Neurociência, inteligência artificial e os dados que não estão no Big Data

Por Leandro Mattos | 23 de Setembro de 2020 às 10h00

Foi em 1955, em uma proposta de projeto de pesquisa chamado Dartmouth Conference, que o nome "inteligência artificial" foi citado pela primeira vez. Em princípio, a ideia era reproduzir em ambiente digital o funcionamento cerebral e que essa inteligência artificial pudesse entender as nuances da cognição e, assim, servir a humanidade de acordo com suas necessidades, fossem elas de qualquer natureza — empresariais, sociais, voltadas para saúde, construção civil, jogos, etc.

Décadas se passaram e o conceito vem evoluindo, mas a materialização da ideia original ainda não foi possível em sua totalidade e muitos desafios ainda são tão atuais. Além do desafio da réplica da capacidade abstrata da cognição humana, no entendimento fluente por parte das máquinas sobre a complexidade presente na comunicação verbal sintática e semântica, outra dificuldade é a possibilidade das plataformas digitais de interação terem a capacidade de considerarem reações emocionais humanas como inputs em seus processamentos. E, assim oferecerem melhores formas de nos atenderem, mas com base não só no que externamos de forma consciente, mas também inconscientemente.

Atualmente, as plataformas digitais de interação, dotadas de inteligência artificial, oferecem diversos benefícios para seus usuários. Um dos mais utilizados são os chamados sistemas de recomendação. Com base na análise de escolhas passadas, esses sistemas dotados de métodos preditivos, fazem sugestões para futuras escolhas. É o que acontece quando o usuário recebe sugestões para assistir filmes na plataforma da Netflix, por exemplo. Esses sistemas de recomendação, apesar de revolucionários no que tange a utilidade e usabilidade, talvez pudessem oferecer mais do que simplesmente as escolhas conscientes. Talvez pudessem também considerar as reações emocionais, inconscientes e momentâneas, oferecendo, assim, sugestões mais aderentes e úteis.

É sabido que a neurociência já possui a capacidade e tecnologia para a captação de reações emocionais, provindas do inconsciente e transformá-las em dados para o entendimento do comportamento, com base em alterações cognitivas e fisiológicas. Dessa forma, seria possível utilizar a tecnologia neurocientífica para conferir capacidade de captação de dados de reações emocionais humanas para alimentar, os sistemas de recomendação dotados de inteligência artificial. As reações emocionais poderiam gerar, entre outras aplicações, desde o preenchimento de questionários, até melhores interações com chatbots, aperfeiçoar algoritmos de recomendação, ampliar capacidade da computação visual, inclusive no aprendizado de máquina, que também ocorre por métodos estatísticos.

Atualmente, com base nas evoluções no campo neurocientífico, diversas iniciativas ao nível global vêm chamando a atenção, não só da comunidade científica, mas também de toda a parcela da população. Projetos como o Brain Initiative, Walk Again e o lançamento do chip da Neuralink, são alguns exemplos. Todas essas aplicações estão provando a sua eficácia e utilidade, impondo disrupções em seus mercados e campos de atuação, mas o que mais podemos esperar da união da neurociência com a inteligência artificial?

Ray Kurzweil, cofundador da Singularity University, em seu livro A Medicina da Imortalidade, cita que "estamos nos primeiros estágios de diversas revoluções profundas, geradas pela interseção da Biologia com a Ciência da Informação”. Essa união gerou frutos como a inteligência artificial, que por consequência a necessidade de grandes quantidades de dados para sua alimentação, surgiu o big data.

Mais recentemente, por conta do machine learning, a Internet das Coisas e sua infinidade de sensores, intensificaram-se as possibilidades de geração de dados e consequentemente, a necessidade do armazenamento e gestão. Mas, existe um tipo de dado que ainda não está presente no big data: os dados de reações emocionais de usuários e consumidores enquanto interagem com o mundo físico e digital, seja em contextos de consumo ou não.

É fato que o ser humano é refém da tecnologia de seu tempo e, na atualidade, sabe-se que ainda não é possível medir emoções, mas, sim, valência e ativação emocional. Tendo como base que ela está relacionada com as alterações fisiológicas, para que estas possam ser mensuradas, é necessário que instrumentos de investigação científica captem, via sensores, essas reações fisiológicas, e detectem as oscilações entre níveis basais e picos. Caso ela ocorra no sistema nervoso periférico autônomo simpático e parassimpático, os equipamentos podem investigar métricas como a alternância da atividade cardíaca, dilatação e contração pupilar. Essa metodologia é conhecida como tecnologia empática, que é a capacidade de um engenho tecnológico perceber reações humanas e reagir em apoio ao mesmo, inclusive podendo dimensionar uma experiência em função do estado emocional do usuário.

A utilização de metodologias neurocientíficas e das tecnologias empáticas às plataformas digitais e físicas de interação humana podem gerar informações pertinentes às reações emocionais, aprimorando algoritmos de recomendação inteligente. Partindo desse princípio, smartphones poderão se tornar coletores portáteis de dados, utilizando tecnologia já embarcadas, como câmeras e sensores digitais; ou seja, as plataformas digitais de interação não ficariam mais dependentes exclusivamente de dados inputados conscientemente e mecanicamente por usuários.

Esse engenho de processamento empático inteligente poderá ser utilizado de maneira que exceda as plataformas de interação atuais e se materialize em totens de atendimento que poderão ser distribuídos em shoppings, feiras, e eventos variados, e poderão realizar atendimentos em qualquer parte do planeta, inclusive de forma sazonal/pontual. É fato que todo esse empenho deverá vir pautado na bioética, enquadramento nas leis de proteção de dados e consentimento do usuário sobre a captação de dados sensíveis via sensores.

Esse artigo não tem a pretensão de esgotar o assunto, nem tampouco apresentar todas as possibilidades, mas, sim sugerir que outros estudos evoluam o conceito e o elevem em níveis até então inimagináveis, em prol da solução de dificuldades relevantes de nossa sociedade.

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