água que peguei de um certo rio da cidade", disse. A capital paulista é cortada pelos rios Tietê e Pinheiros, mas já não é novidade que a poluição nesses rios é tanta que torna impossível o consumo de água potável.

Tudo isso fez parte de uma das demonstrações de Beakman para mostrar, por exemplo, o princípio da pressão atmosférica, responsável, entre outras coisas, por manter os aviões no ar. Para tal, o cientista colocou uma carta na boca de um copo e o virou de ponta cabeça. Em outro exemplo, colocou duas campuseiras para competir entre si e ver qual das duas assoprava ar mais rápido dentro de uma sacola plástica. Um dos últimos experimentos mostrou um aspirador de pó desenrolando um rolo de papel higiênico para demonstrar os efeitos da pressão atmosférica sobre os corpos.

Beakman também brincou com o nosso português ao dizer a palavra "bunda" em vários momentos do show. "Como eu digo 'bunda' (no inglês, butt) em português?", e aí não parou mais. Ficou de costas para a plateia e agradeceu. "Essa é a primeira vez que minha bunda é aplaudida".

O programa

Nos minutos finais de sua palestra na Campus Party, saiu de cena o Beakman e entrou Paul Zaloom. De boné e calça jeans, o ator deu detalhes sobre os bastidores do programa que lhe projetou ao mundo, incluindo reuniões da equipe de produção (que contava com mais de 40 pessoas), imagens de making-of, erros de gravação, escolha do elenco, entre outros pontos.

Beakman

Paul Zaloom misturou humor e ciência em sua apresentação na Campus Party. (Foto: Reprodução)

Falando no programa, o seriado só foi possível porque o Congresso dos EUA aprovou no início dos anos 1990 uma lei que obrigava emissoras da TV americana a transmitir conteúdos infantis educativos em suas grades de programação. Quem não cumprisse a regra poderia ter o sinal cortado e as operações encerradas no país.

A partir daí veio a ideia de testar um novo modelo de programa que ia contra as reprises de desenhos animados defendidos pelas emissoras, como Os Flinstones e Os Jetsons. Foi então que Zaloom usou seu talento como marionetista para improvisar os quadros da série e garantir a transmissão de um conteúdo difícil, mas em uma linguagem muito mais simples e divertida. "Lembro que na audição para o papel [do Beakman] acabei me confundindo e tive que usar do improviso. Então me contrataram", comentou.

"O show teve uma produção muito boa. Até as animações eram boas, mesmo que feitas em PCs ultrapassados. Os desenhos exibidos no show foram baseados nos primeiros cartoons para o primeiro Macintosh", disse à imprensa. "Sempre me perguntei o que motivou as pessoas a assistirem o programa. E muitas delas me disseram que é por causa da ciência, pelo fato de eu tornar a ciência acessível. Não acho que seja apenas isso, mas também acredito que a sensibilidade passada pelo programa, a maneira como o conteúdo é transmitido, ajudaram bastante".

Zaloom também lembrou de sua amizade com Mark Ritts, que interpretava o atrapalhado rato Lester, assistente de Beakman. Falecido em 2009 vítima de um câncer no rim, Ritts também trabalhava com marionetes, o que facilitou o entrosamento dos atores. "Ele era um ser humano maravilhoso e sinto muita falta dele. Ele tinha tanta habilidade de elevar o nível do show que eu não conseguia acompanhá-lo sozinho", disse.

Anormal

Beakman

Ator de "O Mundo de Beakman" mostrou simpatia em conversa com jornalistas (Foto: Caio Carvalho/Canaltech)

Logo após sua apresentação, Zaloom continou exibindo bom humor em um bate-papo com jornalistas. Perguntado se ele se considera um nerd, como muitos campuseiros presentes no evento, o ator, novamente vestido de Beakman, respondeu em tom de brincadeira. "Eu nunca me imaginei como um nerd. Sempre me achei um anormal", comentou.

Zaloom também revelou como lida com a influência do seriado até os dias atuais. "Sei que pode soar meio arrogante, mas me sinto realizado quando alguém diz que se tornou um cientista, biólogo, químico, astrofísico após assistir ao Mundo de Beakman. E eu penso o quão impactante foi esse programa. Tenho a opinião de que a ciência é uma forma de enxergar o mundo. É como 'olhar dentro da caixa'. É por isso que os cientistas são verdadeiros artistas".

Esta não é a primeira vez de Zaloom no Brasil. E como de costume, o ator mais uma vez declarou sua paixão pelo país. "Eu amo o Brasil. É sempre bom estar aqui. Espero que eventos como este [a Campus Party] ajudem os visitantes a criar soluções para salvar o planeta. É algo com que eu me importo", afirmou.

Para finalizar sua passagem pela Campus Party, o intérprete de Beakman se despediu em uma mais uma aula de ciências ao testar algo que a princípio parece impossível: atravessar um espeto por um balão. O experimento é bem simples se for feito corretamente – basta espetar a bexiga pela parte inferior, a mais esticada do objeto, e atravessá-la até a parte superior –, mas pelo jeito quem esteve na coletiva não teve muita prática em concluir a tarefa. Assista: