Como os robôs e a realidade virtual vão afetar a prostituição e o mundo do sexo

Por Durval Ramos RSS | em 10.02.2016 às 12h08

sexo robôs

Apesar de muita gente achar estranho ou ainda tratar como brincadeira, os robôs sexuais já são uma realidade e estão entre nós. Ou pelo menos entre os poucos entusiastas dessa tecnologia que já abraçaram uma tendência que, segundo analistas, é o futuro. A gente já comentou sobre esse assunto antes, mostrando o quanto as empresas especializadas nessa nova geração de "bonecas infláveis" está se dedicando a fazer produtos cada vez mais realistas.

É claro que muita gente vai torcer o nariz para esse tipo de coisa, mas não podemos dar as costas para a tecnologia e as possibilidades que ela oferece — por mais bizarra que às vezes ela seja. Prova disso é que esses brinquedos de luxo não só estão ganhando cada vez mais espaço no mercado do prazer como ainda trouxeram à tona uma série de questões relacionadas à indústria do sexo. Afinal, como essa nova linha de produtos vai impactar uma série de outros segmentos, incluindo a prostituição?

De novo: não é piada. O mercado do sexo é algo que movimenta milhões e milhões de dólares todos os anos, seja com pornografia, estabelecimentos dedicados, produtos para fins sexuais e até mesmo prostituição. Se a chegada desses robôs for tão impactante na vida das pessoas como muitos especialistas preveem, pode ser que tenhamos uma reviravolta imensa na forma como vemos e consumimos tudo isso — e em alguns conceitos bem antigos.

Sexo robô

Uma quebra de paradigma

O consultor britânico em tecnologia Ian Pearson divulgou um estudo chamado "O Futuro do Sexo: O Surgimento dos Robossexuais", um artigo no qual destaca exatamente a tendência das pessoas se apaixonarem por robôs e inteligências artificiais, chegando até mesmo ao sexo em si. Nessa pesquisa, ele aponta que o sexo com robôs é algo que deixará de ser tabu ao longo das próximas décadas, principalmente com a expansão da Internet das Coisas e a chegada de tecnologias que vão permitir que as pessoas conectem seus sistemas nervosos ao sistema das máquinas.

Desse modo, ele afirma que vai ser comum que as pessoas tenham um robô em suas casas para satisfazê-las sexualmente, o que faria dele apenas um acessório. Assim, a distinção entre amor e sexo ficaria mais distinta e os casais não veriam o uso desses bonecos como traição, já que o seu uso seria socialmente aceito. Afinal, você não sente ciúmes de um vibrador, então não precisaria terminar um relacionamento por causa de uma máquina que faz exatamente a mesma coisa.

sexo robôs

Só que esse cenário quase inocente pode trazer consequências enormes para outros setores da indústria do sexo. Ao mesmo tempo em que as fabricantes desses robôs vão lucrar milhões, o mercado de prostituição pode receber um enorme baque. Afinal, por que as pessoas vão procurar as profissionais do sexo quando podem encontrar esse prazer em casa?

À primeira vista, essa é uma preocupação que não parece ter sentido, mas não é preciso ir muito longe para entender a preocupação existente em torno da chamada profissão mais antiga do mundo. É claro que comprar um robô vai ser muito mais caro que contratar uma prostituta, mas sempre há aquele que vai pensar na aquisição como um investimento. Ao invés de sair com dez meninas ao longo do ano, ele pode guardar seu dinheiro e comprar uma boneca sexual para satisfazê-lo por muito mais tempo.

Além disso, há toda a questão da segurança. De uso individual, um robô não corre o risco de transmitir uma doença por meio do sexo, o que já é uma enorme vantagem nessa disputa. Além disso, os pontos de prostituição são quase sempre marginais, em áreas não muito seguras das grandes cidades. Assim, é fácil imaginar que muitas pessoas podem preferir o conforto e a segurança da sua casa do que se arriscar em áreas pouco convidativas. Isso sem falar que um robô jamais vai questionar suas fantasias, por mais estranhas que elas sejam.

Robô Sexo

É claro que as prostitutas sempre vão ter o fator humano a seu favor. Fazer sexo com uma pessoa de verdade é muito diferente de fazer isso com um pedaço de plástico, borracha e seja lá qual for o material usado na fabricação dessas peças. Contudo, as fabricantes desses robôs já estão investindo pesado em maneiras de simular essa "humanidade" durante as relações sexuais, seja fazendo expressões faciais diferentes para cada tipo de ação feita ou mesmo explorando as possibilidades da inteligência artificial. O que nos impede daqui a 30 anos ter uma IA evoluída a ponto de realmente simular o comportamento de uma pessoa durante o sexo?

Isso pode fazer com que a relação entre prostitutas e robôs possa caminhar para algo bem próximo do que temos hoje entre taxistas e o Uber: uma mudança radical na forma como as pessoas consomem um tipo de serviço, criando uma alteração tão grande que vai afetar quem trabalha à moda antiga. A diferença é que, neste caso, há uma série de fatores que favorecem as máquinas, o que torna essa disputa ainda mais complicada para as profissionais do sexo.

Uma ameaça mais próxima

Se os robôs parecem uma ameaça distante e futurista demais, o mercado de prostituição encara uma ameaça um pouco mais atual: a realidade virtual. Já falamos diversas vezes como a indústria pornográfica é de vanguarda e de seus esforços para lançar conteúdos imersivos para que o público aproveite os óculos para aumentar seus momentos de prazer. É claro que isso não é nenhum tipo de risco a quem oferece sexo, mas pode ser apenas uma questão de tempo para que as coisas mudem.

Como dito antes, a previsão de alguns pesquisadores é que a tecnologia consiga encontrar maneiras de conectar o sistema nervoso humano à própria internet ou algo muito próximo disso. Assim como "Emanuelle no Espaço" já previu, essa ligação pode revolucionar a indústria do sexo.

