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Bitcoin: conheça a moeda virtual que não depende de governos e bancos

Por Rafael Romer RSS | 28.02.2013 às 11h40 - atualizado em 28.02.2013 às 18h57

Bitcoin

A internet é conhecida como um território livre para diversos tipos de atividade: trocas de arquivos e informações entre pessoas de lugares diferentes do mundo, disseminação do conhecimento, produção de conteúdo em texto, vídeo e áudio. Mas em um aspecto específico, tudo que fazemos na rede acaba preso ao mundo real. Quando compramos ou vendemos coisas na web, nossas ações ficam limitadas às legislações, câmbios e taxas de governos locais, o que pode acabar dificultando ou atrasando as trocas realizadas na web. De certa forma, não importa o que façamos na rede envolvendo dinheiro real, sempre estaremos presos a essas amarras.

Em 2008, Satoshi Nakamoto foi o primeiro a descrever uma economia voltada para a rede, baseada em um sistema peer-to-peer, onde as trocas seriam feitas diretamente entre usuários. Em seu artigo “Bitcoin design paper”, que ficou conhecido como o protocolo Bitcoin, Nakamoto descreveu as vantagens de uma moeda virtual auto-regulamentada, que pudesse ser transferida de pessoa para pessoa, sem ter que passar por governos ou instituições financeiras, como se fosse dinheiro físico. Esse foi o nascimento da Bitcoin.

Até hoje ainda não está claro quem foi Satoshi. Alguns afirmam que tratava-se de um japonês de cerca de 37 anos, como afirmava o seu perfil no site da P2P Foundation. Mas outros usuários defendem que o nome era, na realidade, apenas um pseudônimo para o grupo que desenhou a Bitcoin, já que toda a documentação foi escrita em inglês com formatação britânica e não existe nenhum tipo de registro em japonês de tudo.

Em 3 de janeiro de 2009, o primeiro cliente de Bitcoin surgiu e as primeiras moedas começaram a ser emitidas. Atualmente a economia da Bitcoin é administrada através de uma rede peer-to-peer descentralizada. Uma criptografia própria permite que os usuários façam trocas de moedas através de suas carteiras online e impede, por exemplo, transações duplas - o que criaria mais moedas. “Eu recomendo primeiro como uma coisa diferente. Eu acredito no Bitcoin como uma experiência, uma primeira tentativa de nos tornar mais independentes dos bancos e entidades financeiras para guardar nosso dinheiro”, explica o programador Bruno Gola, que passou a se envolver com o projeto em 2012. Entusiasta do movimento de software livre, Gola diz que o que lhe chamou atenção nas Bitcoins foi o aspecto técnico do seu funcionamento, o que o levou a conhecer o programador britânico Amir Taaki, um dos mais conhecidos nomes dentro das Bitcoins, e passar a divulgar o uso das moedas no Brasil.

Por ser independente de bancos ou governos e ter seu código aberto, a Bitcoin depende de um sistema próprio de geração de moeda para garantir que a inflação e oferta de dinheiro seja mantida sempre dentro do aceitável. A rede de Bitcoins cria e distribui aleatoriamente entre usuários que estão rodando o programa no modo de geração de moedas aproximadamente seis vezes por hora. O ato de gerar Bitcoin é chamado de “mining”, ou mineração. “A geração acontece a cada dez minutos por alguém na rede que resolve um certo desafio. Esse desafio é basicamente tentar acertar um número que foi definido na última geração de moeda”, explica Gola. O desafio pode ser mais fácil ou mais difícil, e é regulado automaticamente pelo protocolo Bitcoin para que tudo sempre seja resolvido a cada dez minutos em média. O número de moedas geradas também é sempre o mesmo, como explica o programador, mas é dividido pela metade a cada três ou quatro anos.

Atualmente existem cerca de 10,8 milhões de Bitcoins (BTC) disponíveis na rede. De acordo com o câmbio atual, cada Bitcoin vale cerca de US$ 31,79 (ou R$ 63,06). No total, o equivalente a R$ 683,3 milhões estão disponíveis na rede. Como têm um crescimento planejado, as Bitcoins deverão chegar ao seu ápice em 2140, quando o total de moedas virtuais na rede chegará a 21 milhões de BTC e a produção será parada.

