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Série Astronautas parte 2: quais os impactos da microgravidade no corpo humano?

Por Bruna Rasmussen RSS | 16.07.2013 às 06h20

Astronauta

Turbinas gigantes movem a nave para fora da atmosfera terrestre mais rapidamente do que você pode imaginar. Em poucos minutos seus pés já não tocam mais o chão, os braços levitam e você pode fazer coisas como andar pelo teto e dar cambalhotas no ar. Bem-vindo à microgravidade.

Mas por mais divertido que possa parecer, não existir uma força puxando seu corpo para baixo tem efeitos impressionantes no organismo – e eles não são muito positivos. Entenda como o corpo, acostumado com a gravidade da Terra, reage à microgravidade e quais são seus efeitos a curto e longo prazo.

Leia também: Série astronautas parte 1 - como é a vida no espaço?

Primeiros sintomas: desorientação e enjoo

Enquanto você se ocupa de brincar de andar em paredes e de fazer acrobacias no ar, o corpo já começa a sentir os efeitos da microgravidade. O nosso senso de orientação na Terra, por exemplo, é composto por uma série de sensores do corpo, tais como a visão, a audição e a sensação do tato. No espaço, tudo isso sofre alterações

Devido à microgravidade, a forma como você sente seus braços e suas pernas muda, bem como referências de localização. Há ainda o aparelho vestibular, órgãos do ouvido interno responsáveis pelo equilíbrio e que utilizam a gravidade para medir a velocidade e a direção em que você se move – obviamente, na microgravidade este poderoso sensor fica invalidado.

Dessa forma, é comum que nos primeiros dias no espaço os astronautas se sintam desorientados, sofrendo de dores de cabeça e náusea – segundo o Race to Mars, este último sintoma acomete 40% das pessoas que vão para o espaço.

Fluxo sanguíneo

Você já observou em fotos ou vídeos que os astronautas são sempre rechonchudos? Isso não se dá graças a uma farta dieta intergaláctica, mas por alterações no fluxo sanguíneo devido à microgravidade. Na Terra, o sangue que se movimenta pelas veias tem grande ajuda da gravidade. Sem ela, o fluxo se concentra na parte superior do corpo, principalmente na cabeça. Assim, os astronautas tendem a ficar com o rosto inchado e com pernas de aparência mais fina.Efeitos da microgravidade

Na Terra e no espaço. Fonte: Reprodução/NSBRI

Devido a isso, há um excesso de fluidos na área do tórax e o rim passa a funcionar de forma limitada. Como consequência, o astronauta sente menos sede e passa a consumir menos líquido, urinando menos. O próprio músculo cardíaco tem sua função reduzida, já que há menos fluidos no organismo e o corpo exige menos energia para se movimentar – levitar cansa menos que andar.

Músculos e ossos

Exigindo menos do corpo, não é só o coração que fica subutilizado, mas todos os músculos e a própria estrutura óssea – principalmente em viagens mais longas. Sem precisarem suportar o corpo, que agora flutua, os músculos se deterioram e se atrofiam, enquanto que os ossos perdem cálcio e ficam mais fracos. Durante viagens curtas, isso não chega a ser problema grave, porém em missões mais longas, os astronautas precisam se cuidar. Afinal, eles não ficarão livres da gravidade para sempre.

Para se exercitarem no espaço, minimizando os danos ósseos e musculares, os astronautas chegam a usar esteiras e bicicletas ergométricas, amarrando-se com tiras e elásticos para forçar o corpo. 

Efeitos da microgravidade

Frank De Winne na ISS. Fonte: Reprodução/Wikimedia Commons

Além disso, é comum os astronautas sentirem dores nas costas. Com a microgravidade, as vértebras se espaçam e eles de fato ficam alguns centímetros mais altos – voltando à Terra, isso é revertido.

Os cinco sentidos

Tato, olfato, audição, visão e paladar também sofrem com as alterações de ambiente e de gravidade. Devido à concentração de sangue na cabeça, o nervo óptico é comprimido, modificando a forma com que o astronauta enxerga, deixando a visão mais borrada. Além disso, devido à exposição a raios cósmicos, é comum que os astronautas enxerguem luzes esquisitas mesmo com os olhos fechados. 

Em relação à audição, todo mundo sabe que o som não se propaga no espaço. Mas dentro da estação espacial existem diversos ruídos das máquinas e é possível ouvir sons normalmente.Já o paladar sofre graves alterações. Com a microgravidade, os astronautas se sentem como se estivessem sempre gripados. Assim, a capacidade de sentir gostos fica comprometida e é preciso recorrer a alimentos altamente picantes para sentir alguma coisa. O olfato também é prejudicado e sentir cheiros no espaço é bastante difícil.

Por fim, os astronautas relatam que a capacidade de tato não é alterada. Mas há modificações no pé, cujas solas ficam estranhas depois de passarem meses sem serem usadas. 

Readaptação: a volta para a Terra

Talvez mais intensa do que a adaptação do corpo no ambiente de microgravidade seja a volta do astronauta para a Terra. Os músculos e ossos estão mais fracos, o fluxo sanguíneo foi alterado e a orientação e os movimentos são outros. 

Relatos de astronautas trazem informações sobre dores no corpo, principalmente no pescoço e nas costas – afinal, sem gravidade não é preciso segurar a própria cabeça. Para ajustar a circulação, muitos astronautas precisam utilizar roupas especiais de compressão e a perda muscular pode demorar para ser revertida.

Efeitos da microgravidade

Chris Hadfield de volta à Terra. Fonte: Reprodução/AP

"Assim que nós pousamos eu pude sentir o peso dos meus lábios e da minha língua... eu não havia percebido que eu aprendi a falar com uma língua sem peso”, disse Chris Hadfield, astronauta canadense que voltou recentemente à Terra, após passar cinco meses a bordo da ISS. Segundo ele, as dores no corpo são intensas e ele ainda precisa tomar banho sentado para não correr o risco de desmaiar no chuveiro, devido à fraqueza. 

Há ainda um fenômeno curioso que acontece com os astronautas após uma missão: é comum eles derrubarem objetos. Afinal, no espaço, basta largar um copo para que ele flutue onde está, sem risco de se quebrar. As adaptações são várias. De acordo com a Agência Espacial Canadense, um astronauta que volta à Terra precisa de no mínimo três semanas para voltar a dirigir, por exemplo.

Dar cambalhotas e flutuar na microgravidade parece ser divertido, mas você estaria disposto a sujeitar seu corpo a tantas modificações? 

Leia amanhã: Série Astronautas parte 3 - como funciona a roupa espacial?

Leia também: Série Astronautas parte 1 - como é a vida no espaço?

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