CIA realizou operação dedicada a espionar iPhones e iPads

Por Redação | 10.03.2015 às 14:55

Como fabricante de alguns dos aparelhos mobile mais populares do mundo, é claro que a Apple seria um ponto de extrema importância nas operações de vigilância ostensiva praticadas por mais de uma década pela CIA e NSA. Mas, agora, sabemos que as agências de segurança dos Estados Unidos realizaram uma operação dedicada exclusivamente a quebrar a criptografia de iPhones e iPads, de forma a dar acesso às informações confidenciais de seus usuários.

De acordo com o The Intercept, que foi responsável pelas revelações, as primeiras reuniões sobre o assunto aconteceram antes mesmo do lançamento do primeiro iPhone, em 2007, e continuaram a ser marcadas com frequência depois da chegada do celular às lojas. O objetivo era discutir formas intrusivas ou não de instalar malwares e rastreadores nos aparelhos, de forma a penetrar a segurança instalada pela empresa, e mais do que isso, se preparar para futuras atualizações de sistema que poderiam dificultar esse acesso.

Dois métodos estariam entre os utilizados pela CIA para esse fim. O primeiro é uma versão modificada do Xcode, o kit de desenvolvimento da Apple, que seria capaz de incluir backdoors e códigos maliciosos nos apps criados. A organização trabalhou também numa versão hackeada do software de atualização dos aparelhos da Maçã, que seria capaz de instalar softwares de rastreamento de teclado tanto no dispositivo quanto no computador do usuário. Todos os dados seriam enviados automaticamente para servidores dedicados, sem que o usuário percebesse a ação.

Mais uma vez, a fonte das informações é Edward Snowden, o ex-analista da NSA que, em 2013, detonou uma torrente de denúncias sobre a vigilância ostensiva praticada por órgãos governamentais ao redor do mundo. Os novos documentos revelam a participação também de empresas privadas, mas com fortes laços com a administração dos EUA, como é o caso da Lockheed Martin, que cedeu o espaço para a realização de reuniões da CIA e participou dos esforços para a quebra da criptografia da Apple.

Segundo as informações, o trabalho dedicado aos produtos da Maçã foi parte integrante do esforço de espionagem ostensiva praticado pela CIA ao longo dos anos, que também teve como alvo outros produtos de fabricantes americanos ou não. A ideia é a mesma de sempre: permitir acesso irrestrito das autoridades em prol da segurança nacional, mesmo que, para isso, a privacidade dos cidadãos tenha que ser deixada completamente de lado.

Os documentos entregues por Snowden, porém, não dizem até que ponto a operação foi bem-sucedida, ou até mesmo se ela chegou a ser colocada em prática. Os órgãos do governo dos Estados Unidos, claro, não se pronunciaram sobre o assunto. A Apple também preferiu não se pronunciar sobre as novas denúncias.

Relações mais difíceis

iPad e iPhone

As revelações feitas pelo The Intercept nesta semana podem acabar azedando ainda mais as negociações entre os governos dos EUA e Reino Unido com as empresas de tecnologia como a Apple e o Google. As companhias investiram em sistemas de segurança aprimorados após as primeiras denúncias de espionagem feitas por Edward Snowden. Nesse ensejo, acabaram dificultando também o trabalho de agências policiais nas investigações, justamente o ponto que vem sendo debatido atualmente.

De um lado, as autoridades pedem que as empresas trabalhem em métodos de segurança que protejam os usuários, mas sem impedir o acesso aos dados no combate ao crime e ao terrorismo. De outro, as companhias do setor alegam que essas informações somente serão entregues após a emissão de mandados judiciais, justamente algo a que o governo não quer se submeter, alegando que essa necessidade vai contra a agilidade necessária em uma investigação do tipo.

E, mesmo que as autoridades consigam tais mandados, se nem mesmo a Apple é capaz de quebrar a própria criptografia, os dados entregues seriam inúteis para solucionar crimes. É justamente por isso que o presidente Barack Obama decidiu se envolver pessoalmente na questão, se encontrando com CEOs de empresas de tecnologia e assinando leis que regulem a operação de órgãos de segurança. Todas as negociações, porém, parecem seguir com bastante tensão e longe de alcançarem um acordo adequado entre as partes.