Oscar e Netflix buscam qualidade, mas traçam caminhos diferentes pelo público

Por Gustavo Rodrigues RSS | em 01.02.2016 às 10h23

OscarSoWhite

O Oscar e a Netflix têm sido alvos dos holofotes. A celebração realizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas sempre gera controvérsia tanto pelos seus indicados quanto pelos vencedores, mas pelo segundo ano seguido a ausência de artistas negros nas principais categorias chamou atenção. Enquanto isso, a Netflix nada a braçadas largas para se consolidar em todo o globo, seja pelo alcance do streaming ou pelo conteúdo exclusivo.

Há muito tempo se discute se os votantes da Academia não estão obsoletos pelas escolhas que tomam referente aos indicados e vencedores, principalmente quando deixam de lado aqueles que mereciam um destaque muito maior – por exemplo, a ausência de Ridley Scott entre os concorrentes à estatueta de Melhor Diretor. Um bom exercício é lembrar quais foram os premiados dos últimos anos e analisar o quão relevantes ou bons eles realmente ainda são. Hoje, pouco nos importamos ou lembramos de Birdman, mas ainda nos encantamos com Whiplash e O Grande Hotel Budapeste

Contudo, muito mais do que o merecimento do vencedor, o questionamento é a ausência de atores negros entre os indicados às categorias principais, assim como no ano passado. Por mais que não vejamos merecimento para que alguns entrassem, como Will Smith (Um Homem entre Gigantes) e Michael B. Jordan (Creed) ao prêmio de Melhor Ator, ficamos bastante confusos com a ausência de Idris Elba (Beasts of No Nation) e do latino Oscar Isaac (Ex Machina) entre os concorrentes a Ator Coadjuvante.  

Junto com a hashtag #OscarSoWhite, o boicote de artistas negros à premiação já foi declarado pela atriz Jada Pinkett Smith e o diretor Spike Lee. A controvérsia será ainda maior com as possíveis piadas que Chris Rock, o apresentador da cerimônia deste ano, pode fazer logo na abertura da festividade. Mas muito mais importante do que isso é tentar enxergar o quão baixa é a evolução da indústria cinematográfica em relação às minorias.

Apesar do Oscar sempre ter filmes com temas bastante diferentes, no final das contas a sociedade infelizmente só lembra do vencedor, assim indicações que tenham mais pluralidade cultural são o exemplo máximo que algumas obras podem alcançar.

Capa Variety

Ao contrário do que mais recebe destaque pelos escolhidos da Academia, o conteúdo da Netflix se torna mais abrangente a cada novo lançamento. Seja pelo conteúdo local, gênero artístico ou cultural, dificilmente algo do catálogo não corresponderá ao estilo do assinante. Por exemplo, o primeiro filme do serviço de streaming foi Beast of No Nation, produção totalmente focada no abuso da inocência de crianças africanas em países em guerra. Orange is the New Black e Jessica Jones são focadas no público feminino, Club de Cuervos tem o futebol como fio condutor e Sense 8 é uma gigantesca mistura de culturas.

O cuidado de criar conteúdo para todos os tipos de público é um diferencial bastante relevante para um produto como este. Quanto mais possibilidades, maior a chance de fazer com que novos consumidores apareçam. Por exemplo, imagine quantos fanáticos pelo Universo Marvel não aderiram ao serviço de streaming após o lançamento de Demolidor, ficaram satisfeitos com Jessica Jones e agora esperam por Luke Cage. Master of None trouxe humor sem atacar estereótipos e ainda ressaltou todo o problema de casting na indústria cinematográfica. Grace and Frankie é protagonizado por idosas, algo que raramente recebe o enfoque em obras fictícias. 

Não é por acaso que o serviço tem recebido cada vez mais assinantes, o oposto do que ocorre com os canais pagos, gerando a ironia da diminuição da possível audiência do próximo Oscar, transmitido pela TNT no Brasil em 28 de fevereiro. Conteúdo que não seja excludente ao bolso do consumidor e culturalmente é mais fácil de ser aceito, o que tende a ser mais comum nos próximos anos do que é hoje, tornando o medo dos canais por assinatura ainda maior. 

Beasts of No Nation

Mesmo que o Oscar não seja realmente relevante para o consumidor comum e para os estúdios de cinema, que se importam mais com a bilheteria do que com estatuetas, a Academia precisa reconsiderar seus métodos de escolha e até mesmo dos votantes, tanto para visibilidade da cerimônia quanto para tornar-se mais justa. Afinal, Divertida Mente é bom a ponto de ser indicado como Melhor Filme, Alicia Vikander atuou melhor em Ex Machina do que em Garota Dinamarquesa e Leonardo DiCaprio vai ganhar mesmo com uma atuação não tão boa quanto em O Lobo de Wall Street

A Netflix abraça o mundo, mas a Academia é o típico clube do Bolinha. Para o consumidor resta escolher o que melhor o representa: o presente com futuro brilhante ou algo preso ao passado. 

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