Opinião: Qual é a ideia do iPhone 6C?

Por Pedro Cipoli RSS | em 26.01.2016 às 15h16

iPhone 6c

A Apple está “Samsungzando”? Mal começamos 2016 e rumores sobre o novo (novo?) smartphone da empresa inundaram a internet. Com a mesma estratégia utilizada no iPhone 5c, é quase certo que teremos o iPhone 6c, ou iPhone 7c, ou, mais recentemente, iPhone 5SE (Delta Pi Master!), ainda no primeiro semestre do ano. O fato de o modelo em si existir já é um sinal de que algo está mudando dentro da Apple, mudança essa que não parece positiva, e vamos entender o motivo nas próximas linhas. Mas antes, voltemos um pouco no tempo.

Steve Jobs

Ainda que seja humanamente impossível que Steve Jobs controlasse cada aspecto dos iDevices, certamente muita coisa passava pelas mãos dele. As datas de lançamento, por exemplo, e quais modelos deveriam ser anunciados com quais características, assim como quais pontos deveriam ser destacados no marketing deles. A Apple investe pesado na divulgação de seus produtos nos Estados Unidos, em especial o iPhone, ao contrário do que acontece no Brasil (afinal, não precisa).

iPhone 6cUm novo ano, um novo iPhone.

Pois bem, basta analisar a cronologia de lançamentos para vermos que antes de Steve Jobs se retirar da Apple por motivos de saúde para vermos o que acontecia antes. Desde o iPhone original até o iPhone 4, tínhamos somente um modelo anunciado por ano com sua respectiva versão do iOS, e ponto final. Nada de versão “c”, versão “s”, tamanhos de tela diferentes, lançamentos perdidos no meio do ano. Tudo acontecia em apenas um dia e “nos vemos no ano que vem”.

Isso aconteceu até o lançamento do iPhone 5 (2012), e não é segredo para ninguém que a Apple já sabe o que será anunciado nos próximos anos. A empresa não anuncia um modelo e começa a trabalhar do zero na próxima geração. Na data de lançamento desse artigo, os designers e engenheiros da equipe já devem ter os detalhes do iPhone 8 em um post-it com especificações de SoC e câmera já definidos, de forma que o iPhone 5 provavelmente já era conhecido por Steve Jobs.

A partir desse ponto, começaram os lançamentos duplos (5s/5c, 6/6 Plus e 6s/6s Plus). O que mudou?

Lucro e mercado

Querendo ou não, a evolução dos iPhones até o iPhone 5 foi bastante modesta, o que deu tempo para os fabricantes Android evoluíssem. E muito. É nessa data que as piadas sobre o iPhone defasado em relação aos concorrentes ficaram mais fortes, já que os principais fabricantes Android estavam evoluindo a pleno vapor. Ao mesmo tempo, como toda boa empresa de capital aberto, os lucros precisavam continuar crescendo. E é aí que a bagunça começou.

O primeiro capítulo dessa bagunça foi o lançamento dos iPhones 5s e 5c. O iPhone 5s era a evolução natural do iPhone 5 (onde o S significa “igual, só que diferente”), introduziu o Touch ID e etc, enquanto o iPhone 5c foi uma tentativa completamente fracassada de tentar empurrar um iPhone (não tão) acessível para o usuário, o que não “pegou”. Basicamente, era um iPhone 5 de plástico vendido por US$ 100 a menos, violando duas estratégias de Steve Jobs de uma vez só.

iPhone 6cA boa ideia que não deu certo.

Em primeiro lugar, ele era feito de plástico, algo que Steve Jobs provavelmente jamais aprovaria. É o que podemos depreender das pesadas críticas que ele fazia aos concorrentes que usavam plástico, ainda que indiretamente focando na Samsung, o maior concorrente. Em segundo lugar, a proposta do iPhone era bastante simples. É um modelo superfaturado, sem a menor preocupação com o preço, algo que para a maioria dos usuários estava até OK, desde que tivessem acesso ao que há de mais moderno no desenvolvimento de smartphones. Então, qual a razão de existência desse iPhone 5c?

Para os projetistas dos iPhones, nenhuma. Para os acionistas, porém, ele fazia bastante sentido. A popularização do Android nunca se deveu aos tops de linha, e sim aos modelos mais básicos, mais acessíveis, que focavam em um público monstruosamente maior do que o alvo dos iPhones. Onde está concentrada a maior parte das vendas, e a Apple tentou, falhando miseravelmente, abocanhar uma parcela desse público. O motivo? Ele não era nem barato, nem básico. Era um iPhone sem propósito, público ou função.

iPhone 6cUma versão miniaturizada do iPhone 6.

Já o lançamento seguinte (6 e 6 Plus) foi marcado, principalmente, por uma pressão de mercado. Um dos principais motivos de chacota dos iPhones era o tamanho da tela até o 5s, pequeno demais se comparado aos modelos com Android. De fato, usuários começaram a procurar modelos com telas maiores, uma tendência iniciada, primariamente, pelos fabricantes Android, e usuários do iPhone não tinham uma opção com iOS até então.

