Não à pirataria, utilize Open Source!

Por Boris Kuszka RSS

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Muitos estranharam quando no final do ano passado o CEO da Red Hat, Jim Whitehurst, anunciou o acordo com o CentOS, um clone do Red Hat Enterprise Linux, mesmo com um custo grande por parte da Red Hat para testar, homologar, estabilizar e finalmente gerar um produto de classe enterprise. Esse acordo potencialmente canibalizaria o mercado de sistemas operacionais. Mas essa não é a estratégia, pois o mercado de sistemas operacionais e de software em geral tem espaço para vários modelos de negócio: software proprietário pagando licença e suporte, software livre pagando subscrição e software livre não pagando nada. Claro que cada modelo tem as suas vantagens e desvantagens e suas justificativas para adoção.

No caso de empresas cujo negócio suporta não ter nenhuma companhia se responsabilizando pelo nível de serviço do software de infraestrutura e que resolvem bancar esse risco utilizando software livre sem subscrição, ter um clone gratuito do próprio software é um bom negócio: a empresa cliente utiliza um programa gratuito, 100% compatível com o seu e, quando tiver a necessidade de ter um SLA (acordo de nível de serviço) para seu software de infraestrutura, ele naturalmente irá para o seu próprio.

A estratégia lembra um pouco o caso quando o próprio Bill Gates, em um famoso discurso na universidade de Washington em 1998, declarou sobre a pirataria de seu sistema operacional na China: “Um dia eles pagarão e, já que eles vão roubar de qualquer jeito, queremos que eles roubem de nós. Eles vão se viciar e, de alguma forma, descobriremos como ser pagos em algum momento na próxima década”. Hoje em dia Bill Gates consegue um bom faturamento na China, já que existe uma porcentagem de usuários que não pirateia por medo da lei.

Foi bom, na época, fazer “olho gordo” quanto à pirataria. É claro que no caso do CentOS estamos falando de Open Source, e faz parte do modelo de negócio o aparecimento de clones totalmente legais. A versão sem custo mantém a cultura, divulga a tecnologia e cria um ecossistema de parceiros e de serviços.

A opção “grátis” é um modelo de negócio que está sendo mais explorado a cada dia.  É possível ver cada vez mais empresas como Google que oferecem dezenas de serviços gratuitos, mas conseguem retorno com publicidade, que foi totalmente reformulada por eles. E que retorno! O Google é uma das maiores empresas da atualidade, com um faturamento de mais de US$ 50 bilhões, oferecendo serviços gratuitos para milhões de pessoas.

A gratuidade está em todos os lugares: jornais gratuitos estão sendo distribuídos na rua, com retorno exclusivamente baseado nos seus anunciantes; músicos estão desistindo de ganhar dinheiro vendendo CDs, focando-se em shows e merchandising, que utilizam os CDs amplamente pirateados como divulgação e cada vez menos como fonte de receita. Existem até músicos que disponibilizam todo seu acervo gratuitamente pela web. Há ainda os jogos gratuitos off-line, mas que cobram mensalidades para utilizar seus servidores que permitem partidas multiplayer online. Todos são exemplos de negócio lucrativo.

Claro que o “grátis” não se sustenta sozinho e é preciso ter um modelo de negócio por trás, sendo necessário cobrar pelo valor que o serviço ou o produto realmente possui. Um exemplo é a indústria musical que está se reformulando completamente, até mesmo porque abusaram no preço que cobravam nos discos de vinil, depois nos CDs e nem chegaram a conseguir vender os super-áudio CDs, pois a distribuição digital "matou" a mídia.

Isso também está acontecendo na indústria de software: preços abusivos de licenças e armadilhas de lock-in, que dificultam migrar para outro software alternativo, estão fazendo o mercado repensar na infraestrutura que deve adotar. As empresas não se recusam a pagar pelo software, mas e a pagar tão caro pela licença? Deve-se pagar pelo serviço agregado ao software, ao suporte, às correções de segurança e homologações de outros fabricantes. O Open Source quebra esse paradigma, ao mesmo tempo em que dilui os custos de desenvolvimento com outras empresas que contribuem para o código e precisam fornecer um serviço de alto nível (Premium), pois se o serviço não tiver qualidade para que o cliente continue pagando por ele, simplesmente não há renovação.

Dia 8 de abril de 2014 foi o último dia em que a Microsoft deu suporte para o Windows XP: há um movimento no mercado para a busca de alternativas. Afinal, patches de segurança não serão mais desenvolvidos, ficando o XP à mercê de hackers. Migrar para uma versão mais nova? Adotar o Linux e entrar para o mundo de padrões abertos? Experimentar algo novo e quem sabe utilizar tablets com Android ou iOS? Todos sabem os problemas de compatibilidade com mudanças de sistemas operacionais e as armadilhas de lock-in que afloram durante os testes.

Talvez seja o momento de pensar em uma nova arquitetura de TI com acesso a todos os sistemas da empresa via browser, sem expansões ActiveX que forçariam a utilização da Microsoft e de uma determinada versão de browser (existem vários sistemas presos ao Internet Explorer que não estão disponíveis nas versões mais novas do Windows; esta é a armadilha do lock-in pegando o próprio criador do lock-in!). E como ficam as ferramentas de Office? Já existem ferramentas gratuitas (como o Libre Office, que estou utilizando para escrever esse artigo) tanto online como para instalar no desktop. Alternativas existem. Se a preocupação é a licença do sistema operacional e a legalidade, utilize Linux!

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Boris Kuszka é o Diretor dos Arquitetos de Solução da Red Hat.

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