Citizen | App oferece dinheiro para quem transmitir tragédias ao vivo

Citizen | App oferece dinheiro para quem transmitir tragédias ao vivo

Por Igor Almenara | Editado por Douglas Ciriaco | 28 de Julho de 2021 às 10h51
Timothy Barlin/Unsplash

Acidentes e crimes acontecem todos os dias, mas imagine se um app recompensasse usuários por transmitirem tudo ao vivo na internet? Essa ideia controversa, que mais parece ter saído de séries como Black Mirror ou do filme O Abutre (2014), já tem "agentes de campo" circulando por cidades dos Estados Unidos em busca de tragédias, é exatamente a proposta do app Citizen, atualmente disponível apenas nos EUA.

Oficialmente, o app se apresenta como plataforma dedicada à segurança dos cidadãos. Quem se dispõe a correr atrás das tragédias pode faturar até US$ 250, dependendo da quantidade de horas que se dedica à tarefa. O processo exige que o usuário atue de fato como um repórter: chegue ao local do evento — seja ele um desaparecimento, acidente, roubo, incêndio ou qualquer outra coisa nesse sentido — e abra uma transmissão ao vivo, enquanto entrevista potenciais testemunhas para tentar contar o que acabou de acontecer.

Citizen promete dinheiro para quem filmar tragédias (Imagem: Reprodução/Play Store)

“Você precisará ser bem rápido, não apenas na abertura de transmissões ao vivo durante esses momentos para agregar valor para os usuários e colaborar com a missão do app, mas também para localizar e incorporar entrevistas dinâmicas que contribuem para a transmissão”, descreve a oferta de trabalho “agente de campo” do Citizen.

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Agentes de campo já estão em ação

Para o New York Post, um porta-voz do app comentou que já há pessoas com essa missão espalhadas por aí. “O Citizen tem equipes em ação em algumas cidades onde o app está disponível para demonstrar como a plataforma funciona e para nortear como uma transmissão responsável deve acontecer enquanto os eventos ainda estão se desenrolando”, explicou.

Ao todo, há 12 agentes de campo do Citizen, segundo uma informação obtida pelo Gizmodo. Contudo, a plataforma não teria informado as cidades em que atuam (embora possam estar espalhados somente entre Los Angeles e Nova York, cidades listadas na vaga de emprego). Em resposta ao The Verge, porém, a companhia revelou que essa parcela de usuários contribui com menos de 1% do conteúdo do app.

Um dos agentes de campo que atuam para o app é um usuário chamado Chris. Segundo o New York Post, em um único dia ele chegou a registrar seis emergências diferentes (incluindo alegações de trocas de tiros). Ao todo, o perfil do rapaz tem 1,6 mil vídeos, com 1,5 milhões de visualizações acumuladas.

Uma ideia nada nova, mas ainda perigosa

Reportar ocorrências em tempo real na internet para “informar” não é nada novo. Existem perfis de redes sociais criados com esse único propósito — receber os relatos e divulgar o mais rápido possível. Por si só, o propósito do Citizen não é totalmente inédito — e nem ele em si é novo, visto que é a versão repaginada de um programa chamado Vigilante, banido da App Store em 2016.

Não conseguiu pensar nos desdobramentos negativos? Pense que um repórter do Citizen poderia entrar em uma situação de perigo real, sem ter um treinamento apropriado, para reportar uma ocorrência movido pela necessidade de descolar uns trocados; imagine este mesmo agente de campo gravando uma confusão de rua, uma acusação de roubo ou algo do tipo, dando rosto e identidade a supostos envolvidos. Em uma era com redes sociais sempre ativas, isso é um problema sério e pode ter consequências fatais.

Em maio deste ano, por exemplo, o próprio CEO do Citizen autorizou a recompensa de US$ 30 mil para usuários que encontrassem um homem acusado de ter iniciado um incêndio florestal — é fácil pensar que tamanha quantia podia ter levado os “vigilantes” a atuarem de forma violenta atrás do indivíduo.

Chris faz transmissões ao vivo de ocorrências e acumula mais de 1,5 milhões de visualizações em seu perfil (Imagem: Reprodução/New York Post)

Na ação, o nome e o rosto do homem foram compartilhados em uma transmissão oficial do aplicativo, alimentada com frases apelativas dos apresentadores como “vão às ruas e levem esse cara à justiça” ou “cacem esse sujeito”. Posteriormente, autoridades locais inocentaram o rapaz inicialmente acusado.

Não é difícil imaginar, também, que dar essa oportunidade para qualquer pessoa pode ter outras implicações morais graves. Os agentes de campo “mais espertos” poderiam forjar situações (ou até provocá-las) para antecipar o “furo de reportagem” e continuar com boas visualizações do aplicativo (e consequentemente ganhar mais dinheiro com isso).

O objetivo do Citizen como serviço ainda não está claro, mas o site Motherboard reportou, em maio, que a companhia experimentou colocar agentes próprios (estes devidamente habilitados para a tarefa) em ação para encontrar as ocorrências. Eles estariam a bordo de um carro identificado e responderiam diretamente aos relatos fornecidos por usuários. Esse modelo, porém, foi abandonado 30 dias após a avaliação e não há previsão para novos testes.

No Brasil, poderia ser uma catástrofe

O Citizen ainda não chegou ao Brasil, mas um app como este tem potencial para fazer estrago na vida de algumas pessoas. Para isso, é só lembrar do caso do instrutor de surfe Matheus Ribeiro, jovem negro de 22 anos, acusado injustamente por um casal de ter furtado uma bicicleta em junho deste ano, no Rio de Janeiro.

Se um caso como esse chegasse para usuários de apps com recompensa, como o Citizen, o cenário poderia ser desastroso. O instrutor de surfe era inocente, mas se o caso ganhasse proporções maiores, Matheus poderia ter sido alvo de ações violentas durante a ocasião e até depois dela, por pessoas que não tomaram conhecimento da sua inocência.

Para você, faz sentido a existência de um aplicativo como esse com atuação remunerada dos próprios usuários? Quais consequência um trabalho como esse poderia causar em grandes cidades do Brasil? Deixe suas impressões logo abaixo, no campo de comentários.

Fonte: The Verge, New York Post, Citizen

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