Então, bom, a Apple anunciou o iPhone 6 com uma tela de 4,7 polegadas para não perder mercado. E o iPhone 6 Plus, uma versão zoom do iPhone 6 com 5,5 polegadas, foi anunciado junto aparentemente às pressas. Pareceu mais um anúncio do tipo “vocês não queriam iPhones grandes? Ta aí, dois tamanhos” do que algo pensado dentro da Apple. Mais do que problemas de escolha (pequena bateria no iPhone 6 ou possibilidade de entortar no iPhone 6 Plus), a Apple violou uma segunda postura criada desde o iPhone original: otimização do tamanho de tela dos apps.

iPhone 6c

Grande parte do sucesso do iOS é a otimização do sistema e dos apps. Os desenvolvedores tinham dois aspectos de tela para trabalhar, o presente no iPhone, que mudou do iPhone 4s para o 5 (640x960 para 640x1136, a famosa "esticada"), mas mantida na transição entre o iPhone 5s e 6 (750x1334), onde a tela aumentou, mas o aspecto se manteve (cerca de 1,77), de forma que os desenvolvedores tiveram que ajustar seus apps. Já a versão Plus, que tem resolução Full HD, mantém o mesmo aspecto, só que necessita de mais pixels para ser preenchida. Os apps ficariam "esticados", não sendo necessariamente projetados para isso, outrora uma grande crítica da Apple aos apps Android, que precisam se adequar a vários tamanhos e aspectos diferentes de tela. 

A parte estranha é que o aspecto é do iPad, que se mantém o mesmo 4:3 desde o iPad original (768x1024), mesmo com a adoção do Retina (1536x2048), inclusive no iPad Pro (2048x2732). Essa mudança no iPhone, que pode parecer pequena, mostra que a Apple deixou de priorizar tanto a integridade e otimização do iOS para ceder a pressões de mercado, o que não mudou nos iPhones 6s e 6s Plus, que passou a adotar sensores de câmera capazes de gravar vídeos em 4K, algo que já estava consolidado nos tops de linha Android e era uma demanda dos usuários do iOS.

iPhone 6c

Com essas informações, começamos a entender de onde surgiu essa “demanda” do iPhone 6c (vamos chamá-lo assim daqui para frente).

Demanda?

O que é o iPhone 6c? Um iPhone 6 com tela de 4 polegadas, basicamente, com o mesmo SoC e especificações de câmera, onde o preço ainda é um mistério. Um terceiro iPhone dentro do período de um ano, trazendo a mesma proposta do iPhone 5c de atender a uma suposta demanda por um modelo mais barato, demanda esta que, em teoria, está disposta a comprometer os principais avanços da plataforma, como o 3D Touch, e trazer um hardware antigo, já que o SoC é de 2014 (Apple A8).

A economia viria naturalmente, já que o iPhone 6c traria componentes utilizados nos iPhone 6 e 6 Plus, como o SoC e os sensores de câmera, algo que ocorreu no iPhone 5c, que usava o hardware do iPhone 5. O erro de plástico não será repetido, já que praticamente todos os vazamentos mostram que ele usa a mesma estrutura do iPhone 6. Mas por que a Apple tentaria novamente uma proposta que deu errado? Afinal, bastaria continuar vendendo os iPhones 6 até esgotarem.

“Mas é óbvio, ele terá uma tela de 4 polegadas” é o principal motivo apontado pela maioria dos rumores. Então, esse é o “recurso”, uma tela de 4 polegadas? Há realmente uma demanda para justificar um terceiro iPhone? Se fosse o caso, é bastante fácil encontrar iPhones 5, 5c e 5s novos sem nenhuma dificuldade. No Brasil, iPhones 4s são vendidos até hoje! Defasados? Sim, mas a verdade é que eles continuam sendo vendidos, já que estão encostados desde os respectivos lançamentos. 

O que acontece, porém, é que eles não estão disponíveis na Apple, não é mesmo? Estão disponíveis em lojas online e físicas e em operadoras, mas não na Apple. Mercadologicamente, eles já foram comprados da Apple, que já contabilizou seus lucros, algo que seria facilmente resolvido com um novo iPhone. Só que a Apple, que não é boba nem nada, oferece diferenciais: SoC mais recente e um par de câmeras melhor. De qualquer forma, o usuário ainda não tem acesso ao 3D Touch, filmadora em 4K e câmera frontal de 5 megapixels.

É um iPhone novo, mas não é novo iPhone. E qual o problema com isso? Vamos à conclusão.

Perda de aura

Essencialmente, a Apple está misturando duas posturas de mercado incompatíveis entre si. Por um lado, quer que os iPhones tenham aquela aura de produto de luxo, de inovação, o “superfaturado que vale a pena”. Do outro, tenta seguir tendências de mercado e ceder às tentações dos consumidores, querendo trazer para si todo tipo de usuário, uma postura que a Samsung mantém com sua meia dúzia de smartphones anunciados a cada seis dias.

Focar em duas estratégias implica, necessariamente, da diminuição da importância singular de cada uma delas. Um terceiro iPhone em um período de um ano resulta na diluição da aura de novo dos iPhones como um todo. Algo como “eu comprei o novo iPhone!” respondido com “novo? Qual deles? O 6s? O 6s Plus? O 6c? São tantos!”. A Apple ainda está pelo menos 200 aparelhos atrás da Samsung em número (Fechou? Ligou? Vamos vender!), mas é uma postura que está deixando de funcionar até para a empresa que criou esse conceito.

Isso está acontecendo por uma mudança de gerência na Apple. Essa ausência da “mão mágica de Steve Jobs” está realmente se mostrando mais grave do que parecia à primeira vista. Provavelmente, ele jamais aprovaria a Apple Pencil, dado às severas críticas ao uso de canetas digitais em tablets, em especial a forma como ela é recarregada. Ou o case com bateria (a "tartaruguinha"), ou um Magic Mouse com carregador na parte de baixo, ou quem sabe até o iPad Mini. Mais provável ainda, pouco gostaria de ver 3 iPhones anunciados em menos de um ano sob o risco de perder a aura de exclusividade famosa do aparelho. Se essa mudança será boa ou não, bom, veremos em breve.

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