Os preços em BTC flutuam conforme os bens e serviços oferecidos na rede, como em uma bolsa de valores comum. Hoje já é possível comprar centenas de itens a partir de lojas online que aceitam a moeda. Em 2011, por exemplo, fundações ativistas como o Wikileaks e Freenet passaram a aceitar as Bitcoins como meio de doações. De acordo com a Bitpay, um dos principais serviços de pagamento online com Bitcoins, semelhante ao Paypal, mais de mil lojistas já estavam cadastrados em seu banco de dados em 2012.

O aumento na popularidade e número de usuários de Bitcoins levou até a criação do Bitcoin Friday, uma espécie de Black Friday do mundo das Bitcoins. “Eu percebi que se fosse para a Bitcoin crescer, ela teria que ser realmente utilizada para a compra de coisas. Assim, com a ajuda de alguns patrocinadores e todos os comerciantes, consegui criar um dia gigante de vendas”, explica o criador da Bitcoin Friday, Jon Holmquist. Segundo ele, o evento contou com a participação de cerca de 500 consumidores no ano passado, e o número deve “aumentar muito” neste ano.

Holmquist administra sua própria loja de venda de moedas comemorativas de prata e ouro, a Coinabul, que também trabalha com Bitcoins. Para ele e para os principais defensores da Bitcoin, a principal vantagem da moeda virtual é eliminar os “três grandes intermediários” da economia: os bancos, que “pegam o nosso dinheiro e nos cobram taxas para mantê-lo”, os comerciantes, permitindo que as transações sejam feitas sem taxas, e o governo, evitando, por exemplo, que o valor da economia seja “minado por planejamentos orçamentários irresponsáveis”. Outras vantagens da moeda incluem, por exemplo, a impossibilidade de sua conta ser congelada.

Holmquist explica que as moedas já sofreram muito preconceito e pressão de governos, economistas e advogados quando foram criadas, mas hoje são aceitas com menos reserva. Por serem de difícil rastreio, apesar de não serem anônimas, no principio muitas pessoas linkavam o uso das moedas à compra de drogas e outros produtos ilícitos em locais como a “Rota da Seda”, uma espécie de mercado negro na chamada “Deep Web”. “No princípio do Bitcoin, a Silkroad era uma parte maior da economia. Mas Bitcoin ficou muito, muito maior do que o Silkroad. Eu acho que uma grande parte da Bitcoin Friday está tentando provar isso”, afirma.

O uso das Bitcoins está avançando inclusive no Brasil, onde as moedas devem passar a ser aceitas na primeira loja física do País, em São Paulo. “Temos muitos frequentadores da loja que usam a moeda e através de amigos em comum com pessoas envolvidas com as Bitcoins, ficamos sabendo do projeto”, explica Talita Noguchi, da bicicletaria e bar Las Magrelas, localizada na Vila Madalena. Segundo ela, o sistema foi de fácil cadastro e já deve estar funcionando a partir da semana que vem. Para o usuário das Bitcoins, bastará realizar uma transferência direta entre sua carteira e a carteira da loja e pronto! Não foi necessária a criação de contas de comerciante ou compra de hardware de processamento. “A gente curtiu muito a liberdade da ideia”, conta Talita.

Já é possível para o usuário brasileiro comprar suas próprias Bitcoins em sites como o Mercado Bitcoin, que oferece o câmbio de Reais para a moeda virtual e vice e versa. Nesta quarta-feira, a Bitcoin fechou com o valor de R$ 63,5 no site.

Curtiu a ideia? Para começar a entrar no mundo das Bitcoins basta baixar uns dos clientes disponíveis para criar sua carteira virtual. Para conseguir suas moedas, procure programas chamados "miners" e "pools" (grupos de pessoas que mineram Bitcoins em conjunto - aqui há um guia para iniciantes, em inglês), que, como explicado antes, ajudarão você no processo de mineração, ou compre Bitcoins através das lojas de câmbio disponíveis online e pronto!

Mas lembre-se de se informar bem antes de começar! Bitcoins são dinheiro de verdade e precisam de cuidado. É importante, por exemplo, manter um backup do código único de sua carteira virtual - perdê-la significaria  a mesma coisa que perder sua carteira de verdade. Sites como o We Use Coins e Bitcoin Charts (ambos em inglês) trazem informações mais aprofundadas para quem quer entender mais sobre esse mundo e fazer parte dessa economia virtual livre.

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