Afinal, se a realidade virtual já vai fazer com que você se sinta dentro daquele vídeo, esse salto tecnológico adiciona as sensações à equação. E as sensações são a base do prazer e, portanto, de tudo o que a indústria do sexo tem a oferecer. Assim, se essa previsão realmente se concretizar, ver um filme pornô ganha novas dimensões. Mais uma vez, por que gastar dinheiro com prostituição quando você pode ter toda a experiência de fazer sexo com qualquer atriz de filmes adultos que você quiser? 

O desenvolvimento dessa tecnologia neural ainda está dando seus primeiros passos e pode ser que demore mais alguns bons anos para que algo assim aconteça, mas já é possível ver alguns conceitos que caminham nessa direção. Já há uma série de acessórios sexuais que são conectados à internet e respondem a estímulos diversos. O Ohmibody, por exemplo, vibra de acordo com o som emitido pelo computador e a empresa holandesa Kiiroo está criando equipamentos que simulam o toque de outra pessoa, mesmo que ela esteja a quilômetros de distância. 

Hera e Zeus

E se é possível fazer com que o toque seja transmitido pela rede, levar isso para filmes não é nenhum grande desafio. Na verdade, pode até ser mais simples, já que os comandos são pré-definidos e podem ser configurados pelo criador de conteúdo. Em outras palavras, essa é uma tecnologia que pode se tornar real muito em breve.

São tantas promessas de mudanças que algumas empresas do ramo do entretenimento e serviços para adultos já estão preocupadas. O Sheri's Ranch é um tradicional clube de strip próximo a Las Vegas que já está pensando em como esses novos conceitos podem afetar seus negócios. Em entrevista ao site CNET, um de seus porta-vozes diz que se os simuladores de sensações chegarem mesmo à realidade virtual, isso vai afetar de verdade os negócios.

E não é nenhum exagero, visto que a tecnologia já mexeu no rendimento desse tipo de estabelecimento outras vezes ao longo das últimas décadas. O CNET aponta uma pesquisa feita pelo The Kinsey Institute que revelou que 69% dos homens dos Estados Unidos tiveram a sua primeira experiência sexual com prostitutas em 1948. Já na década de 90, esse número caiu para menos de 15%. E a culpada foi a pornografia fácil na internet.

Facebook vs sexo

O acesso simplificado ao mundo pornô fez com que a demanda por prostitutas caísse drasticamente no país. Afinal, por que um jovem ia se arriscar para contratar uma cortesã se poderia ver uma mulher nua por muito menos dinheiro e sem correr o risco de ser descoberto por seus pais? Não por acaso, o estado americano de Nevada, onde a prostituição é legalizada, viu quase metade de todos os seus bordéis fecharem as portas ao longo dos últimos 20 anos. Assim, de uma das capitais do sexo nos EUA, o estado passou a ter apenas 17 estabelecimentos do gênero.

Ainda assim, há quem não veja problema nesse fantasma brochante da tecnologia. Uma das responsáveis pelo Sheri's Ranch, identificada apenas como Dena, diz que os negócios vão muito bem no clube e que, em 2015, o faturamento foi o melhor da última década. E, mais do que isso, ela diz não acreditar que as pessoas vão preferir um par de óculos a um belo par de pernas e todas as sensações únicas que o sexo de verdade oferece. "Pelo menos por agora", ressalta.

E nem mesmo as próprias prostitutas parecem se preocupar com isso. Segundo Alissa, uma das garotas do Sheri's Ranch, ela não se sente ameaçada pela realidade virtual e nem por esses simuladores de sensações. Para ela, a tecnologia ainda pode ser alvo de muitos problemas e depende de energia para funcionar. Afinal, o que fazer quando você estiver na vontade e não tiver uma conexão ou uma tomada por perto? Bem, talvez ela ou uma colega de profissão estejam ali por perto para lembrá-lo de que o mundo offline ainda existe e que dificilmente vai ser substituído.

Robôs e pedofilia

Voltando aos robôs, a questão trouxe à tona outro debate, desta vez bem mais delicado. Uma empresa japonesa passou a fabricar bonecas para fins sexuais com a imagem de crianças. E era óbvio que isso não foi bem visto por ninguém.

Trottla

Segundo a Trottla, responsável pelo produto, a ideia é oferecer uma réplica ultrarrealista de meninas para que potenciais pedófilos possam direcionar suas ações ao robô e não à criança de verdade. Para o criador da proposta, Shin Takagi, essa é uma maneira de fazer com que pessoas que tenham esse tipo de fetiche expressem isso dentro dos limites da lei.

Por mais que o argumento dele esteja de acordo com o que a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) — que descreve como um transtorno de personalidade e não um crime, algo que é feito pelo abusador —, não há como negar que se trata de algo de muito mau gosto. Por mais que Takagi diga que seu produto é para ajudar pessoas doentes a não cometerem esse tipo de violência, ele logo foi bombardeado por críticas de pessoas que não veem essa proposta com os mesmos olhos.

Isso não quer dizer que a tecnologia vai legalizar ou tornar a pedofilia aceitável — não ao menos enquanto violência —, mas esse caso mostra bem o quanto as coisas tendem a ficar mais delicadas daqui para frente. Não se trata apenas de oferecer uma nova forma de prazer ou quebrar o mercado de prostituição, mas de fazer a sociedade repensar o sexo. A pornografia já quebrou muitos tabus, mas é bem possível que a realidade virtual, simuladores de sensações e os robôs mudem isso de maneira muito mais radical. E é quase impossível ficar alheio a isso, queira você ou não.

Via: CNET, The Atlantic, Folha de São Paulo

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