#CPBR9 - Evento realiza debate esclarecedor sobre passar cultura nerd aos filhos

Por Patrícia Gnipper RSS | em 28.01.2016 às 19h06

pai e filho jogando videogame

Nesta quinta-feira (28), a Campus Party levou ao palco três produtores de conteúdo nerd para um bate-papo sobre como eles incluem seus filhos nessa cultura. Nick Ellis é editor do site geek Meio Bit e tem dois filhos (um menino e uma menina); Fernanda Café é editora do PacMãe e tem um filho pequeno; e Jorge Freire, criador do NerdPai, também tem um filho. Todas as crianças já são consumidoras da cultura nerd, por influência dos pais, mas eles levantam a questão de como educá-las para serem abertas a esse universo, sem imposições.

Campus Party nerds e filhosDa esquerda para a direita: Nick Ellis, do Meio Bit; Fernanda Café, do PacMãe, e Jorge Freire, do NerdPai (Reprodução: YouTube/Campus Party)

A conversa começou pelo básico: o que é ser nerd? “Ser nerd não está ligado a gostar só de gibi ou ser um CDF. Para mim, ser nerd é ter paixão por alguma coisa. Nerd é uma pessoa apaixonada”, definiu Jorge. Para ele, qualquer pessoa que goste muito de determinado assunto, que pesquise a respeito, que tenha paixão por aquilo, é um nerd. “Tanto faz se o assunto é videogame, quadrinhos, ou até futebol”, completa.

Já Fernanda disse ter um pouco de receio de se definir nerd nos dias atuais, pois nerd já virou nicho de consumo. “A gente não quer ser só um consumidor’, disse, ao refletir sobre como a publicidade e o comércio abraçaram a cultura nerd visando lucro. “Há um universo muito maior de ‘nerdice’ do que simplesmente isso que a mídia entendeu”, completa Nick. 

Filho de peixe, peixinho é?

Lembrando um pouco da infância, Jorge contou que seu pai gostava muito de ir ao clube aos domingos, e obrigava a família a compartilhar o momento, mas o que poderia ter se tornado um momento de diversão entre pai e filho se tornou um trauma de infância. O NerdPai acabou desenvolvendo uma verdadeira aversão a clubes e piscinas, que não frequenta até hoje. Por isso, ele conta que não impõe nada ao seu filho. “Eu acho muito errado um pai querer forçar os filhos a seguirem o mesmo caminho dele. Tem que ser natural: se você gosta de algo, naturalmente seu filho também poderá gostar, mas sem forçar”, explicou.

O casal de filhos de Nick adora Star Wars, assim como o pai, mas ele disse que foi um gosto adquirido naturalmente pelas crianças. Talvez pelo fato do pai ser tão fã da saga, os filhos absorveram “a Força” por tabela, de maneira saudável. Pegando carona no assunto, Fernanda contou que o PacMãe começou como uma fanpage no Facebook onde postava fotos de crianças fazendo cosplay. No entanto, em muitas dessas fotos era nítido que a criança não estava gostando daquilo — ou seja, essas crianças não estavam fazendo cosplay porque queriam, mas sim pela imposição dos pais.

Aparelhos eletrônicos não são babás

Mudando um pouco o foco da conversa, o papo flui para o uso que as crianças de hoje fazem de equipamentos eletrônicos como o tablet, por exemplo. Os três criticaram pais que fornecem esses aparelhos para que as crianças não os incomode, como se um tablet substituísse a atenção de um pai ou de uma mãe.

“Se eu deixar, minha filha assiste à Netflix o dia inteiro”, contou Nick, que acredita que é papel dos pais determinar o espaço que a tecnologia deve ocupar na vida da criança, sem substituir demais atividades necessárias para seu desenvolvimento saudável. “É fundamental que a criança tenha um espaço para desenvcolver sua criatividade longe da tecnologia”, acredita. Fernanda concorda e disse que também tenta administrar o tipo de conteúdo a que seu filho tem acesso. “O YouTube é um ambiente muito rico, mas muito perigoso, então todos os canais que ele gosta têm que passar pelo meu crivo”, contou.

Segundo Jorge, estamos vivendo uma época em que acontece uma transição entre o antigo meio analógico e o meio digital, e isso nos deixa confusos com relação ao que é saudável e o que é prejudicial, no que diz respeito a hábitos envolvendo novas tecnologias. “Eu defendo que é necessário as crianças estarem em contato com o meio tecnológico, mas com limites. Nossos filhos vivem o melhor dos dois mundos: eles brincam na rua e jogam bola, mas também jogam videogames de última geração e utilizam tablets”, completa.

Origami FreeOrigami Free, um aplicativo para tablets que ensina como fazer dobraduras em papel (Reprodução: Play Store)

Esses mesmos tablets podem causar problemas para o desenvolvimento da criança, caso elas só façam uso passivo do aparelho (assistindo a vídeos, por exemplo), mas também podem colaborar para seu aprendizado graças a aplicativos que favorecem o uso ativo do dispositivo. Um exemplo são apps que ensinam a fazer dobraduras em papel, em que a criança está sendo passiva enquanto assiste, mas parte para a ação ao pegar um papel físico e tentar realizar a tarefa que aprendeu na telinha.

Representatividade importa

O debate foi chegando ao fim trazendo à pauta um tema um pouco fora da proposta, mas extremamente importante para todos, adultos e crianças: a representatividade nas produções culturais. O exemplo que foi levantado pelos três foi o novo Star Wars, que trouxe uma nova personagem feminina de respeito e um personagem negro. 

Finn e Rey Star WarsJohn Boyega como Finn, e Daisy Ridley como Rey em Star Wars VII: O Despertar da Força (Reprodução: Divulgação)

Fernanda disse que sempre tenta conversar com seu filho sobre estereótipos de gênero, para que ele não se contamine com esse pensamento ultrapassado de que meninas gostam de boneca e meninos brincam de carrinho. Ela acredita que a sociedade já mudou consideravelmente para melhor, “e o novo Star Wars é um reflexo dessa mudança do mundo. Ele trouxe personagens que nunca existiriam 20 anos atrás e nossos filhos não serão iguais aos ‘nerds de raiz’, questionando quando virem mulheres e negros em papéis de destaque”, disse a PacMãe. Sobre essas pessoas que não admitem a inclusão de outros perfis de personagens nos filmes, quadrinhos e videogames, Nick é categórico: “Esses caras não são dignos de serem chamados de nerds”.

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