Especial NZ: como um diretor e hobbits transformaram o cinema da Nova Zelândia

Por Rafael Romer RSS | 23.01.2014 às 09h30 - atualizado em 23.01.2014 às 14h29

O Hobbit

*De Wellington, Nova Zelândia

Há 14 anos, quando o diretor de cinema Peter Jackson encarou pela primeira vez o desafio de adaptar para o cinema a trilogia O Senhor dos Anéis, do autor J. R. R. Tolkien, uma coisa estava bem clara na sua cabeça: nascido na afastada Nova Zelândia, o diretor se esforçaria ao máximo trazer o fantástico mundo de Tolkien para o cinema através do que seu próprio país tinha para oferecer. E para a nação de atuais pouco mais de 4,4 milhões de habitantes, isso não significou pouca coisa.

Leia também: série de matérias especiais sobre a tecnologia na Nova Zelândia

"O Senhor dos Anéis é o ponto no qual o termo 'indústria do cinema' realmente ganha significado na Nova Zelândia, pelo tamanho da produção e pelo trabalho aplicado. Foi uma mudança completa na escala da produção cinematográfica no país", afirmou a CEO Gisella Carr (foto) em entrevista ao Canaltech no escritório central da Film NZ, em Wellington.

NZ Films

Estabelecida na década de 90 pela indústria de cinema neozeolandeza, a agência Film NZ  trabalha atualmente junto ao governo do país e é uma das responsáveis por fomentar o cinema local,  atrair o interesse de produções internacionais para a Nova Zelândia através de incentivos fiscais e ajudá-las nas relações com o setor público e indústria local. "Quando uma produção vem para o país, eles pedem locações, informações sobre transporte, funcionários, regulamentação, equipamento. São centenas de detalhes sobre as produções e nós estamos aqui para resolver esse tipo de coisa", explica Gisella.

De acordo com os números mais recentes da indústria cinematográfica no país, que comparam o crescimento entre 2011 e 2012, a Nova Zelândia viu um crescimento de cerca de 10% no período, em uma indústria que já ultrapassa o valor de US$ 3,29 bilhões em produções locais e internacionais. Em 2012, o setor gerou mais de 23 mil empregos diretos e indiretos dentro do país.

Parte da tarefa atual da agência é estimular as produções locais no país para a criação de um ecossistema sustentável, que equilibre o interesse por filmes internacionais na Nova Zelandia sem deixar de lado as produções nacionais. Com a população diminuta, Gisella afirma que é essencial para o país fechar parcerias com grandes produções, especialmente norte-americanas, como forma de trazer mais escala, know-how, verbas e reconhecimento para o cinema do país.  Atualmente, o principal mercado consumidor dos filmes neozeolandeses ainda é os Estados Unidos, responsável por cerca de 90% de todas as receitas geradas por filmes do país.

Com pouco menos de 400 mil habitantes, a capital neozelandesa Wellington funciona hoje como o centro nervoso da indústria cinematográfica local. Desde o princípio de sua carreira, a cidade foi a base de operações de Peter Jackson, e com o sucesso e escala de O Senhor dos Anéis, acabou criando um hub de toda a expertise para a produção de cinema no local. "Ao redor dele ele tinha um grupo muito capaz e criativo de colaboradores", explica a diretora da agência. "E com a decisão de produzir o máximo possível na Nova Zelândia ele acabou criando toda a capacidade ao redor de Wellington: empresas de pós-produção, efeitos visuais, estúdios de som".

Um dos maiores exemplos dessa herença deixada por Jackson são os estúdios de animação, efeitos especiais e arte Weta, co-fundada originalmente em 1993 pelo diretor e por Richard Taylor e Jamie Selkirk para a produção do longa Almas Gêmeas (Heavenly Creatures), de Jackson. 

Como era de se esperar, o boom dos estúdios Weta veio com a participação na produção de O Senhor dos Anéis. Foi nos workshops da empresa em Wellington que foram desenvolvidos personagens como o hobbit corrompido pelo anel Gollum, além de roupas, armas e cenários que deram vida à obra de Tolkien nas telonas. Desde então, o grupo Weta acumulou cinco Oscars de efeitos visuais e é considerado hoje referência mundial na área, trabalhando em produções como Avatar, Os Vingadores, Prometheus, King Kong e Distrito 9.

Localizado há cerca de 40 minutos do centro de Wellington, a Weta Cave, que reúne um mini museu dos estúdios e um workshop aberto para visitação, atrai atualmente centenas de turistas todos os dias para o subúrbio de Miramar. Lá, estão permanentemente expostas algumas das peças mais populares criadas pelos estúdios, como as estátuas em tamanho real dos trolls Tom, Bert e William, que aparecem no filme O Hobbit.

