Desenvolvimento de apps no Brasil está em um bom momento, mas enfrenta desafios

Por Rafael Romer | 02.05.2013 às 07:45

O mercado de apps continua em crescimento constante e não dá sinais de que vai mudar de figura tão cedo. De acordo com uma pesquisa divulgada este mês pela Canalys, as quatro principais lojas de aplicativos — iTunes App Store, Google Play, Windows Phone Store e BlackBerry World — atingiram a marca de 13,4 bilhões de downloads em todo o mundo no primeiro trimestre deste ano. Mas neste mercado, como fica a posição para desenvolvedores dentro do Brasil?

De acordo com o instituto IBOPE, cada vez mais, os smartphones se tornam o principal objeto de desejo dos consumidores brasileiros. Segundo os resultados, a penetração desses dispositivos no mercado nacional praticamente dobrou no último ano, atingindo a marca de 44%. A média global é de 48%.

Aliado à recente redução de alíquotas de impostos como PIS/Pasep e Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), decretada pela presidente Dilma Rousseff no começo de abril, a expectativa é que as vendas destes dispositivos avancem ainda mais. De acordo com um levantamento divulgado pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), a produção e venda de smartphones no Brasil cresceu 78% em 2012, contra 25% de queda nas vendas dos considerados celulares convencionais, também conhecidos como feature phones.

Para desenvolvedores nacionais, a redução de imposto traz ainda mais uma vantagem. Uma publicação divulgada no Diário Oficial da União (DOU) coloca restrições aos aparelhos que podem receber a isenção fiscal, que, de acordo com a portaria n° 87, devem possuir um "pacote mínimo de aplicativos desenvolvidos no Brasil previamente embarcado".

Gustavo Pinke I AM IN

Desenvolvedores

Co-fundador da I AM IN, empresa criada em maio do ano passado, o desenvolvedor Gustavo Pinke (foto ao lado) é um exemplo de iniciativa que vem dado certo. Ele é um dos criadores do aplicativo que leva o mesmo nome da empresa, voltado para o mercado de cuponagem. "A grande maioria dos apps busca cobrir algum gap que, independente do segmento, o mercado possui. E a I AM IN foi criada dentro de um gap de cuponagem, que ainda é um setor que não tem muita expressão no Brasil, como tem em outros paises do mundo", explica.

Lançado em dezembro do ano passado em Campinas, em seguida em Brasília e neste mês em São Paulo, o I AM IN (algo como "Eu estou dentro", em tradução livre), permite que anunciantes cadastrem promoções temporárias que são divulgadas para todos os usuários do aplicativo. Os anúncios podem ser de vários tipos, como itens gratuitos, "compre e ganhe" ou até descontos relampago. Neste caso, uma horas antes do início da promoção, os usuários do app recebem um aviso no aparelho, e, caso seja de seu interesse, podem dar um "I AM IN", adquirindo um cupom para o produto.

Com mais de 3 mil usuários ativos e mais de 60 anunciantes na rede do serviço, Pinke considera que o empreendimento teve um pouco de "sorte e competência" durante o desenvolvimento. Com apenas um mês de existência, a empresa que desenvolveu o app já conseguiu um investidor. "Eu acho que [o mercado] está totalmente aberto, falo pela I AM IN e pelos contatos que temos. O mercado está recebendo novidades, e as novidades vêm na maioria das vezes de start-ups", conta.

Para Pinke, marinheiro de primeira viagem com investimentos em start-ups, o essencial para qualquer desenvolvedor é se inteirar sobre o mercado em que está começando a se colocar. Para isso, participar de reuniões e eventos de desenvolvedores de aplicativos, ainda que pequenos no Brasil, é uma boa alternativa, tanto para troca de conhecimento como para networking.

Nir Erez Moovit

Também relativamente nova no mercado brasileiro, a desenvolvedora israelense Moovit anunciou recentemente a chegada do seu aplicativo colaborativo de transporte público no Rio de Janeiro — a segunda cidade a receber o app no país, após São Paulo. Atualmente, o app já tem cerca de 100 mil usuários no Brasil e está presente em 10 países diferentes.

Ao Canaltech, o CEO da Moovit, Nir Erez (foto), afirmou que um dos pontos fortes do país é que os brasileiros são abertos e costumam recomendar bons aplicativos para os amigos. "Nós vimos um crescimento muito grande no Brasil nos últimos quatro meses com gastos de marketing muito baixos", conclui.

A empresa, que investiu US$ 4 milhões para expandir seu app globalmente, procurava grandes regiões metropolitanas no globo para introduzir o serviço e, com a aproximação de eventos como a Copa do Mundo e Olimpíadas, encontrou uma demanda de usuários grande no país. "Para nós, o Brasil tem algumas das áreas metropolitanas mais adaptáveis e avançadas do mundo. Parece que o Brasil está se tornando um dos países mais avançados em relação à taxa de crescimento de smartphones", afirmou Erez. A expectativa da Moovit agora é expandir o serviço para as cidades de Curitiba e Porto Alegre no Brasil, e para outras regiões da América Latina, como Santiago, Buenos Aires e Bogotá.

