Como os dispositivos vestíveis podem mudar o modo como nós pensamos

Por Rafael Romer RSS | em 28.01.2016 às 08h38

Tecnologia vestível

Apesar do barulho que continuam fazendo nos principais eventos da indústria de tecnologia, os dispositivos vestíveis inteligentes, como smartwatches e smartbands, ainda estão longe de serem tão indispensáveis para o usuário final como os smartphones já são atualmente.

Mas conforme esses dispositivos continuam evoluindo, testando diferentes formatos e aplicações, a tendência é que sua popularidade também cresça entre consumidores. É só imaginar a utilidade de produtos como as lentes de contato inteligentes que estão há algum tempo sendo desenvolvidas pelo Google: há um potencial grande de estreitar ainda mais a relação entre o ser humano e as tecnologias que ele utiliza no dia-a-dia.

Conforme essa relação vai ficando cada vez mais íntima, também é importante questionar quais serão os impactos destes wearables no nosso corpo, sociedade e até na própria forma como pessoas se comportam e pensam - tudo para antecipar e evitar problemas que possam surgir com esses avanços.

"Estamos a caminho de um tipo de wearable que vai mudar a forma como nós pensamos completamente", comentou o consultor em inovação digital Luli Radfahrer durante uma palestra sobre o impacto do avanço da Internet das Coisas na tarde desta quarta-feira (28) na Campus Party Brasil, em São Paulo. "É uma realidade mediada pela máquina, a ideia do mundo offline e online caem por terra por vez, a tecnologia vai fazer parte do nosso modo de pensar".

De acordo com Radfahrer, um exemplo deste tipo de tecnologia são as interfaces cérebro-computador (BCI, na sigla em inglês) capazes de conectar cérebros orgânicos com sistemas eletrônicos para auxiliar, ampliar ou até reparar as capacidades cognitivas e sensoriais de pessoas e animais. 

Apesar de parecer coisa de ficção científica, as pesquisas com BCI começaram na década de 1970 e evoluíram muito desde então. E nem precisamos ir tão longe para encontrar exemplos deste tipo de tecnologia e pesquisa: na própria Campus Party do ano passado, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis falou sobre um futuro em que navegaremos na Internet mentalmente.

Mas qual seria o impacto deste tipo de tecnologia na humanidade? Para Radfahrer, um dos potenciais negativos dessa tendência é a possibilidade de criar duas classes completamente diferentes de seres humanos: aqueles que poderão ter acesso a essas tecnologias e ter suas capacidades intelectual e/ou física expandidas e aqueles sem acesso a nada, que ficarão limitados ao potencial orgânico padrão de uma pessoa.

"Quando eu ponho um chip na cabeça do indivíduo, o pensamento da pessoa muda com isso. Comparando o pensamento de alguém que tem e alguém que não tem essa tecnologia, a distância é monstruosa. É uma distância na forma de pensar", disse o consultor. "O grande problema desta tecnologia é criar castas diferentes de ser humano, alterar concepção de identidade e a relação com outras pessoas e com o mundo".

Outro desafio que a tendência pode complicar ainda mais é um tema já discutido atualmente, mas que deverá se expandir exponencialmente quando dispositivos eletrônicos e orgânicos se conectarem: a proteção de dados.

Segundo Radfahrer, ainda vivemos em uma espécie de "feudalismo digital", em que usuários "juram fidelidade" a grandes empresas, utilizando equipamentos e serviços delas e produzindo dados que podem ser utilizados por estas mesmas empresas em benefício próprio. É só pensar no Facebook como um exemplo clássico: ao criar e fazer um post, aquele conteúdo passa a ser do Facebook, mesmo que a autoria seja sua. Querendo ou não, quem utiliza este dado e pode lucrar com isso é o Facebook.

Esse feudalismo pode se complicar ainda mais no momento que uma fabricante de um chip do tipo BCI tenha acesso à rede neural de uma pessoa. Se hoje já é possível prever informações sobre indivíduos e direcionar conteúdo com o uso do Big Data, o potencial de sugestão será ainda maior com os futuros wearables. "As grandes máquinas e empresas poderão influenciar a forma como você é; como você pensa; como você acredita ser e, pior, com que decisões delas pareçam ser suas", provocou. "Essa nova propriedade dos dados é que nós precisamos prestar mais atenção".

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