Peter Jackson

Locação escolhida por Peter Jackson para filmagem das cenas externas do Condado hoje é atração turística (Foto: Divulgação/Mike Walen)

Turismo Geek

Não é exclusividade dos estúdios Weta a atração de turistas que desejam conhecer as localizações e curiosidades de alguns de seus filmes e personagens favoritos. O turismo é atualmente a segunda indústria mais improtante para a economia neozelandesa, e emprega, direta ou indiretamente, uma de cada dez pessoas no país. E o chamado "turismo geek" ou "turismo de fãs" é parte essencial dessa equação.

Durante as filmagens de O Senhor dos Anéis, que tiveram início em 1999, o diretor Peter Jackson rodou a Nova Zelândia inteira em busca de boas localidades para representarem a Terra Média nos filmes da trilogia. Durante três meses do período de pré-produção, sem que ninguém soubesse, Jackson se alojou na fazenda da família Alexander, criadora de ovelhas, em Matamata, cidade com cerca de 12 mil habitantes a três horas de Auckland. Com suas rolling hills verdes e montanhas ao fundo, o cenário rural da região representava com perfeição o ideal bucólico de um dos lugares mais conhecidos e amados da Terra Média.

A família Alexander foi enviada para uma extensa viagem de três meses ao redor do país enquanto milhares de funcionários da produção de O Senhor dos Anéis transformavam sua fazenda em uma cópia do Condado, cheio de tocas hobbits e vistas idílicas que seriam usadas para as filmagens exteriores. 

Com o filme terminado, a expectativa é que tudo fosse desmontado e a fazenda voltasse a abrigar exclusivamente ovelhas. Mas conforme o segredo sobre a produção começou a vazar entre os moradores da região, mais e mais curiosos iam todos os dias até a propriedade dos Alexander olhar o Condado de perto. O interesse foi tanto que a família fez a proposta de manter o local como ponto turístico junto a Jackson e ao governo neozelandês.

Rafael Hobbit

O repórter do Canaltech, Rafael Romer, comprova seu tamanho de hobbit no Condado (Foto: Acervo Pessoal/Canaltech)

O resultado disso é Hobbiton, que hoje emprega cerca de 70 pessoas e atrai centenas de turistas diariamente para Matamata. O local reúne 44 tocas hobbit, a taverna Dragão Verde, a casa de Bilbo Baggins, Bag End, e o moinho do Condado. O sucesso da atração é tão grande que os tours hoje tiveram que ser reduzidos para cerca de 45 minutos – há onze anos, quando a Hobbiton abriu suas portas para turistas, os tours guiados duravam 1 hora e meia. Em dezembro passado, a atração atingiu a marca de 500 mil visitantes.

"O Senhor dos Anéis é um daqueles filmes em que as pessoas têm certeza de que foi filmado na Nova Zelândia. E ao redor disso, foi criado um interesse comercial no turismo, a ponto que o setor no país esteja sendo promovido em conjunto com os filmes", explica Gisella. Para a executiva, o fenômeno da relação próxima entre essa base de fãs e o país tem crescido muito desde a primeira adaptação de Tolkien para o cinema, impulsionada principalmente pelo crescimento das redes sociais. "A Nova Zelândia criou muita capacidade ao redor de bases de fãs. Esses fãs não se interessam só pelo filme, mas pelas pessoas que criam esses mundos fantásticos tanto quanto pelo conteúdo", afirma.

De acordo com dados de uma pesquisa realizada pelo governo neozelandês em junho de 2013, cerca de 8,5% de todos os visitantes internacionais do país citam O Hobbit como o principal motivo de irem até a Nova Zelândia, empatado no segundo lugar com "boas tarifas aéreas". No total, cerca de 13,2% do total de visitantes do país participa de alguma atividade relacionada aos filmes O Senhor dos Anéis ou O Hobbit.

Com 46,7% dos votos, os "cenários e vistas espetaculares" continuam como o maior atrativo no país para turistas, no entanto.

HobbitonHobbiton reúne 44 tocas hobbit, a taverna Dragão Verde, a casa de Bilbo Baggins, Bag End, e o moinho do Condado (Foto: Reprodução)

Assine nosso canal e saiba mais sobre tecnologia!
Leia a Seguir

Comentários

RECEBA NOSSAS
NOTÍCIAS POR E-MAIL
ASSINE NOSSA NEWSLETTER DIÁRIA