#CPBR9 - Cyberbullying e violência contra mulheres nos games é tema de debate

Por Patrícia Gnipper RSS | em 27.01.2016 às 19h35 - atualizado em 27.01.2016 às 22h12

Cyberbullying (HQ)

Com o tema “Cyberbullying e a violência contra mulheres na cultura pop e nos games”, o feminismo subiu ao palco Feel The Digital Leisure da Campus Party nesta quarta-feira (27). A defensora pública Ana Rita Souza Prata conversou com a blogueira Paola Rodrigues e com a jornalista Daniela Rigon sobre os problemas que as mulheres enfrentam na internet ao interagir com as comunidades de cultura pop e de jogos eletrônicos.

Cyberbullying na Campus Party
Da direta para a esquerda: Ana Rita, Paola e Daniela (Reprodução: Youtube/Campus Party Brasil)

Paola, que escreve para os sites “Cartas para Helena” e “Não Pule da Janela”, contou que sofreu bastante bullying na infância, enquanto estava na escola, e que continua passando pelas mesmas sensações mesmo depois de adulta, só que na internet. “Comecei a ver como isso migrou para a internet quando comecei a jogar Tibia. Quando comecei meu primeiro blog, os comentários eram ataques diretos à minha pessoa”, contou. 

“Na internet, parece que tudo piora por causa da questão do anonimato. As pessoas acham que o que estão falando não será levado a sério, mas pode causar graves consequências na vida de alguém”, disse Daniela, que é colaboradora dos sites “ESPN Games”, “Drops de Jogos” e “Geração Gamer”. 

Para Ana, que atua publicamente na defesa da mulher, “o cyberbullying nada mais é do que o bullying praticado no ambiente da internet. 90% dos jovens usam as redes sociais, então vemos condutas que todos estamos propensos a praticar na vida offline também na internet”.

Acabando com o clube do bolinha

Conforme abordamos na matéria sobre o machismo no meio nerd publicada recentemente aqui no Canaltech, o “clube do bolinha” existe pois é um reflexo da nossa sociedade há muito tempo sexista e patriarcal, que segrega mulheres e as trata como seres inferiores e, portanto, submissos. Por isso, antigamente as mulheres não tinham as mesmas oportunidades que os homens na hora de estudarem ciências diversas, restando a elas o papel de mães de família, religiosas ou professoras. Então, os campos científicos (e, consequentemente, as áreas que futuramente seriam chamadas de “nerd”) acabavam contando com uma maior quantidade de indivíduos masculinos.

Com o advento da internet — especialmente dos blogs e das redes sociais —, as meninas e mulheres estão cada vez mais tendo acesso à informação e, aos poucos, estão se empoderando. Antes, as mulheres não tinham muitos meios onde levantar a voz e dizer “hey, eu não me sinto representada pelas figuras estereotipadas das mulheres nos quadrinhos”, por exemplo, mas agora o que não faltam são canais onde as mulheres podem não somente se informar, como se expressar.

“A gente vai tomar o nosso espaço porque ele já é nosso de direito”, contesta a defensora pública. Sobre punições, ela acredita que “a gente tem que refletir se esse mundo da internet é uma terra realmente sem lei”. Para Ana, muitas pessoas reproduzem violências sem perceber, mas quando a agressão é praticada em um ambiente real, com testemunhas, ela poderá ser penalizada, então na internet não deveria ser diferente. “A internet é mais um espaço de convívio e nela deve haver as mesmas regras que existem na sociedade”, completa.

Menina também joga

Segundo Daniela, quando algum usuário está agredindo virtualmente outro ou outra, “uma das reclamações constantes na comunidade gamer é com relação à falta de punição”. “Você até consegue reportar a pessoa, mas é só ela criar uma conta nova e continuará repetindo os mesmos atos”, explica.

Talvez a solução para esse problema já esteja encaminhada. No League of Legends existe um recurso chamado “shadowban”, em que os usuários considerados tóxicos continuam jogando normalmente, mas suas publicações são vistas apenas por eles. Assim, eles estarão literalmente falando sozinhos, sem que suas tentativas de ofensa tenham nenhuma repercussão.

garota gamerEstereótipos de como deve ser uma "garota gamer" são perpetuados aos montes (Reprodução: Divulgação)

Outra reclamação das mulheres no meio dos jogos eletrônicos é com relação eo estereótipo da “garota gamer”. É muito comum vermos piadas sobre como uma garota “verdadeiramente” gamer deve se portar, ou não se portar, e essas postagens são amplamente compartilhadas nas redes sociais até mesmo por outras mulheres, que acharam a brincadeira engraçada mas não têm a noção do quanto perpetuar esses estereótipos é prejudicial para todos.

Formadores de opinião

Muito se engana quem pensa que em pleno ano de 2016 os formadores de opinião são somente jornalistas, publicitários e personalidades. Na era das redes sociais, qualquer pessoa pode ser uma formadora de opinião — mesmo que para um limitado círculo de contatos.

“A gente precisa ter muita noção sobre a nossa voz na internet”, acredita Paola. “Mesmo sendo só na sua timeline, seu discurso está impactando a sua rede de amigos. Temos que ter responsabilidade sim sobre a interpretação de quem está nos lendo”, completa a blogueira. Muito disso vem da ideia de que a vida “real” é uma coisa, e a vida online é outra totalmente diferente. Na verdade, já passamos a maior parte dos nossos dias conectados a alguma plataforma, então a internet se tornou parte da vida real.

Com isso, vem a desumanização. A defensora pública Ana acredita que “a internet desumaniza. Não se vê a expressão da pessoa enquanto ela reage à sua ação”, logo, fica mais fácil enxergar o outro como qualquer coisa, menos um ser humano, enquanto estamos nos relacionando apenas virtualmente.

A conclusão que fica é que a violência praticada na internet e nos games contra usuárias do gênero feminino não é um problema somente delas: é de todos, uma vez que esse cenário é consequência de uma violência ainda maior, que acontece em toda a sociedade. Sendo assim, não devemos nos preocupar com dicas para as mulheres fugirem de situações potencialmente violentas: devemos ensinar as pessoas a não praticarem a violência.

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