Desafios ainda existem

Ao entrar no mercado brasileiro, a Moovit vivenciou o problema do contato com órgãos de transporte público para a obtenção de informações sobre as rotas de trens, ônibus e metrô nas duas cidades, afirmou Nir Erez.

Para o co-fundador da I AM IN, um dos principais problemas é a falta de programadores no mercado, e, pior ainda, o baixo comprometimento de alguns. "Geralmente a start-up vem em segundo plano, eles [os programadores] já trabalham e pegam um freelance. Mas o que você precisa realmente é ter uma pessoa de tecnologia do lado do seu projeto full time", afirma. O desenvolvimento de apps no Brasil, entretanto, não é um caminho tranquilo, e algumas turbulências batem de frente com quem tenta emplacar sua ideia em uma loja de aplicativos. "No desenvolvimento, incerteza é a palavra, é muito 'up and down', um dia você acha que vai ser milionário, no outro acha que não vai dar certo", conta Pinke.

Wilson Baraban

"A dificuldade é encontrar gente boa e com responsabilidade para desenvolver aplicativo. Ainda tem muitos programadores que precisam amadurecer", reforça Wilson Baraban, Diretor de Desenvolvimento da WBSmobile (foto). "[Desenvolver apps] Precisa de marketing, planejamento, e muita molecada acha que vai ficar milionária da noite para o dia", complementa.

Trabalhando com desenvolvimento de apps desde 2009, Baraban afirma que o mercado avançou bastante no país desde então, mas algumas dificuldades permanecem. Um exemplo disso são as "cópias" de apps, muito comuns por aqui. Responsável pelo desenvolvimento do primeiro aplicativo que adicionava o dígito "9" aos celulares do DDD 11, o SP+9, Baraban conta que em pouco tempo, dezenas de apps semelhantes apareceram nas lojas. "É um mercado muito novo, agora que estão surgindo as pesquisas. Tanto a Apple quanto o Google vão ter que fazer algum filtro para aplicativos do mesmo conteúdo, do mesmo tipo", opina.

E para qual plataforma desenvolver?

É indiscutivel que as duas principais plataformas de investimento para aplicativos continuam sendo os sistemas operacionais iOS, da Apple, e Android, do Google. De acordo com um levantamento realizado pelo International Data Corporation (IDC), ao final de 2012, 91,1% dos smartphones vendidos em todo o mundo possuíam Android ou iOS. Em nosso país, não é diferente. "Windows Phone no Brasil a gente quase não escuta falar", afirmou Wilson.

iOS x Android

iOS e Android representam juntos 91,1% do mercado mundial de smartphones

Ainda assim, a escolha de que forma lançar um aplicativo exige certo cuidado e planejamento, principalmente devido às características diferentes de usuários destes dois sistemas. Parece haver um consenso entre empresas que atuam com aplicativos no Brasil que a plataforma Android é a mais utilizada por aqui. "No Brasil, a quantidade de downloads de Android é muito maior do que o iPhone, porém o pessoal de Android baixa muito app gratuito", explica Wilson. "Eu hoje investiria em Apple. Ganhar dinheiro com aplicativo é Apple, mas quantidade de downloads é com Android, para monetizar com publicidade ou patrocínio".

Mas o cenário não é estável e pode ainda mudar de figura. Em novembro do ano passado, a loja da Apple tinha uma renda quatro vezes maior que a do Google Play. No primeiro quarto deste ano, a diferença já caiu quase pela metade, para 2,6. Além disso, a loja do Google teve um lucro 90% maior do quarto trimestre do ano passado para o primeiro de 2013, contra 25% da Apple no mesmo período.

Também é necessário levar em consideração o tempo que os aplicativos levam para estarem disponíveis para download em cada uma das lojas. Enquanto na Google Play o app costuma ficar disponível após o upload, na App Store, um aplicativo pode levar em média uma semana para ser aprovado mediante as regras da Apple. "Mas isso influi um pouco no desenvolvimento, porque hoje, se você for lançar uma atualização para o app, você tem que contar com esse período de análise da Apple Store e contemplar isso no planejamento", opina Pinke.

Mas além de smartphones, há outro mercado ligado aos apps que merece atenção: segundo a pesquisa do IBOPE, os tablets também tiveram aumento em sua penetração no último ano, passando de 1% em 2011 para 5% em 2012. Quando computados apenas o público internauta, o índice sobre para 26%, ultrapassando a média global de 24%. "Hoje quem tem tablet é um público mais elitizado, vale a pena investir e tem retorno financeiro", conta o desenvolvedor da WBSmobile. "Mas vamos ver daqui para frente o que vai acontecer, isso é um mundo de só cinco anos, não é?", finaliza.